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A SOMA DE TODOS OS MEDOS "A soma de todos os medos" e mais um exemplo de como o cinema catástrofe americano distancia-se da realidade a propósito de tentar capta-la em todos seus matizes. Terroristas nazistas conseguem uma bomba atômica e a detonam nos EUA. A hipótese de ataque Russo é confirmada em razão do portaviões americano no mar do norte ser atingido por mísseis disparados por caças daquele país. Contudo, os caças saíram em perseguição do navio de guerra americano em razão da ordem dada por um oficial corrupto que foi comprado pelos terroristas nazistas. A tensão entre as potências nucleares sobre ao máximo. Quando o inferno nuclear é iminente tudo é resolvido em razão da descoberta da conspiração e da ação de um diligente agente da CIA. O plutônio utilizado na bomba era americano. Apenas duas coisas no filme são verossímeis. A possibilidade de um ataque nuclear em solo americano e a utilização de uma arma de destruição em massa "made in USA". O resto é bobagem para desviar a atenção dos cinéfilos da realidade. Os nazistas do filme não chegam a assustar nem a comunidade judaica internacional. Não precisamos ser cientistas sociais para saber que um fenômeno social complexo como o nazismo não ocorreria duas vezes a não ser que as mesmas condições estivessem presentes:- derrota duvidosa, crise econômica produzida pela guerra e pelas reparações de guerra, instabilidade político-institucional e nacionalismo irracional desencadeado por um partido violento liderado por um homem insano. Em resumo, sem as condições da Alemanha dos anos 20 é impossível um fenômeno análogo. O revanchismo do filho de um oficial morto na guerra é absurdo. Ainda mais se considerarmos que o atual premiê alemão Gerhard Schroeder é filho de um cabo nazista que morreu na frente russa. A falta de consistência do filme em relação aos motivos dos terroristas reflete-se de certa maneira na impossibilidade histórica da solução do conflito. Na tela grande, a intervenção de um único homem é capaz de impedir uma guerra nuclear. O filme segue um roteiro bem tradicional:- o herói enfrenta vários perigos, não se deixa influenciar pelo medo ou pela malícia dos outros personagens, salva o mundo e fica com a mocinha. Estas tolices podem até render bilheteria e divertir, mas não devem ser levadas a sério. A guerra não é algo tão simples. Se fosse seria um assunto exclusivamente militar. E não é. Afinal, como já dizia Clemenceu, primeiro ministro francês durante a I Guerra Mundial, "a guerra é um assunto sério demais para ser tratado por generais". A idéia que alimenta a estrutura profunda da trama não é nova. Uma revanche injusta sempre rende um bom filme. O problema é que, em se tratando de terrorismo, nem sempre as revanches são tão injustas. Desde que olhemos o mundo através dos olhos dos outros as coisas podem sempre parecer diferentes. Ao invés de alimentar um terror nuclear inútil, os estúdios de cinema americanos realizariam um grande serviço para a humanidade filmando algo relacionado aos fatos que antecederam o atentado ao WTC. Como, por exemplo, o ataque americano a Al-Shifa no Sudão, a intervenção no Afeganistão durante a ocupação Russa, a criação de Bin Ladem e seu Al-Qaeda pela CIA, as conseqüências da presença militar americana na Arábia Saudita e da intransigente defesa de Israel, etc... Quando os americanos olharem o mundo através de outros ângulos e passarem a compreender as motivações dos outros povos começarão a se preparar para superar os problemas que criaram. Enquanto insistirem em negar o passado, o futuro será cada vez mais povoado de atentados e o presente preenchido por um terror tão real quanto desnecessário. "A soma de todos os medos" não é só um filme ruim. É nocivo, porque alimenta uma cultura baseada na unilateralidade. É mais um capítulo na guerra de informação em que os EUA são apresentados como vítimas de suas gloriosas vitórias e não de seus erros. O único erro admitido ao longo do filme é a entrega do plutônio a Israel. Isto parece pouco, mas deve ter deixado a comunidade judaica americana de cabelo em pé. Não é muito, mas já é um começo. Fábio de Oliveira Ribeiro |