AMIZADE
x BARBÁRIE
"Ninguém escolheria viver sem amigos, ainda
que possuísse todos os bens."
Aristóteles (Ética a Nicomacos)
"Não há poder humano que não
promova, contra a própria vontade, outros planos que não
os seus."
Bossuet (Discours sour l'histoire Universelle)
No século passado os EUA entravam em guerra a cada 15 ou 20
anos. Neste princípio de século XXI, a cada 4 ou 5 anos
os norte-americanos se atolam em novos conflitos militares. Neste
exato momento os EUA realizam duas campanhas militares de sucesso
duvidoso (Afeganistão e Iraque) e já admitem publicamente
que podem vir a começar outra (no Irã). Não bastasse
tudo isto, a Casa Branca mandou sua IV Frota acintosamente navegar
em águas territoriais brasileiras.
Com
exceção dos blogs militares, a imprensa nacional deu
pouca ou nenhuma atenção à visita da IV Frota
às nossas reservas petrolíferas. O jornalismo global
fez uma rápida cobertura sobre treinamentos realizados pela
Marinha do Brasil em caso de ataque por mísseis norte-americanos,
mas não relacionou este fato à presença militar
norte-americana em águas brasileiras. O incidente repercutiu
mais na imprensa argentina do que na brasileira (http://www.clarin.com/diario/2008/07/14/elmundo/i-01714630.htm).
Acabara de ler o primeiro ensaio do livro A PROMESSA DA POLÍTICA,
de Hannah Arent, Difel, 2008, quando me interei deste assunto espinhoso
e desagradável referente à IV Frota em águas
brasileiras. Foi desta obra que retirei as citações
com as quais iniciei este texto.
Em suas especulações políticas Arent sugere que
todas as ações dos homens e de suas comunidades geram
conseqüências. Nem todas as conseqüências são
desejadas e às vezes são as conseqüências
indesejadas que prevalecem. O único remédio para o inesperado
e para a culpa que resulta das ações humanas é
a amizade.
A vida e a reflexão política de Hannah Arent foram marcadas
pelo nazismo, regime do qual ela fugiu em razão de ser judia.
Hitler e seus nazistas levaram ao extremo o militarismo prussiano
acreditando que construiriam um Reich de 1.000 anos. No fim das contas
eles só conseguiram levar a Alemanha à destruição
enterrando definitivamente – pelo menos é o que todos
esperam- as ambições militares germânicas. Depois
que a II Guerra Mundial terminou os alemães precisaram contar
com a amizade dos outros povos para reconstruir suas vidas e seu país.
O aumento das atividades militares dos EUA, inclusive no Cone Sul
onde sua IV Frota desafiou a soberania brasileira, é preocupante.
Os norte-americanos estão prestes a cometer o mesmo erro que
os nazistas?
Os nazistas acreditavam que eram superiores e que não precisavam
cultivar a amizade dos outros povos. Hitler e seus prosélitos
fardados desejavam apenas dominar aqueles que julgavam inferiores
e derrotar seus inimigos pelas armas. De certa maneira o nazismo é
a antítese da amizade, pois esta se conquista com base no sentimento
de igualdade e se consolida com o respeito humanitário. O sentimento
de superioridade e a coação militar não despertam
nem conservam amizades.
Após o fim da Guerra Fria, os EUA emergiram como única
superpotência militar inconteste do planeta. De maneira geral,
todas as nações esperam que os EUA não abusem
de seu novo status. O Brasil tem cumprido fielmente suas obrigações
internacionais, inclusive as que se referem á não proliferação
de armas nucleares. A insistência dos atuais ocupantes da Casa
Branca em realizar demonstrações força concretas
ou simbólicas– como a que ocorreu em águas brasileiras
- sugere que cresce entre os norte-americanos a nociva crença
de que se pode fomentar a amizade através da força e
da demonstração de superioridade.
Para
não cometerem os mesmos erros que os nazistas os governantes
dos EUA deveriam ler mais Aristóteles, Bossuet e, sobretudo,
Hannah Arent. Só assim os EUA não destruirão
suas amizades nem conquistarão novos inimigos.
Fábio
de Oliveira Ribeiro