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ALEXANDRE
Oliver Stone deve ter consultado várias fontes para escrever seu roteiro. Entretanto, me parece foi bastante influenciado pela Bíblia da Humanidade, de Jules Michelet. Afinal, o historiador da mitologia francês foi um dos maiores críticos do macedônio, a quem descreve como um bárbaro sádico e devasso. Na infância, Alexandre foi enjeitado pelo pai. Educado pela mãe, bárbara epirota que se dizia descendente de Aquiles, o menino certamente acabou acreditando que era filho de um deus. O que não deixa de ser verdade, já que pode ter sido concebido durante um dos bacanais de que Olimpias participara à época da concepção (detalhe omitido no filme). Felipe, rei acolho que derrotou os gregos em Queronéia e criou as condições necessárias para a conquista do Império Persa, foi retratado de maneira bastante discreta no filme. Sua glória pessoal acabou sendo ofuscada pela bruxa que tomou por esposa para consolidar sua aliança com o Epiro. Olimpias, personagem central de Oliver Stone, pode ter sido realmente artífice da morte do esposo e da loucura do filho. A carnificina de Gaugamela foi retratada com bastante fidelidade. É impossível deixar de notar a temeridade de Alexandre, que pessoalmente comanda seus cavaleiros por uma brecha no exército inimigo até bem próximo ao carro de guerra de Dario III. Poderia ter sido abatido e colocado tudo a perder, não fosse a providencial intervenção de Clitus. O mesmo Clitus, que apesar de ter salvado a vida de Alexandre em Gaugamela acaba sendo por ele abatido em razão de falar-lhe a verdade quando os macedônios chegam à Índia. Ao contrário de Troy, péssima adaptação da Ilíada em que Patroclos foi retratado como sobrinho e não “preferido” de Aquiles, Oliver Stone ousou retratar fielmente as preferências amorosas de Alexandre. O triangulo amoroso Heféstion/Alexandre/Bagoas, que segundo a maioria dos historiadores antigos realmente existiu, é bastante explorado no épico. Apesar de seus méritos, o filme não emplacou. O público médio, que não conhece literatura antiga e gostaria de ver um Alexandre mais macho e menos bicha deve ter culpado Oliver Stone de tentar agradar o movimento “gay”. Trágica ironia, justamente por ter sido fiel à literatura sobre Alexandre, Oliver Stone acabou sendo crucificado pelo público que desconhece a verdadeira face do “macho” que considera um herói.
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