BIOLOGIA,
PATOLOGIA E SEXUALIDADE
No final do mês
de abril de 2008, uma notícia ganhou as principais manchetes
do mundo. Tal fato lembra um jogo de quebra-cabeça no qual
faltam várias peças. Reuni-las será tarefa da
polícia, enquanto o público fica se perguntando: Como?
Esse fato, ocorrido muito distante do meu país, o Brasil, mexeu
com minha sensibilidade, como se fosse algo muito ruim ocorrido em
minha própria família. Penso que tal sentimento deve-se
ao fato de eu admirar demais a vida e a variedade das espécies.
Certamente o pensamento e a sensibilidade de um biólogo!
E agora tenho pensando em uma determinada espécie viva com
o privilégio de ser única portadora de capacidades exclusivas
e especiais, que pertence ao grupo dos animais. Além de utilizar
bem os cinco sentidos para a percepção de estímulos,
que levados ao sistema nervoso, dele trazem as respectivas respostas,
visando à interação do vivente com o ambiente
que o cerca, ela também é capaz de atividades tais como:
andar, usando apenas dois de seus quatro membros, reservando os outros
dois para manipular objetos. Além do mais, tem a capacidade
para falar, sorrir, raciocinar, planejar e principalmente ser portador
de sentimentos. Finalmente, também é a única
com capacidade para expressar determinados tipos de sentimentos e
emoções, enquanto na verdade outros são seus
verdadeiros sentimentos. Esta espécie foi denominada humana.
Agora imaginemos um animal humano impedido de usar quase todos os
dons exclusivos da sua espécie até atingir a maturidade
oficial, ou seja, a autonomia consentida aos 18 anos de vida, na maioria
dos países, sem nunca ter visto o que o cerca!
Digamos que seja você com 18 anos e nunca ter ido a lugar algum;
nunca ter podido empreender uma pequena corrida, nem mesmo caminhar
100m em linha reta; nunca ter brincado em um parque com outras crianças;
não ter soltado pipa, jogado futebol; não ter freqüentado
escola de qualquer natureza; não ter conhecido garotas e rapazes;
nunca ter visto uma árvore, um passarinho, ou uma formiga...
Imaginemos também que: você nunca tenha gozado do mínimo
que a natureza fornece: pisar na terra, na areia; nem molhado os pés
nas águas de um rio ou do mar; nem visto o sol, a lua, as estrela,
a chuva, a neve...
Praticamente não tem conhecimento dos cheiros, do calor do
sol, da carícia de uma brisa ou o incômodo de uma ventania.
Suponho que ainda não tenha temido os desastres que uma tempestade
pode causar; que não imagina um relâmpago, a “queda
de um raio” e o som estrondoso e fantástico de um trovão...
É bem provável que você não tem a mínima
idéia de como é o vento e nunca tenha ouviu os sons
dos seres que compõe o grande reino animal, ao qual você
também pertence...
Além de alguns petrechos da pequena cozinha, lugar onde sua
mãe prepara suas refeições, você nunca
deve ter tido contatos com a tecnologia, nem mesmo com o som de uma
incômoda buzina de automóvel; o único aparelho
eletro-eletrônico por meio do qual você pode ver o resto
do mundo que está totalmente do lado de fora, é uma
TV, instalado num porão subterrâneo, que é a sua
habitação. Um aparelho de TV provavelmente sem imagem
bem definida: imagem de porão.
Ainda imaginando, você não sabe lidar com a bondade,
nem com a maldade humana; desconhece o que chamamos de “ferocidade”
dos animais, nem sabe que seja um latido de cachorro ou miado de um
gato...
Falando em animais, você vive diferentemente de qualquer um
deles, os quais somente sobrevivem quando encontram um ambiente adequado
ao seu desenvolvimento, mesmo que esse ambiente seja numa poça
de lama ou um tronco de árvore morta. Porém você
nunca viu nem um animal ao vivo. Talvez tenha visto uma barata ou
rato caminhando pelo seu porão: fato pouco provável,
pois o local é hermeticamente fechado como uma lata de conserva
e blindado como um cofre: uma residência à prova de luz
e sons externos. O oxigênio essencial à sua vida chega
por uma tubulação e as portas de seu porão se
abrem apenas sob o comando digital de um código que é
segredo só de seu pai.
Certa vez, seu pai, talvez atendendo a um pedido de sua mãe,
ou sentindo pena de você, trouxe-lhe um pequeno aquário
com alguns peixinhos: foi o melhor presente que você recebeu
até hoje!
Sua vida se resumiu, até agora, em noites e silêncio
constantes, sendo os dias diferentes apenas pelas lâmpadas elétricas
ligadas e alguns afazeres.
Não havia o tempo: dias da semana, feriados, um final de semana
prolongado para tomar sol na praia... Meses? de janeiro a dezembro,
todos são iguais, até na temperatura. Anos? de qualquer
século, não faria a menor diferença.
A única quebra em sua rotina é quando seu pai, homem
já envelhecido, chega ao porão para trazer provisões
que garanta sua alimentação diária. E logo após,
fica trancado com sua mãe em um quarto de casal, o principal
quarto do seu porão, por algumas horas. De tempos em tempos
nasce uma criança.
Você nasceu e sempre viveu até aos 18 anos, neste compartimento
de pequenas dimensões, 60m2 com passagens estreitas, em alguns
cômodos a altura não ultrapassa 1,70m. Tudo feito em
concreto e em ferro.
As pessoas que você conhece são: seu pai e sua mãe
encarcerada e dominada física e psicologicamente por ele, que
também é pai dela. É possível que ela
esteja apavorada e desfigurada. Porém, ao que tudo indica,
ela é muito forte, pois não parece neurótica.
Você ainda convive com mais dois irmãos, que nasceram
e vivem nas mesmas condições que você, enquanto
alguns outros foram levados pelo pai/avô, não se sabe
para onde, logo após o nascimento. Imagino que ele tenha dito
a você que os entregou à avó.
Aos 18 anos de idade, não há perspectiva de nada; parâmetro
de tempo, nem projeto para o futuro. Você não teve contato
com seus demais parentes mais próximos.
Você pode pensar em herdeiros para seu patrimônio material
e biológico? Ou seja, já foi despertado para a sexualidade?
Não precisa responder...
Você está de parabéns, pois suportou opressão
demais para qualquer vivente. E sobreviveu!
Sua vida, que é um inusitado invento sem precedentes para a
biosfera, mostra a todos um fato que a biologia e outras ciências
relacionadas ainda não prestaram atenção: você
suportou tamanha opressão porque é humano.
Certo dia, mais precisamente em 26 de abril do ano 2008, quase que
por acidente, as portas de seu porão se abriram para o mundo.
Você, com 18 anos completos, chegou ou renasceu no século
XXI da era cristã e, finalmente, pôde manter contato
com tudo que a humanidade fez e desfez em milênios que chamamos
de civilização. Seu primeiro desafio da maioridade será
travado à luz do sol. Tenha cautela para não se machucar
seriamente nesta sua primeira batalha de sobrevivência! Apesar
da luz do sol ser essencial à vida, para você, que já
nasceu grande e se atrasou para enfrentá-la, ela será
mais feroz. Será sua primeira lição: a vida fora
de seu porão exige, também, muita luta.
Os seres humanos descritos acima, provem de um “laboratório”
macabro e diabólico, que todos os profissionais das ciências
biológicas e da saúde deveriam conhecer para hipóteses,
pesquisas e teses, pois não haverá nenhum experimento
científico semelhante na história da humanidade.
Tal história e não estória aconteceu em um país
do Primeiro Mundo, em um continente conhecido não só
como berço da civilização, mas conhecido também
pela sensibilidade e pela arte. O país é a Áustria.
Toda essa história, lá acontecida não é
parte do trabalho do fictício cientista Victor Frankenstein,
mas de um cidadão austríaco de 73 anos, com formação
universitária no Primeiro Mundo. É o “Caso Josef
Fritzl”: pai carcereiro, incestuoso e cruel, que encarcerou
sua filha Elizabeth Fritzl, então com 18 anos, no porão
de sua própria casa. Ele a manteve presa por 24 anos. Ela,
durante todo esse tempo, não teve outra escolha senão
a de ser escrava sexual do próprio pai e tendo dele sete filhos.
Um dos filhos morreu e foi incinerado pelo pai. Os dois primeiros
e o caçula viveram no mesmo porão, até que este,
podemos até dizer que por uma fatalidade, abriu-se para o mundo.
A notícia se espalhou, sendo uma das fontes o Jornal da BBC
de Londres -http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2008/04/printable/080427_autriac...
Após termos conhecimento de tal notícia, podemos dizer
que, certamente, nós, humanos, temos mais características
que são exclusivas e específicas da espécie.
Até onde pode chegar o poder e o domínio vindos de capacidades
exclusivas dos seres humanos ou dos animais racionais?
Marta Aparecida
Camilo (brasileira, bióloga e professora em ciências
biológicas)
e-mail maacamilo@terra.com.br>