REVISTA CRIAÇÃO

BEM VINDO A SELVA


O infeliz que concebeu e financiou este filme não tinha por objetivo apenas e tão somente atingir a auto-estima dos brasileiros. BEM VINDO A SELVA é tão ruim que não mereceu comentários da critica especializada. E como sempre os críticos não perceberam um aspecto essencial do filme que merece ser abordado.

O cenário para o filme é a mina de Serra Pelada, um verdadeiro inferno sobre a terra. BEM VINDO A SELVA retrata os brasileiros como temíveis lutadores que usam com maestria cipós, ou seja, como macacos. O Brasil é uma terra sem Lei às voltas com um gringo malvado, que acaba sendo derrotado por um típico herói americano. Mas o herói não fica com a mocinha, porque a brasileira é pérfida a ponto de tentar trair seus companheiros de luta.

A desumanização dos brasileiros em BEM VINDO A SELVA parece ser proposital. O filme foi concebido num momento delicado das relações Brasil x EUA. A disputa comercial em torno da limitação das importações de aço brasileiro na OMC obrigou o governo Bush a recuar. Vez por outra o governo americano insinua que grupos terroristas árabes operam na Tríplice Fronteira com a conivência brasileira. A guerra das digitais ainda não acabou e seus desdobramentos foram significativos: vários brasileiros foram repatriados e pelos menos dois cidadãos americanos foram presos e mandados para casa por desrespeitar as autoridades brasileiras. Recentemente a Casa Branca passou a usar a imprensa para instigar o público americano contra o programa nuclear brasileiro, que os gringos pretendem inspecionar, espionar e quem sabe até abortar.

Nesse sentido, o filme cumpre um papel importante. Ele dá ao público americano uma providencial imagem distorcida do Brasil e dos brasileiros. Trata-se, sem dúvida alguma, de uma obra de arte ideologicamente comprometida com o projeto imperial americano. O filme monopoliza um certo discurso sobre o Brasil diante do público americano, retrata os brasileiros como animais e, principalmente, justifica qualquer tipo de agressão a nossa soberania que vise estabelecer a Lei num país que afinal de contas aparenta ser terra ninguém.

Em nenhum momento o filme coloca em questão o direito do herói invadir o território brasileiro para cumprir sua missão, que é raptar o filho da pessoa que o contratou. O fato da vítima do rapto estar no Brasil é apenas um detalhe, como se as Leis brasileiras não precisassem ser respeitadas. A sugestão do filme é poderosa:- os americanos têm legitimidade para fazer o que bem entenderem no Brasil justamente em razão de serem americanos. Não há conflito entre os interesses americanos e a soberania brasileira, porque esta não existe ou não é reconhecida cinematograficamente.

“A definição de Cícero sobre o Império romano em seus primeiros tempos era muito semelhante. Consistia no âmbito sobre o qual Roma usufruia do direito legal de impor a lei.” (Richard J. Barnet, The roots of war, citado por Edward W. Said, Cultura e Imperialismo, Companhia das Letras, 1999)

Estamos diante de uma verdadeira guerra de informação. O objetivo das pessoas que conceberam e realizaram BEM VINDO A SELVA é tão óbvio que passou desapercebido pela crítica especializada. O filme captura o público americano e deforma a imagem que ele tem do Brasil e dos brasileiros de uma maneira tão clara e acintosa que não mereceu atenção. Entretanto, este famigerado filme pode muito bem ser comparado ao livro The republic of fear.

Lançado em l989, The republic of fear retratava o governo de Saddan Hussein como inimigo cruel da democracia e dos direitos humanos (o autor omitiu deliberadamente o fato de que Saddan Hussein foi ostensivamente apoiado pela Casa Branca durante a guerra Iraque x Irã). Na época em que foi lançada, a obra acabou passando desapercebida. Entretanto, em 1991 o livro se tornou um best seller e ajudou a justificar a Guerra do Golfo.


Fábio de Oliveira Ribeiro

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