REVISTA CRIAÇÃO

DISCURSO DE DICK CHENEY


Há bem pouco tempo defendemos a tese de que o Irã venceu os EUA sem dar um único tiro. Que a agressividade americana em face do programa nuclear iraniano foi desarmada em razão de Rússia e China terem anunciado que a questão deveria ser solucionada pela via diplomática (desautorizando, portanto, o bombardeio defendido pela Casa Branca).

Na primeira semana de maio o vice-presidente dos EUA anunciou em um discurso bombástico que a Rússia não tinha o direito de usar suas reservas naturais para fazer chantagem com o mundo livre. Imediatamente os russos reagiram de forma dura, deixando claro que fazem o que bem entenderem com seus recursos naturais e que estão seguros de seu poder de dissuasão nuclear.

Se desconsiderarmos as palavras de Dick Cheney, seu discurso pode ser interpretado de diversas formas.

Uma delas é o temor americano de que a Rússia se aproxime demais da China. Como os EUA, a China é grande importadora de petróleo e está em condições financeiras e tecnológicas de fazer parcerias extremamente proveitosas com a Rússia.

O atacar verbalmente a Rússia, Cheney realizou a vingança possível diante da posição tomada pelo Kremlim em relação ao programa nuclear iraniano. Uma bravata estúpida sob todos os aspectos. Mesmo tendo oficialmente perdido a Guerra Fria os russos ainda tem milhares de ogivas nucleares e condições tecnológicas de causar razoável destruição nos EUA.

O destemperado e, em certa medida, desesperado discurso do vice-presidente americano é uma prova clara de sua insanidade. A doença de Dick Cheney já foi detectada há algum tempo por membros proeminentes da corte de Bush II. Em sua obra Plano de Ataque, Bob Woodward afirma que Rove e Colin Powell admitiram que a capacidade de Cheney de interpretar os fatos estava comprometida por sua obsessão com o terrorismo.

A bravata do vice insano, entretanto, é útil a Bush II de diversas formas. Em princípio, o ataque à Rússia ajuda a desviar a atenção da mídia e da população americana da derrota sofrida na arena diplomática para o país dos Aiatolás. Além disto, Bush II sempre terá a opção de silenciar sobre o discurso dando a Cheney o benefício da dúvida e deixando seus adversários internos e externos inseguros quanto à posição oficial da Casa Branca.

O mais interessante do discurso de Cheney é que ele pode ser considerado a prova de que a diplomacia do porrete preventivo acabou. A “doutrina do ataque preventivo” de Bush II foi substituída pela verborragia estúpida do vice insano.

Pelo menos por enquanto o ataque preventivo ao Irã foi descartado por fatores alheios à vontade da Casa Branca. A derrota diplomática foi grave ao ponto de demonstrar que os EUA perderam sua vantagem estratégica, quer no plano diplomático através de ameaças, quer no plano propriamente militar porque se viu impossibilitada de usar a força.

É evidente que a “doutrina do ataque preventivo” não se aplica à Rússia ou à China, porque russos e chineses são bem mais poderosos militar e tecnologicamente do que os iranianos. A referida doutrina foi concebida para dar aos americanos a capacidade de dobrar adversários e inimigos mais frágeis em razão de um cenário favorável (ou seja, quando russos e chineses não objetassem de maneira clara e veemente contra o uso da força).

A vitória do Irã, um inimigo frágil que não cedeu às ameaças americanas e conseguiu o aval da Rússia e da China, provocará mudanças importantes no cenário internacional. Uma nova ordem está sendo forjada sem a anuência americana e mesmo contra as agressivas intenções da Casa Branca de dominar o mundo. Doravante os gringos terão que se resignar à condição de sócios em um mundo plural. Nesse sentido, creio que a única solução viável para os EUA será revitalizar e reforçar os Órgãos Multilaterais. A outra opção é uma guerra global para a qual até os mais renitentes defensores da supremacia militar americana sabem que os EUA não estão preparados.


Fábio de Oliveira Ribeiro

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