REVISTA CRIAÇÃO

AH, ESSAS MULHERES!


Não sou nem publicitário, nem comerciante. Não vendo e não pretendo vender produtos para as mulheres. Não sinto um prazer especial em enrolar o sexo oposto a menos que tenha sido enganado. Sendo assim não vou escrever um artigo “politicamente correto”. Adular o sexo oposto de maneira genérica é algo que não me compete. E se alguma mulher não gostar e quiser polemizar, o bate-boca verbal vai durar enquanto houver bits disponíveis na Internet ou até algumas carícias...

Nenhuma mulher é mais importante que a carpideira. Ela garante dignidade ao morto, mesmo que quando estivesse vivo ele não tivesse dignidade alguma. Carpideira, para quem não sabe, é mulher contratada para chorar em velório. Como choram as carpideiras? Choram como algumas de nossas sogras. Derramam lágrimas de crocodilo quando sofrem e quando sentem prazer, muito embora algumas sintam um prazer justamente quando sofrem ou fazem sofrer. Muitas mulheres que conheci tinham uma especial predileção por chorar exatamente quando podiam tirar proveito das lágrimas. Eram carpideiras em potencial!

No carnaval da mitologia grega as mulheres sempre desempenharam um papel de destaque, mas quase sempre negativo. Jasão perdeu a segunda mulher para a ira da primeira. A iracunda Medéia, que provavelmente já havia perdido a beleza, a maciez, o frescor e a jovialidade, não poupou nem sua prole. Como ela não são poucas as mães que maltratam seus filhos. Se alguém disser “os nazistas que sentiam um prazer especial de enfornar judias projetavam nelas as imagens de suas mães arianas bêbadas e violentas das quais queriam se vingar” deveremos considerar a hipótese com seriedade.

“Palabras de donzela nadie há de creer
ni tampoco de casada;
pues em rueda giratória su corazón se creó
com la inconstância em eu pecho”

O poema supra não foi escrito por nenhum machista argentino. Também não se trata de uma tradução de algo da lavra de Nelson Rodrigues (escritor brasileiro assumidamente machista). Reproduzi o mesmo a partir de minha edição espanhola de TEXTOS MITOLÓGICOS DE LAS EDDAS. Trata-se de um fragmento do EL DISCURSO DEL ALTISIMO, II PRIMEIRA NOTICIA DE ODIN. O autor do mesmo é Snorri Sturluson (1179-1241), que registrou a mitologia nórdica. Fiz a citação pedante com um propósito irônico. Mesmo distante espacial e temporalmente da Grécia antiga, a cultura nórdica também adotou uma perspectiva negativa em relação a mulher. Porque será, heim?

O leitor ou leitora podem objetar dizendo que vivemos numa sociedade moderna, cristã e, principalmente, devotada à TV. Pode ainda sustentar que nenhuma dessas questões mitológicas são relevantes ou capazes de despertar o interesse ou a sensibilidade do público de telenovela (ou ainda, dos anunciantes que ajudam a definir a programação das emissoras). O poder do mito não é páreo para o da TV? Quando uma mulher entra em nossa casa pelo tubo de raios catódicos embalando meigamente seu bebê ou chorando porque apanhou do marido não há quem não diga que a MULHER merece as mais elevadas honrarias e considerações da audiência. Como se a MULHER fosse uma espécie de entidade supranatural que as mulheres recebem dentro e fora do terreiro de macumba...

As mulheres que aparecem na TV ou suas amigas não televisadas muitas vezes são bem mais humanas. A brutalidade e injustiça de algumas mulheres são visíveis em qualquer grande centro urbano. Já vi mulher jogar o presente do filho pela janela do ônibus só por causa de um bico e bater no menino quando ele protestou contra a injustiça. Já assisti mãe espancar o filho até ser ameaçada pelo marido.

Ah, essas mulheres! Quando se trata dos seus filhos elas derramam lágrimas de culpa, mas raramente moderam a violência. Enchem os filhos de porrada mesmo. Às vezes chegam a agredir os filhos das outras, porque só elas tem o direito de corrigir (eufemismo para espancar) os seus pimpolhos.

Neste exato momento vejo na TV uma reportagem dizendo que a graciosa Naomi Campbel foi condenada a varrer o chão de uma cidade porque espancou a empregada. Ah, essa Naomi, joga contra as outras porque é gostosa “pacas” e porque aparece na telinha luminosa não como MULHER (ou seja, com aqueles atributos que só os publicitários e os comerciantes atribuem ao sexo feminino para se fartar de seus dinheiros) mas como um ser humano... Excessivamente humano, diria Nietszche.

O papelão da Naomi na TV me fez pensar na verossimilhança da mitologia, mas vou encurtar a prosa. Caso contrário posso acabar levando umas porradas de alguma feminista na rua.


Fábio de Oliveira Ribeiro

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