300
A cobertura que
a imprensa está dando ao filme estrelado pelo Rodrigo Santoro
é massiva e vergonhosa. Trezentos é um espetáculo
cinematográfico bastante interessante. Impossível assistir
ao filme uma só vez. Entretanto, do ponto de vista histórico
é lastimável. O filme se baseia na obra de Frank Miller,
a qual é uma péssima adaptação da história
da Batalha das Termópilas.
Na sua História, Heródoto de Helicarnaso, principal
fonte do evento, nos deu um detalhado panorama das vidas de Ciro,
Cambises, Dario e Xerxes.
A campanha deflagrada por Xerxes foi idealizada e começou a
ser preparada por Dario. Duas eram as motivações persas:
durante o reinado de Dario, os gregos haviam invadido Sardes, tributária
do Império Persa, e colocado fogo no bosque sagrado; durante
a subseqüente campanha de Dario para vingar o agravo, os atenienses
haviam derrotado os persas em Maratona.
Com a morte de Dario, Xerxes se tornou imperador. Pouco antes havia
sido nomeado príncipe jurado do império com a ajuda
do espartano Demarato, que era filho de Aristón (rei deposto
de Esparta que se refugiou na corte persa em Susa).
Relata Herodoto que durante a preparação da guerra Xerxes
chegou a desistir da empresa, mas foi convencido em contrário
por um sonho. Segundo o historiador grego, os persas contavam com
1,7 milhões de homens de infantaria quando atravessaram o Helesponto.
A frota persa contava com milhares de embarcações.
As operações de engenharia que precederam a campanha
são dignas de um filme. Xerxes mandou escavar um canal para
passar seus barcos pelo istmo próximo ao monte Atos. Mandou,
também, construir uma ponte de barcos para que suas tropas
de infantaria atravessassem o Helesponto. A construção
desta ponte sobre o mar foi um feito memorável, uma prova da
resistência e da determinação do imperador persa.
Após ser construída a ponte foi destruída por
uma tempestade. Xerxes ordenou a reconstrução da ponte,
não sem antes mandar que o próprio mar fosse açoitado
à chicote. Quando reuniu suas tropas e passou-as em revista
já na Europa, o Persa chorou ao considerar a magnitude de sua
empresa e a fatalidade da vida humana ser tão curta.
Quando chegou a Grécia, Xerxes mandou emissário a quase
todas as cidades exigindo sua submissão (terra e água).
Só não mandou embaixadores a Atenas e Esparta, porque
pretendia aproveitar as divisões que haviam entre os gregos
intimidando as cidades mais frágeis e obrigando-as à
submissão antes de tratar dos atenienses e espartanos.
Ao tomar conhecimento da guerra os gregos começaram a se confederar
para fazer frente ao inimigo. Foi neste contexto que os espartanos
tentaram conter os persas nas Termópilas, um desfiladeiro estreito
através do qual o exército de Xerxes teria que passar
para dominar toda a Grécia.
Herodoto relata muito pouco sobre a vida de Leonidas. Ficamos sabendo
que se tornou rei de Esparta porque Cleómenes, seu antecessor,
morreu sem deixar filhos e Leonidas era digno e casado com uma filha
do rei morto. Escolheu o rei 300 espartanos em idade militar que já
tinham filhos e convidou os tebanos para acompanhá-lo. Chegou
às Termópilas, para onde rumaram também locros
e focenses, decidido a deter o avanço dos persas para, através
do exemplo, infundir coragem aos gregos confederados e dar tempo para
que eles organizassem a defesa contra os invasores.
A resistência dos gregos deteve os persas por alguns dias, mas
todos acabaram sendo massacrados em razão de uma traição.
O grego Epialtes conduziu as tropas persas até a retaguarda
grega possibilitando que Leônidas e os seus fossem cercadas.
Durante a batalha final, tombou o rei espartano e um combate furioso
se realizou pela posse de seu corpo. Morreram nas Termópilas
4.000 gregos, com destaque para os 300 espartanos que resistiram até
serem massacrados sobre uma chuva de flechas.
Vê-se, pois, que o roteiro do filme é historicamente
falho. Em 300 Leonidas mata os emissários de Xerxes e Herodoto
afirma que o Persa não enviou embaixada a Esparta e Atenas.
Não há na história nenhum relato sobre o suborno
dos Éforos, sobre a divisão política na cidade
de Esparta após Leonidas ir para as Termópilas, bem
como nenhuma referência a encontros entre Xerxes e Leonidas.
O Xerxes cinematográfico é um gigante afeminado cercado
de seres infernais e deformados. O Xerxes histórico foi um
homem suficientemente capaz para conduzir uma empresa militar sem
paradigma em razão de sua grandeza. Mas o resultado da guerra
era desde logo duvidosa em razão do gigantismo do exército
e frota persas. Segundo Herodoto, após a travessia do Helesponto,
o persa Artabano, tio de Xerxes, avisou o imperador que não
existiam portos em que a frota persa pudesse se abrigar em caso de
mau tempo. Artabano sustentou, também, que e uma quantidade
tão grande de soldados não poderia ser alimentada por
muito tempo em territórios tão pobres como os gregos.
Epialtes é representado no filme como um espartano deformado
que, rejeitado por Leonidas se passa para o lado persa. Entretanto,
pelo relato de Heródoto ficamos sabendo que até o filho
de um rei deposto de Esparta acompanhou Xerxes e que várias
cidades da Tesália se submeteram ao Persa cedendo-lhe soldados
e alimentos. Não é de se estranhar que um grego indicasse
aos persas a maneira de contornar o obstáculo da falange espartana
nas Termópilas para cercá-la e massacrá-la.
No final do filme Leonidas quase acerta Xerxes. Este fato não
é relatado por Herodoto. O furioso combate pela posse do corpo
de Leonidas não foi representado no filme. Em 300 o rei espartano
morre ao mesmo tempo que seus soldados.
300 dá ênfase a perícia, coragem e determinação
dos combatentes espartanos. Seus aliados são representados
como soldados amadores e inúteis. Entretanto, apesar da maior
glória dos espartanos, morreram nas Termópilas 4.000
gregos e Herodoto reconheceu o valor militar de todos eles sem exceção.
Heródoto dá detalhes minuciosos sobre as tropas persas
e suas armas. Não há na sua obra nenhuma referência
à utilização de bombas ou de bestas de guerra
como elefantes e rinocerontes. No filme os persas usam bombas e as
bestas de guerra desempenham uma função importante.
Apesar de suas deficiências históricas 300 é um
espetáculo poderoso. Tem o mérito de entreter e de despertar
o interesse do expectador para aquela remota batalha em que os destinos
da civilização estiveram em jogo.
300 coloca em evidência a capacidade da indústria cultural
de destruir ícones, de deformar completamente a história
de eventos narrados à mais de dois milênios. Sua aliada,
a imprensa, parece não se importar com isto e faz a propaganda
do filme como sendo fiel a Frank Miller, sem sequer questionar se
o americano foi fiel a Heródoto de Helicarnaso. A lógica
da indústria cultural é a produção de
mercadorias, a da imprensa é o comércio de anúncios.
O resultado deste casamento é muita desinformação.
Já estou até vendo o resultado. Professores de história
sendo questionados sobre o filme 300 e histéricos com a reação
dos alunos quando tentarem provar que o mesmo não é
fidedigno a Heródoto de Helicarnaso. Sua tarefa será
inglória, pois o poder de sedução do filme é
imenso. E não há qualquer produto pedagógico
que se aproxime da produção cinematográfica da
péssima adaptação de Frank Miller.
Fábio de Oliveira Ribeiro