REVISTA CRIAÇÃO

A ARTE, OS ARTISTAS E O ESTADO

O responsável pela 28ª Bienal de Arte de São Paulo, Ivo Mesquita, pretende organizar o evento de uma maneira diferente: uma bienal sem obras de arte. Sua proposta provocou um interessante debate.

O que é arte? Esta pergunta de quatro vocábulos já rendeu milhares de definições, centenas de livros e milhões de frases. Desde Aristóteles a arte ocupa o centro das cogitações e das discordâncias filosóficas.

Qualquer mortal que quiser definir o vocábulo "arte" irá penetrar numa floresta conceitual escura e será obrigado a atravessar um verdadeiro pântano de dúvidas. Caso vença todas as dificuldades ficará na alça de mira de todos que já percorreram o mesmo caminho e chegaram a destinos diferentes.

Não sou suficientemente atrevido para adentrar nos domínios da "arte". Sem ofender animais, vegetais e minerais, a única coisa que arrisco dizer é o seguinte: "arte" é um produto da atividade humana. Mas nem por isto todos os seres humanos são ou podem ser considerados "artistas".

O "artista" é uma espécie de xamã. Ambos exercitam a habilidade de transformar seus sentimentos e pensamentos em textos e objetos capazes de se tornarem objeto do desejo ou reflexão das outras pessoas. Por mais que não possamos compartilhar as experiências subjetivas de ambos, sabemos que alguém merece ser chamado "xamã" ou "artista" pelo simples fato de provocar alguma reação dentro de muitas pessoas. Mesmo que estas reações sejam qualitativa e quantitativamente diferentes.

Nas sociedades tribais o xamã ocupa um lugar de destaque. O mesmo destaque que os artistas e candidatos a artistas têm e pretendem ter nas sociedades que se autodenominam modernas.

Pelo pouco que estudei de antropologia descobri que os xamãs não estão isentos de trabalhar para manter seu próprio sustento ou, no mínimo, seu trabalho é manter as tradições e a coesão do grupo a que pertencem. Muitos artistas e candidatos a artistas acham que não precisam trabalhar e que o Estado tem a obrigação de sustentá-los.

O Estado não produz valor, apenas arrecada tributos. A massa de recursos gerenciada pelo Estado é muito, muito, muito, muito, muito maior do que a maior de todas as fortunas privadas existentes em qualquer sociedade politicamente organizada. Assim, desde que surgiram como resultado das guerras napoleônicas os Estados têm sido assediados pelos os artistas e candidatos a artistas (alguns dos quais estão menos preocupados com a "arte" do que com um “meio de vida”, como se o Estado pudesse ou devesse ser uma espécie de mecenas). Mas os recursos estatais para o financiamento e difusão da "arte" são limitados porque existem outras obrigações que o Estado tem que cumprir. É aí que a porca torce o rabo!

Que "arte" deve o Estado prestigiar? Quem são os artistas ou candidatos a artistas que merecem ser financiados pelo Estado? Quais são os critérios para escolher quem será o responsável pela administração dos recursos públicos destinados à “arte” e aos artistas e candidatos a artistas?

Para responder a pergunta proposta pelo JD eu precisaria estar em condições de responder as dúvidas que me surgiram. Confesso, entretanto, que não tenho competência para tanto. A única coisa que me ocorre dizer é a seguinte.

SE A BIENAL NÃO TIVER OBRAS DE ARTE NÃO IREI VISITÁ-LA!

Fábio de Oliveira Ribeiro

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