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BESOURO Este é um bom filme de ação brasileiro ( http://www.besouroofilme.com.br/). O tema do filme é a trajetória do capoerista Besouro, que entrou em conflito com os produtores de açúcar baianos no princípio do século XX. As
criticas do filme que li foram todas laudatórias (http://cinema.terra.com.br/interna/0,,OI4073169-EI1176,00-Superproducao+nacional+ As cenas de lutas de Besouro são primorosas. Enchem de lágrimas os olhos de qualquer admirador da capoeira. Mas as interpretações são apenas regulares. Os diálogos foram bem construídos, mas há um anacronismo. Um mestre de capoeira, provavelmente analfabeto como a esmagadora maioria dos negros brasileiros naquela época, afirma que nem a ciência explica como um besouro pode voar e mesmo assim ele voa. Os escritores se esqueceram de que no princípio do século XX nem mesmo um senhor de engenho brasileiro teria formação científica? O roteiro valoriza a intervenção das divindades Orixás nos destinos dos personagens negros, mas as divindades tutelares dos personagens brancos não interferem na disputa. Isto empobrece um pouco o filme. Afinal, se queriam dar uma dimensão mítica ao conflito entre o protagonista negro e seu inimigo branco seria preciso que ambos estivessem assistidos por divindades tutelares como ocorre na Ilíada (o conflito entre troianos e gregos é a expressão terrena de um conflito entre os deuses que apóiam uns e outros). A persistência dos costumes escravocratas (no Brasil a escravidão havia acabado 40 anos antes dos fatos) é um dos temas do filme. O dono de engenho de açúcar e seus pistoleiros brancos são mostrados como opressores e os negros como vítimas da opressão. Onde estão os brancos que lutaram pela abolição e os negros que ajudaram os senhores de engenho a brutalizar seus iguais? A persistência da submissão também é criticada, mas de uma forma muito sutil. Um desdobramento interessante da trama é a diferença entre como cada grupo social percebe as ações do capoerista Besouro. Entre os negros seus atos tem uma leve conotação política, para os brancos tudo que ele fez (agressão dos pistoleiros do dono do engenho, incêndio do canavial e destruição da máquina de moer cana) não passa de crime comum. Há uma farta literatura sobre este assunto que poderia ter sido usada para dar um pouco mais profundidade a este aspecto do filme. Outra coisa que ficou de fora do filme foi o sincretismo religioso. No filme os negros aparecem cultuando apenas seus Orixás. Na época dos fatos, entretanto, os negros faziam isto apenas em segredo. Em público eles cultuavam os santos católicos correspondentes aos Orixás. É impossível retratar com fidelidade o Brasil do princípio do século XX sem abordar este fenômeno que ajuda a definir as peculiaridades da cultura brasileira. Fábio de Oliveira Ribeiro |