REVISTA CRIAÇÃO

ALEXANDRE


ALEXANDRE é a melhor adaptação da literatura feita para o cinema nos últimos 20 anos. Justamente por isto foi um fracasso de bilheterias.

Oliver Stone deve ter consultado várias fontes para escrever seu roteiro. Entretanto, me parece foi bastante influenciado pela Bíblia da Humanidade, de Jules Michelet. Afinal, o historiador da mitologia francês foi um dos maiores críticos do macedônio, a quem descreve como um bárbaro sádico e devasso.

Na infância, Alexandre foi enjeitado pelo pai. Educado pela mãe, bárbara epirota que se dizia descendente de Aquiles, o menino certamente acabou acreditando que era filho de um deus. O que não deixa de ser verdade, já que pode ter sido concebido durante um dos bacanais de que Olimpias participara à época da concepção (detalhe omitido no filme).

Felipe, rei acolho que derrotou os gregos em Queronéia e criou as condições necessárias para a conquista do Império Persa, foi retratado de maneira bastante discreta no filme. Sua glória pessoal acabou sendo ofuscada pela bruxa que tomou por esposa para consolidar sua aliança com o Epiro. Olimpias, personagem central de Oliver Stone, pode ter sido realmente artífice da morte do esposo e da loucura do filho.

A carnificina de Gaugamela foi retratada com bastante fidelidade. É impossível deixar de notar a temeridade de Alexandre, que pessoalmente comanda seus cavaleiros por uma brecha no exército inimigo até bem próximo ao carro de guerra de Dario III. Poderia ter sido abatido e colocado tudo a perder, não fosse a providencial intervenção de Clitus. O mesmo Clitus, que apesar de ter salvado a vida de Alexandre em Gaugamela acaba sendo por ele abatido em razão de falar-lhe a verdade quando os macedônios chegam à Índia.

Ao contrário de Troy, péssima adaptação da Ilíada em que Patroclos foi retratado como sobrinho e não “preferido” de Aquiles, Oliver Stone ousou retratar fielmente as preferências amorosas de Alexandre. O triangulo amoroso Heféstion/Alexandre/Bagoas, que segundo a maioria dos historiadores antigos realmente existiu, é bastante explorado no épico.

Apesar de seus méritos, o filme não emplacou. O público médio, que não conhece literatura antiga e gostaria de ver um Alexandre mais macho e menos bicha deve ter culpado Oliver Stone de tentar agradar o movimento “gay”. Trágica ironia, justamente por ter sido fiel à literatura sobre Alexandre, Oliver Stone acabou sendo crucificado pelo público que desconhece a verdadeira face do “macho” que considera um herói.


Fábio de Oliveira Ribeiro

>>A CRIAÇÃO
 
>>Literatura
>>Textos Literários
>>Colaboradores
>>Mitologia
>>Cinema
>>Cibercultura
>>Humor
>>Outros Escritos
>>Fotos
>>Contato
>>Web Master
 
 
 
 
 
LITERATURA TEXTOS LITERARIOS MITOLOGIA CINEMA CIBERCULTURA OUTROS ESCRITOS