REVISTA CRIAÇÃO

O CÓDIGO DA VINCI

Apesar de toda reação da Igreja, o filme é apenas regular e não provocará nenhum estrago ao catolicismo por dois motivos. Primeiro, porque o filme abusa das charadas misteriosas e intelectualizadas. O cristianismo nasceu e manteve sua vitalidade justamente em razão de ser uma religião sem mistérios. Segundo porque o filme não provoca rachaduras no mito do crucificado. Ao contrário, O CÓDIGO DA VINCI presume o caráter excepcional de Jesus e não toca num assunto bem mais delicado que o papel de Maria Madalena que é o sincretismo entre o cristianismo e o paganismo:

http://www.revistaetcetera.com.br/old/02/litera/mito1.htm

O elenco de atores veteranos ajuda a salvar o filme de seus dois defeitos principais. A atuação da atriz que faz a personagem principal é apenas regular, em alguns momentos quase amadora. Apesar de O CÓDIGO DA VINCI pretender revelar o relacionamento afetivo e sexual entre Jesus e Maria Madalena, nenhuma seqüência picante envolvendo o casal foi feita. O filme faz o cinéfilo esperar um beijo ou uma carícia sensual de Jesus em sua esposa e deixa-o na expectativa.

A virtude do filme é transformar uma ficção em outra mais elaborada. A primeira ficção é a que se refere à divindade e a castidade de Jesus, que não podem ser provadas e são objetos de fé. A ficção mais elaborada desfaz esta ficção em favor de outra, a do líder espiritual excepcional que teve uma esposa e filhos que se tornaram abomináveis para os cristãos.

O charme do filme não está nas respostas que fornece, mas nas perguntas que sugere. Perguntas que não podem ser respondidas pela maioria das pessoas, impedidas economicamente de procurar as respostas no velho continente. Perguntas que sequer serão feitas pelos verdadeiros cristãos. Afinal, a fé é irracional e pressupõe a valorização do dogma.

A ausência de questionamento interessa à Igreja Católica, principalmente porque a Opus Dei é ridicularizada em O CÓDIGO DA VINCI. Por isto bispos e padres estão aconselhando os fiéis a boicotarem o filme. O que é um absurdo, pois a proibição apenas aumentará o interesse pela obra, que vale mais pelo divertimento que proporciona do que pelos supostos segredos que revela.


Fábio de Oliveira Ribeiro

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