REVISTA CRIAÇÃO

O DESERTO DOS AMERICANOS


Uma das coisas mais interessantes na obra de Hanna Arent é sua reflexão sobre a guerra. Após fazer uma clara diferenciação entre as guerras totais modernas e as guerras antigas (potencialmente menos destrutivas), bem como entre as guerras romanas (de assimilação) e as gregas (que também podiam produzir a aniquilação do derrotado como ocorreu com Tróia), Arent afirma que:

“As guerras do século XX não são ‘tempestades de aço’ (Jünger) que purgam a atmosfera política, tampouco ‘a continuação da política por outros meios’ (Clausewitz); são catástrofes monstruosas que podem transformar o mundo num deserto e o planeta em matéria sem vida.” (Hanna Arent, A PROMESSA DA POLÍTICA).

A referência ao deserto é importante. Mas para entender a mesma é preciso lembrar que para a filosofa a política é uma relação humana e somente existe quando e enquanto há um elo entre os homens. É no espaço criado entre os homens que as relações nascem, crescem e se aperfeiçoam. Nesse sentido a guerra de aniquilação nuclear, além de destruir coisas e homens, aniquila até mesmo a possibilidade futura de reconstrução das relações que os inimigos haviam construído e que permitiram a coexistência pacífica antes do conflito. Para Arent a guerra nuclear empobrece o vencedor e o mundo, pois ao aniquilar sociedades inteiras rompe o fio que permitiria a perpetuação da cultura do vencido.

Nesse sentido, para Arent o deserto é a ausência de relações ou a impossibilidade de reconstrução das mesmas.

“O moderno crescimento da ausência-de-mundo, a destruição de tudo que há entre nós, pode ser também descrito como a expansão do deserto. O fato de vivermos e nos movermos num mundo-deserto foi primeiramente percebido por Nietzsche, também o primeiro a se equivocar em seu diagnóstico. Como quase todos que vieram depois dele, Nietzsche acreditava que o deserto está em nós, assim se relevando não apenas um dos primeiros habitantes conscientes do deserto, mas também, por essa mesma relação, uma vítima de sua mais terrível ilusão. A moderna psicologia é a psicologia do deserto: quando perdemos a faculdade de julgar-sofrer e condenar – começamos a achar que há algo errado conosco por não conseguirmos viver sob as condições da vida no deserto. Na pretensão de nos ‘ajudar’, a psicologia nos ajuda a nos ‘adaptarmos’ a essas condições, tirando a nossa única esperança, a saber: que nós, que não somos do deserto, embora vivamos nele, podemos transforma-lo num mundo humano. A psicologia vira tudo de cabeça para baixo: precisamente porque sofremos nas condições do deserto é que ainda somos humanos e ainda estamos intactos; o perigo está em nos tornarmos verdadeiros habitantes do deserto e nele passarmos a nos sentir em casa.” (Hanna Arent, A PROMESSA DA POLÍTICA).

A reação indignada, áspera e até violenta de alguns americanos a um texto que publiquei na internet (http://robustdebate.multiply.com/journal/item/2024) me fez lembrar das palavras de Arent. Não só isto, a reação deles me obrigou a fazer uma pergunta realmente incômoda.

Até que ponto os americanos já viraram habitantes do deserto que eles mesmos estão criando?


Fábio de Oliveira Ribeiro

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