REVISTA CRIAÇÃO

A NOVA GUERRA DO PELOPONESO


“A tal ponto chegaram os ............., por causa de sua boa sorte, que não admitiam qualquer empecilho aos seus propósitos; sem ponderar se suas forças eram poderosas ou deficientes, pensavam que de qualquer modo iriam conseguir o fácil e o difícil. A causa desse estado de espírito foi o sucesso que, contra a própria lógica, coroou a maioria de suas iniciativas, incutindo-lhes a força que a esperança dá.”


O fragmento acima parece descrever a história recente dos EUA. Impossível não chegar a esta conclusão, especialmente quando levamos em conta o fato de que os americanos realizam duas campanhas militares (Iraque e Afeganistão) e parecem prontos a iniciar duas outras (Irã e Geórgia/Ossetia).

Ledo engano. O texto em questão é de autoria de Tulcídides e foi retirado de sua História da Guerra do Peloponeso. O fragmento faz referência a autoconfiança dos atenienses. Após vencer as Guerras Médicas (contra os persas) e submeter diversas cidades-estado à sua vontade, Atenas estava no topo do mundo e se sentia confiante para tentar impor sua vontade sobre toda a Grécia.

O resultado da Guerra do Peloponeso é bem conhecido. Liderando várias cidades-estado Esparta derrotou e submeteu Atenas. Nunca mais os atenienses recuperariam o poder, independência e glória dos tempos de Péricles.

Ao desafiar os russos e se comportarem como se pudessem dominar militarmente o mundo inteiro os americanos estão cometendo o mesmo erro que os atenienses? Esta é uma pergunta que os jornalistas poderiam fazer ou tentar responder caso tivessem o hábito de usar e abusar da história.

É claro que toda comparação histórica é arbitrária e pode ser considerada anacrônica. Entretanto, a história é uma fonte inesgotável de experiências bem sucedidas e de fracassos retumbantes. Em razão de sua característica textual, implicação teórica e importância no imaginário militar, a história merece ser levada em conta quando meditamos ou descrevemos os conflitos internacionais.

Os erros que os povos cometem nunca são idênticos, mas a analogia pode ser um recurso jornalístico interessante. Se não nos proporciona a capacidade de apreender a verdade ou adivinhar o futuro, pelo menos nos impede de apoiar de maneira irrefletida iniciativas temerárias.

Nós pertencemos à mesma espécie que nossos antepassados e certamente estamos sujeitos aos mesmos sentimentos, pensamentos e auto-enganos. Parmênides dizia que a verdade é um caminho aberto para o indivíduo apenas como indivíduo. Os caminhos trilhados pelos grupos humanos, quaisquer que sejam seus propósitos, são sempre enganosos.

Quando estamos diante de um conflito de proporções épicas que pode comprometer a vida de todos no planeta inteiro o que mais convém ao jornalismo como instituição social e aos leitores como indivíduos? Fomentar a guerra, atiçar as esperanças de um dos lados, apoiar aberta ou veladamente um dos contendores?

A solução amigável deste conflito entre russos e americanos pode parecer menos rentável para a indústria da guerra e para as empresas de comunicação, mas nem por isto deixa de ser a melhor saída para cada ser humano isolado. Além disto, numa terra devastada por uma guerra nuclear que lucro poderiam ter as empresas de comunicação?


Fábio de Oliveira Ribeiro

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