REVISTA CRIAÇÃO
 

BUSH AMEAÇA, IRANIANOS RIEM


Caso fosse realmente usar armas nucleares no Irã o governo Bush não diria isto em público, porque a reação da opinião pública americana e mundial seria avassaladoramente contra. Há um século a Casa Branca justifica o uso da força com uma retórica humanitária e o uso de bombas atômicas no Irã modificaria um padrão que tem dado certo e não é considerado ultrapassado pelos americanos.

Antes de soltar bombas atômicas no Japão os americanos não avisaram os japoneses. A surpresa e o impacto são decisivos em qualquer guerra e os americanos sabem disto melhor do que ninguém. Portanto, a ameaça de uso de armas nucleares no Irã não passa de lenga-lenga. Bush pretende amedrontar os iranianos, os sírios, os norte-coreanos e, principalmente, os demais cidadãos do mundo. Seu discurso é ridículo:

-Olhem, nós temos armas atômicas e devemos ser temidos.

Todo mundo sabe que os americanos têm milhares armas atômicas e nem por o medo dos americanos é tão grande quanto a Casa Branca deseja. Todos os seres humanos sabem que vão morrer de uma maneira ou de outra e mesmo os menos inteligentes admitem a que as probabilidades de morte numa guerra nuclear são assustadoramente pequenas.

O discurso ameaçador de Bush é ridículo, irritante e passa de um blefe. Um blefe que não resiste a uma análise superficial.

O uso de bombas nucleares no Irã contaminaria uma região petrolífera e o preço do petróleo poderia disparar em razão do desabastecimento provocado pela impossibilidade de exploração das reservas iranianas. Com o aumento súbito do preço do petróleo a economia americana sofreria as conseqüências. Os EUA importam petróleo e têm uma dívida interna monstruosa em razão da Guerra do Iraque. Portanto, não creio que Bush dê um tiro no próprio pé.

Além disto, o cogumelo nuclear de uma Arma de Destruição em Massa detonada no Irã poderia ser levado pelo vento para o Iraque, Israel e Arábia Saudita, prejudicando os próprios americanos e seus aliados. Certamente os aliados dos americanos não autorizariam uma guerra nuclear na região correndo o risco de morrerem contaminados.

Os interesses da China também estão em xeque no conflito EUA\Irã porque os chineses compram petróleo iraniano. É bem provável que Pequim já tenha avisado a Casa Branca de que não irá tolerar o comprometimento de seu abastecimento de petróleo com uma guerra no território de seu maior fornecedor.

Bush não poder fazer nada ao Irã senão ficar ameaçando. Não vai fazer uma guerra convencional porque os iranianos estão em condições de se defender ou pelo menos de provocar muitas baixas nas forças armadas americanas, que acostumaram a fazer guerras sem correr riscos. Não vai fazer uma guerra nuclear porque isto é absolutamente intolerável, impossível e contrário à retórica do humanitarismo militar americano.

O Irã desarmou os EUA ao se tornar parceiro da China. A tragédia do Iraque se transformou em farsa no Irã e agora todos podem rir do governo americano.


PS: Sou grato ao comentarista militar que postou suas observações à margem deste texto quando o mesmo foi publicado no CMI (www.midiaindependente.org). Respeito sua posição, mas devo discordar. Mesmo que os americanos usassem "armas nucleares táticas" no Irã a hipótese do cogumelo nuclear viajando pela região não pode ser descartado.

Através da Internet pode-se facilmente acessar informações valiosas sobre o tema. O princípio de funcionamento de uma arma nuclear é a “reação em cadeia”. O dispositivo de acionamento quebra alguns átomos, que provocam a quebra de outros átomos, que provocam a quebra de outros mais... e assim por diante. O processo continua até a quebra de todos os átomos do material físsil liberando quantidades de energia fenomenais.

É verdade que os americanos têm o que o militar chamou "armas nucleares táticas". Mas também é verdade que eles nunca as usaram contra instalações nucleares. Portanto, ninguém pode ter certeza absoluta de que o material físsil estocado uma vez atingido permanecerá estável.

Em teoria uma segunda reação em cadeia não pode ser descartada. A "bomba atômica tática" ou de pequeno poder destrutivo pode muito bem funcionar como a espoleta de uma explosão ainda maior envolvendo o material físsil que existe nas instalações atingidas.

Sou bastante familiarizado com a literatura militar e descobri que os militares somente correm riscos calculados. Os "american soldiers" são truculentos, mas não são tão burros. É improvável que Bush corra o risco de ver um cogumelo nuclear vagando pelo Oriente Médio porque seus aliados israelenses e os soldados americanos poderiam ser vítimas de uma catástrofe.

O que ocorreria caso Israel fosse atingido por uma nuvem nuclear provocada pelo ataque americano no Irã? Os americanos sabem muito bem que os israelenses têm centenas de bombas atômicas e seriam capazes de utilizá-las. E há algum tempo os israelenses afundaram um navio de guerra americano próximo à sua costa.


Fábio de Oliveira Ribeiro

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