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CIDADE DE DEUS “Cidade de Deus” é o primeiro filme brasileiro lançado este ano que vale a pena assistir. Entretanto, a perspectiva realista do filme deixa a desejar. Afinal, ao tentar retratar a vida de três gerações de malandros, o filme passou ao largo duas questões importantíssimas. A despolitização da vida carioca durante o regime militar ajudou a acarretar um exacerbado aumento da violência nas décadas de 70 e 80. Ela é em grande parte responsável pela frustração silenciosa que empurrou os jovens de classe média e alta para a drogodependência, criando o mercado que seria explorado pelos malandros cariocas. O filme retrata a passagem da malandragem tradicional para o tráfico. Entretanto, não mostra o contexto em que isto ocorreu com a complacência e até a proteção das autoridades militares, que acreditavam poder lidar com a criminalidade com mais facilidade do que com a liberdade de expressão de uma oposição que começava a ameaçar os baluartes do regime. Arnaldo Jabor alertou que “Cidade de Deus” mostra a nossa crueldade. Mas ele não percebeu que o filme também é cruel, justamente porque não expõe a crueldade de uma sociedade que legalmente exclui parte da população para incluí-la através da ilegalidade. Fato que é explorado apenas no final do filme, quando o policial recebe a parte que lhe cabe no negócio explorado pelos marginais. Não é preciso ser um cinéfilo experiente para perceber os buracos deixados pela trama. De onde vem a droga que é vendida nos morros cariocas? Onde ela é produzida? Como é transportada até chegar na boca de fumo para ser “batizada” e embalada em papelotes? E o principal:- quem financia as operações que envolvem o contrabando de cocaína para o Brasil? Se tentasse responder estas questões, o diretor seria obrigado a alterar um pouco o foco do filme. Ele preferiu concentrar-se na vida cotidiana das três gerações de marginais. Paciência. Caso fosse um pouco mais ousado teria produzido uma obra prima. Mas isto não quer dizer que o filme seja ruim. Ao contrário. É muito bom. Bem acima da média do que tem sido feito por aqui nestes últimos anos. Fabio de Oliveira Ribeiro |