|
CHAPLIN, O CRONISTA DOS DESVALIDOS O poeta português Fernando Pessoa escreveu uma belíssima poesia que bem pode ajudar a definir o trabalho de Chaplin: O poeta é
um fingidor. O genial humorista inglês foi um paria. Criado num orfanato vitoriano, comeu o pão que o diabo amassou na Inglaterra. Assim que pode imigrou para os EUA em busca de uma vida melhor que a que tinha sob sua majestade. O personagem que Chaplin imortalizou também era um paria. Carlitos não tinha irmãos, parentes, pai, mãe... Era um vagabundo bem intencionado, mas sem eira nem beira. Não há dúvida de que o ator usou sua própria vida para compor o personagem. Com a quebra da Bolsa de Valores de New York em 1929 dezenas de milhões de americanos se tornaram desempregados. Neste período a verossimilhança do vagabundo criado por Chaplin se tornou maior. Em razão das circunstâncias o ator passa a falar diretamente ao coração do homem comum, jogado na rua da amargura por forças que não compreendia e sobre as quais não tinha controle. Os vagabundos fabricados pela ganância dos homens de negócios encontram em Carlitos seu maior representante. Nos filmes mudos de Chaplin, Carlitos está sempre tentando se dar bem. Mas como nós mesmos, em nossas medíocres vidas reais, quase sempre ele acaba entrando pelo cano. Quantas foram as frias em que o próprio Chaplin entrou em razão de suspeitarem que ele era comunista? O abuso de autoridade é um tema recorrente nos filmes de Carlitos. A mesma brutalidade policial que os pobres sofriam (e que ainda sofrem, inclusive nos regimes ditos democráticos) o personagem experimenta nas telas. Impossível não sentir empatia pela vítima de um abuso policial, ainda mais quando nos mesmos já fomos vitimados. Quantas foram as vezes que Carlitos fez nas telas aquilo que muitos de seus fãs gostariam de fazer na vida real? Quem nunca pensou em chutar a bunda de um policial que atire a primeira pedra! Os filmes de Chaplin sempre causaram sensação entre a população e estranhamento na elite. Num de seus filmes, Tempos Modernos se não me engano, ele teve a ousadia de filmar uma greve de verdade. Fazer isto hoje não causaria nenhum espanto. Mas naquela época tamanha audácia podia render cadeia. Chaplin sublimou suas dificuldades e teve coragem de enfrentar seus demônios publicamente, dentro e fora dos cinemas. É por isto que sempre será lembrado e amado, a não ser pelos que ainda encarnam aqueles mesmos demônios... (os ricos que desprezam o sofrimento dos pobres, os policiais que se divertem batendo em pessoas indefesas, os empresários que super-exploram seus operários, etc...). Poucos sabem que além de ator, Chaplin também foi um grande escritor. O livro dele HISTÓRIA DE MINHA VIDA, 5ª edição, José Olimpio, é de um refinamento despojado invejável. Sobre o encontro que teve com Chu En-lai, líder chinês à época da Guerra da Coréia, Chaplin escreveu “Brindei ao futuro da China e disse que, embora sem ser um comunista, partilhava de todo o coração suas esperanças e os seus desejos de uma vida melhor para o povo chinês, assim como para todos os povos.” Tolerância! Esta pare ser a palavra chave para entender porque o ator foi odiado pelo FBI de Edgar Hoover, sobre o qual disse que causava “...má impressão à primeira vista, com o rosto um tanto brutal e o nariz deformado...” E por falar em literatura, a poesia de Fernando Pessoa poderia ter sido escrita para Chaplin. Se não foi, ainda assim ajuda-nos a compreender a vida e a obra daquele gênio do cinema. Carlitos era um fingidor, mas fingia completamente a dor que seu criador deve ter sentido. Fábio de Oliveira Ribeiro |