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O BOM PASTOR OS INFILTRADOS, uma ficção nada pueril em que criminalidade e legalidade se interpenetram para dar ao público um espetáculo da novo nacionalismo americano da era Bush, ganhou vários prêmios em 2007. Todos merecidos. Entretanto, o melhor filme de 2007 é sem dúvida alguma O BOM PASTOR. Em temos de ação, violência e efeitos especiais o filme deixa a desejar. É o primeiro filme de agentes secretos em que não ocorre nenhuma perseguição de carros em alta velocidade e nenhuma troca de tiros espetacular com inúmeros mortos. O protagonista não utiliza nenhuma daquelas maravilhas tecnológicas que imortalizaram 007. O filme foi rodado à moda antiga, sem efeitos especiais ou colocação de câmeras em ângulos inusitados (a única exceção é o plano aéreo de Berlim destruída que se aproxima até chegar aos personagens, cena em que há evidente uso de computação gráfica). As três coisas que sobressaem no filme são: roteiro, ambientação e interpretação, não necessariamente nesta ordem. O roteiro foi construído para dar ênfase aos aspectos psicológicos das disputas entre americanos, russos e ingleses. As pequenas e grandes traições que ocorrem durante a Guerra Fria isolam os agentes secretos num mundo particular, em que o valor da verdade é relativo e a desconfiança uma constante, uma arma defensiva e ofensiva. Todos os atores escolhidos conseguiram criar personagens fortes, cujos relacionamentos são marcantes. À medida que a trama se desenvolve em alguns momentos o protagonista se torna coadjuvante e alguns coadjuvantes assumem o papel de protagonistas. Quem é o personagem mais importante? Difícil dizer. A ambigüidade no desenvolvimento da película ajuda a passar para expectador uma idéia clara do ambiente da Guerra Fria. As tomadas externas são primorosas. Os detalhes de época também. O expectador fica com a nítida impressão de que as décadas de 1940, 1950 e 1960 passaram a fazer parte de sua própria experiência pessoal. Isto se deve à meticulosa escolha de paisagens, associadas a veículos e vestimentas. Nas tomadas internas os detalhes de época na decoração dos ambientes também merece destaque. Sem apelar para um patriotismo canhestro, Robert de Niro conduz o roteiro de maneira equilibrada. Dá uma discreta ênfase a grande mentira que perpetuou a Guerra Fria em benefício dos fabricantes de armas “made USA” (a grande mentira era o poderio militar russo). A vergonhosa derrota na Baia dos Porcos quando da tentativa de invasão de Cuba é creditada a traição de um agente da CIA. O aspecto mais interessantes do filme é a confusão entre público e privado. Uma sociedade secreta (Skull and Bones, da qual George W. Bush faz parte) é o local privilegiado onde a política pública de segurança dos EUA é discutida e organizada. A referida sociedade secreta cria a CIA e nomeia sues principais agentes. Mas a maior qualidade do filme é mostrar como o jogo de informação e contra-informação, de lealdade e deslealdade afeta as vidas pessoais dos envolvidos. A partir de determinado ponto alguns já não sabem exatamente para quem trabalham e que tipo de trabalho estão realizando. Exemplo disto é a tortura de um desertor russo autêntico porque um agente russo infiltrado se passa por ele e goza de crédito dentro da CIA. A eficiência e ineficiência da agência de inteligência americana foram exploradas de maneira nada teatral. Toda época
tem seu filme. Este é sem dúvida alguma o filme da era
Bush. Não só porque ele faz parte da sociedade secreta
referida na película, mas porque a CIA, que ainda goza de um
poder fabuloso, teve seu prestígio arranhado porque não
evitou os atentados de 11/09/2001 e ajudou a difundir a mentira de
que o Iraque de Saddan Husein tinha armas de destruição
em massa. Até o coroinha da mais modesta paróquia do
interior baiano sabia não existirem referidas armas. “Um ‘consultor sênior’ de Bush, cujo nome não foi revelado, declarou recentemente ao jornalista Ron Suskind que pessoas como Suskind eram membros ‘do que nós chamamos de comunidade baseada na realidade’: aqueles que ‘acreditam que as soluções emergem do estudo judicioso da realidade discernível’. Contudo, ele explicou, ‘esta não é mais a forma através da qual o mundo realmente funciona. Nós somos um império agora e, quando agimos, criamos nossa própria realidade. E, enquanto você estiver estudando esta realidade (...) agiremos mais uma vez, criando outras novas realidades, que você poderá analisar também, e é assim que se organizam as coisas. Somos os atores da história, e você, todos vocês, serão encarregados apenas de estudar o que fazemos’.” Esta longa citação ajuda-nos a compreender como o filme ilustra o que há de pior na era Bush. O governo Bush trata com absoluto descaso a análise judiciosa da informação e contra-informação. Nada lhe importa senão agir, senão criar realidades que atendam os interesses americanos (ou daqueles que colocaram ele e sua equipe na Casa Branca). Bush e seus comparsas já demonstravam a que vieram: se para criar realidades tiverem ignorar o Direito Internacional, manipular o sentimento religioso e desinformar sua própria população a justiça, a decência e a verdade não serão obstáculos. O BOM PASTOR é imperdível pois faz pensar. Pensar como o mundo seria melhor sem sociedade secretas e, principalmente, sem este monstrengo chamado CIA. Fábio de Oliveira Ribeiro |