A
CRISE, A IMPRENSA E O LEITOR
Sou advogado.
Meus conhecimentos de economia são absolutamente limitados.
Aprendi alguns rudimentos da ciência de David Ricardo e Karl
Marx lendo uns poucos livros e muitos artigos de jornais e revistas.
Não posso confiar nas minhas conclusões sobre esta crise
financeira. Mesmo assim resolvi divulgar o que entendi para que os
mais esclarecidos possam me apontar meus erros e acertos.
Em razão do Consenso de Washington o Estado parou de regular
e interferir no mercado financeiro. Em razão disto os financistas
começaram a criar e vender produtos cada vez mais sofisticados
e criativos.
Nesse contexto, alguém compra uma casa financiada. A instituição
que fez o financiamento emite títulos de crédito com
base na dívida e os coloca em circulação. Faz
isto para captar mais recursos a fim de poder financiar outros imóveis.
A circulação dos títulos aquece a construção
civil e o valor dos imóveis aumenta. Então o dono do
imóvel financiado (que na verdade é um devedor) vende
o mesmo.
Satisfeito ele embolsa algum dinheiro e financia outro imóvel
mais valioso. A instituição financeira emite títulos
de crédito referentes ao imóvel que foi vendido pela
segunda vez e ao novo imóvel que foi comprado.
Os títulos de crédito referentes à primeira dívida
do imóvel revendido continuam circulando. Os da segunda dívida
do mesmo imóvel entram em circulação. Assim mais
recursos são captados e o aquecimento da construção
civil continua, assim como a valorização dos imóveis.
O mesmo imóvel é novamente valorizado e vendido, refinanciado
e provoca a emissão de novos títulos de crédito.
Os títulos de crédito da terceira dívida entram
em circulação junto com os da segunda e da primeira.
Com o tempo a contabilidade das instituições financeiras
começa a não fechar e os responsáveis pelas mesmas
escondem os problemas para não acarretar uma crise. Esta conduta
irresponsável e criminosa amplifica o problema. As dívidas
monetárias decorrentes dos vários títulos em
circulação emitidos por conta de sucessivos financiamentos
não podem mais ser saldadas.
Quando o mercado percebe a crise os investidores começam a
liquidar seus títulos e comprometem a saúde financeira
das empresas que fomentam o mercado imobiliário e a construção
civil. Os Bancos que realizaram operações com as mesmas
também não têm mais como saldar suas posições
e começam a quebrar.
O resto da história todos já conhecem. Prejuízos
dos investidores e clientes dos Bancos quebrados, redução
do crédito às empresas e clientes em geral, diminuição
do comércio em razão da incerteza que se propaga, redução
da produção e desemprego. Os desempregados não
podem pagar seus financiamentos, perdem as casa e vão para
a rua. O não pagamento das prestações dos imóveis
complica ainda mais a situação das instituições
financeiras, o excesso de oferta de imóveis construídos
derruba o preço dos mesmos e desacelera a construção
civil. Mais desemprego…
O capitalismo financeiro desregulado é um sistema essencialmente
burro que depende de muitos outros burros para funcionar. Os capitalistas
e financistas que criam títulos de crédito com base
em dívidas e os colocam em circulação são
estelionatários que acreditam que podem criar uma riqueza que
não decorre do trabalho. Não só isto, a explosão
da burrice penaliza justamente quem produz a verdadeira riqueza: o
trabalhador. Marx diria que esta crise é uma excelente oportunidade
para uma revolução socialista. David Ricardo diria que
é a prova empírica de que o capitalismo precisa urgentemente
ser salvo da desregulamentação financeira e dos capitalistas.
Fábio de Oliveira Ribeiro