REVISTA CRIAÇÃO

AVATAR


"Nós não produzimos obras de arte, nós fabricamos produtos perecíveis! Palavras de um Diretor norte-americano a um cinéfilo entediado.

Cada vez que um novo filme é insistentemente divulgado pela mídia eu fico curioso. Quando começa a ser projetado eu vou ao cinema ver se o filme merece as críticas que recebeu. Raramente saio de lá satisfeito com o filme, com as criticas ou com ambos. No Brasil, infelizmente, fazer crítica de cinema e propaganda de filme já são coisas muito semelhantes.
Avatar vale o preço do ingresso. Mas está longe de ser um clássico. Isto porque no imaginário de James Cameron parece ser impossível uma sociedade tribal menos adiantada vencer um exército melhor equipado sem a ajuda do próprio invasor. Avatar é a negação perfeita da experiência americana no Vietnã. Afinal, para Cameron seria preciso o General Giap ser aluno de Westmoreland para poder derrotar o império capitalista na selva.
Em Avatar os personagens criados por Cameron não tem vida própria. São vilões incorrigíveis ou heróis em potencial que evoluem para heróis perfeitos. Cada personagem cumpre apenas uma função, que é possibilitar que seja contada a história da traição heróica premiada. Fora do contexto do filme os personagens de Cameron são irrelevantes. Eles não têm profundidade literária.
O cinema americano é hoje uma mistura de muito dinheiro, computação gráfica, propaganda do nacionalismo e das forças armadas dos EUA (este não é o caso de Avatar) e declínio continuado da verdadeira arte: que é a criação personagens abertos e com profundidade suficiente para contar histórias com vários sentidos para diversas gerações. Isto explica porque muitos filmes precisam ser constantemente produzidos para sustentar a mágica do cinema. Os filmes americanos se tornam obsoletos porque são concebidos de maneira obsoleta para serem consumidos e descartados.
O que transforma um personagem em personagem imortal capaz produzir pensamentos e emoções fora de sua época e longe de sua própria cultura? É sua profundidade humana, sua verossimilhança mítica (uso aqui a palavra "mítica" no sentido que lhe deu Joseph Campbell) . Um bom personagem não oscila entre o bestial e o divino, nem é só bestial ou só divino. Um personagem só adquire profundidade humana quando age como se dentro dele o bestial e o divino estivessem condenados a coexistir de maneira conflituosa.
Existem centenas, talvez milhares de personagens imortais que podem servir de inspiração para quem quiser produzir algo relevante. A Grécia produziu a Iliada e a Odisséia, a Judéia sua Bíblia, os povos árabes o Livro das Mil e Uma Noites, a Espanha Dom Quixote, França Tartufo, Portugal Os Lusiadas, Italia A Divina Comédia, Inglaterra MacBeth, Alemanha Fausto, Rússia Os Irmãos Karamazov, o Brasil Macunaíma... a lista é grande demais, portanto, ficarei com estes exemplos. Que personagens imortais os fazedores de filmes americanos tem produzido? Em Avatar, certamente nenhum.
As sociedades humanas se elevam e decaem, mas quase sempre legam algo para a posteridade. Quando o império americano cair e virar coisa do passado qual será seu grande legado cultural? Apenas uma pilha imensa de filmes obsoletos?

Fábio de Oliveira Ribeiro

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