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ANJOS DO SOL Estreou esta semana nos cinemas brasileiros mais um registro de nosso fracasso como nação. Mais uma prova cinematográfica da nossa bem sucedida história de prostituição infantil. Quem não ficar emocionado com a tragédia brasileira retratada de maneira dura, fria e escancarada em ANJOS DO SOL certamente participa da mesma incentivando de alguma maneira a prostituição infantil. É absolutamente terrível o grau de insegurança familiar e social das meninas pobres na região norte e nordeste do Brasil. O filme é um valioso documento da realidade brasileira. Não só pelo que retrata, mas pelo que apenas sugere. O abuso nesta terra ensolarada não tem freio nem limite. O pior é que o poder público em algumas regiões do país ou não existe ou apenas reforça uma verdadeira estratificação social, que admite a escravidão disfarçada ou descarada de menininhas que deveriam jogar amarelinha nas escolas e não ficar se prostituindo em buracos infectos. Impossível não perguntar onde estão os Delegados de Polícia, Promotores e Juizes regiamente pagos com o dinheiro do contribuinte brasileiro? São cegos por covardia, por comodismo ou porque muitos estão comprometidos com a mais desumana forma de exploração humana? O que estamos esperando para chutar os traseiros deles todos? A culpa do que está ocorrendo àquelas garotas é nossa. É nossa tolerância que permite a exploração delas. É nossa covardia que permite a alguns servidores públicos transformarem seres humanos em escravos. É nosso racismo disfarçado que nos faz não ver que aquelas meninas poderiam ser nossas irmãs, filhas, mães... A cena da garotinha fugindo da escravidão vestindo a bandeira brasileira deveria nos fazer chorar. Mais que isto, deveria nos fazer executar sem a menor piedade todos os exploradores da prostituição infantil e seus sócios no serviço público. Porque nem choramos, nem executamos ninguém? Porque gostamos do Brasil tal como está. Somos todos conservadores. Conservamos nossa incapacidade de se indignar. Fazemos de conta que o problema não é nosso e assistimos mais uma partida da seleção brasileira com a empolgação renovada. No filme o hino nacional é cantado no bordel. Um local bem apropriado para a exibição de nosso nacionalismo doentio, bastardo e corrompido. Fora do estádio de futebol ou do bordel, não temos a menor razão para cultuar qualquer símbolo nacional. Já participei de muitas manifestações e queimei muitas bandeiras americanas. Registro aqui meu arrependimento: deveria ter queimado bandeiras brasileiras ou espancado rufiões brutais e policiais corruptos. Não fiz nem uma coisa nem outra. Minha culpa também é por omissão. Minha fracassada condição desumana me levará ao trabalho na segunda-feira. Nem lembrarei que enquanto ganho a vida um país de meninas escravas sem direito à infância vai sendo construído com meus impostos e minha apatia. O público de Portugal certamente ficará bastante chocado ao assistir este filme. Os altivos portugueses, ciosos de suas belas narrativas e feitos memoráveis, serão obrigados a reconhecer que não construíram nada grandioso além-mar. Fracassaram as navegações. Fracassou a lusa colonização do Novo Mundo. De Portugal herdamos nossas virtudes e recebemos todos nossos defeitos. Multiplicamos os defeitos ao céu estrelado e esquecemos as virtudes diariamente sob o sol causticante. Assim nos fizemos brasileiros, menos que portugueses e mais que índios desterrados e africanos escravizados. Somos ricos em terras agricultáveis e reservas minerais, mas miseráveis em civilidade. Fábio de Oliveira Ribeiro |