CENAS
DE UM PERSONAGEM CARICATO EFEITO COLATERAL é prova inequívoca de que a indústria cinematográfica americana entrou de sola na guerra recentemente declarada pelo Governo Americano. A história pretende renovar e atualizar o mito do herói. A perturbação da ordem é provocada por uma tragédia. A esposa e o filho do bombeiro morrem num atentado de "El Lobo". Ele espera que sejam tomadas providências. Só depois resolve agir por conta própria indo atrás do terrorista na América Latina. Fazendo-o, acaba encontrando resistência da CIA e descobrindo que os atentados políticos são apenas uma maneira dos guerrilheiros defenderem seus verdadeiros objetivos:- manter a produção e o tráfico de cocaína. Reconhecido pelas autoridades locais o bombeiro acaba preso, aproveitando um ataque dos terroristas para fugir. Com o passe de outro presidiário, ruma para o território controlado pelos traficantes disfarçado de mecânico. Chega a uma indústria de cocaína e finge que está trabalhando enquanto prepara-se para vingar a morte de seus entes queridos. Depois de destruir a fábrica coloca uma granada perto de onde está o responsável pelo atentado nos EUA. Ao sair do local vê a mulher e o filho do terrorista chegando e, lembrando-se de sua esposa e filho, alerta-a . Fazendo isto alerta também o responsável pela tragédia que escapa da explosão e aprisiona-o. No cativeiro o herói é maltratado e só depois de agredido revida. Pela fresta da porta de sua cela, o bombeiro vê a mulher do terrorista exigindo do marido que ele seja mantido vivo. Depois que o marido viaja para os EUA para fazer um novo atentado ela vai até a cela. Diz estar arrependida e pede proteção para si e seu filho. Liberto, o cativo segue com a esposa e o filho de "El Lobo" para Washington a fim de identificar o local do atentado, o que é feito dentro do Departamento de Estado. Todas as autoridades americanas dão crédito ao arrependimento da mulher do terrorista. Mas ela estava mentindo. A bomba na estação de trem em que "El Lobo" foi filmado era um logro para desviar a atenção das autoridades. O verdadeiro objetivo era destruir o Departamento de Estado, para onde a bomba foi levada dentro de um brinquedo do filho dela. Quando a mãe exige que o filho a acompanhe ao banheiro o bombeiro desconfia. Ele deixa o garoto com o policial e segue-a, descobrindo que ela matou a funcionária que levou-a ao WC. O herói volta para a sala e arremessa a bomba pela janela. Quando ela explode ninguém fica ferido. Após a explosão inicia-se uma seqüência de perseguição. Os terroristas fogem usando uma moto. O bombeiro fecha as saídas do prédio usando um painel de controle e fura o encanamento de gaz. Quando os terroristas retornam e atiram nele o gás explode. Mas eles não morrem. O bombeiro, que havia se abrigado em outra sala, retorna ao local da explosão e é agredido pelos dois. Reage e acaba matando-os. Joga a mulher num painel elétrico e arremessa um machado de bombeiro no peito do "El Lobo". O menino (que na verdade era filho adotivo dos terroristas) fica em companhia do bombeiro. EFEITO COLATERAL não disfarça, opõe claramente dois extremos:- AMÉRICA/AMERICANOS/BEM x GUERRILHEIROS/TERRORISTAS/TRAFICANTES/MAL. O herói, um bombeiro, é cordial e pai de família exemplar. Somente reage à uma injusta provocação diante da inércia do Governo Americano. O Governo Americano, por sua vez, tenta através da CIA contornar o problema do terrorismo associado ao tráfico de drogas sem usar violência. Quando a violência é empregada pela CIA, o Senado Americano intervém encerrando as atividades da agência na América Latina. Todos acreditam no arrependimento da mulher do terrorista. Somente após ser destituído do cargo o agente da CIA que comandava a operação na América Latina age por conta própria, localizando e atacando o acampamento terrorista. Toda as vezes em que o herói usa a violência está se defendendo. Os terroristas são absolutamente desprovidos de sentimentos. Realizam o primeiro atentado sem se preocupar com a morte de inocentes. Estão intimamente ligados à produção e comercialização de drogas. Abusam da confiança depositada pelos americanos na mulher do traficante para realizar um ataque mais ousado. Até mesmo o filho adotado ela deixa para morrer na sala onde está a bomba. O artefato explosivo foi colocado num brinquedo de criança, prova de que nem mesmo a pureza da infância é respeitada pelos maldosos terroristas. Em várias oportunidades os guerrilheiros/terroristas/traficantes aparecem executando friamente as pessoas, até mesmo seus próprios companheiros. O guerrilheiro que permitiu a entrada do bombeiro disfarçado na zona controlada pela guerrilha é obrigado a engolir uma cobra venenosa. O tema abordado no filme (colapso do Estado na América Latina, trafico de drogas, terrorismo internacional, etc.) é delicado. Não poderia ser tratado de uma maneira tão leviana. O tráfico de drogas, por exemplo, é um problema de duas pontas. Numa delas está o colapso de alguns Estados na América Latina. O subdesenvolvimento, o desemprego crônico e a pobreza do terceiro mundo arrastam para a rentável indústria do narcotráfico contingentes cada vez maiores de populações abaixo da linha da pobreza. Na outra ponta do problema está a incapacidade dos EUA combater com eficiência o consumo de tóxicos pelos seus próprios cidadãos. A produção e comercialização de drogas só existe porque existem consumidores dispostos a pagar o preço para obtê-las. Qualquer pessoa razoavelmente inteligente que assista EFEITO COLATERAL é levada a perguntar:- para quem os traficantes do filme vendem suas drogas? Se não for capaz de formular e responder esta pergunta o cinéfilo poderá fazer outra pergunta ainda mais aguda:- porque o Governo Americano age através da CIA na América Latina contra os narcotraficantes se o filme não admite que as drogas são consumidas nos EUA? Mas digamos que, enredado nas teias do mito do herói que os roteiristas pretenderam escrever nas telas do cinema, o espectador também não seja capaz de fazer e responder a última questão. Terá então que admitir que o bombeiro e o agente da CIA que foi destituído de seu comando tiveram que agir por conta própria. Mas isto não seria uma prova do colapso do Governo Americano, na medida em que ele foi incapaz de evitar o ataque terrorista e tomar providências depois que o mesmo ocorreu? Como se os EUA destruíram a Sérvia de Milosevic e o Afeganistão do Talibã em apenas alguns meses? Por mais que a pessoa diante das telas seja idiota ela não deixará de perguntar:- porque os terroristas do filme querem tanto produzir e vender drogas e praticar atentados? A resposta para esta questão sugerida no diálogo final entre os terroristas e o herói não é capaz de convencer nem mesmo uma criança bem informada. Afinal, segundo os roteiristas do filme os terroristas/traficantes apenas gostam de ser maldosos. Algumas perguntas bem infantis são capazes de destruir totalmente a lógica do filme. Se os EUA e os americanos são tão bons e generosos, porque os terroristas não mudaram para a América e arrumaram um trabalho honesto (como bombeiros, por exemplo)? Porque os EUA manda a CIA para combater o narcotráfico ou invés de mandar cientistas, técnicos e dinheiro para ajudar as populações aliciadas pelo narcotráfico para que elas possam ter uma vida digna, trabalhando honestamente em seus próprios países? Os produtores de EFEITO COLATERAL pretendiam renovar e atualizar o mito do herói. Todavia apenas conseguiram criar um personagem caricato. Afinal, o bombeiro é incapaz de agir como um ser humano e os heróis da Mitologia Grega não deixam de cometer deslizes:- Jasão abandona Medéia e os filhos; Hércules trai a esposa e, num momento de fúria, mata o amigo; Aquiles morre em razão da própria impaciência; Ulisses não hesita em enganar Penélope para certificar-se de seu amor e só verga o arco quando os pretendentes da esposa não estão vendo. A dimensão profundamente humana é que confere aos heróis da Mitologia Grega a capacidade de cativar as mentes e os corações dos leitores há mais de vinte séculos. Filmes como EFEITO COLATERAL não resistem a vinte dias nos cinemas e são rapidamente esquecidos. Enquanto a indústria cinematográfica americana não for capaz de criar personagens tão perenes quanto os heróis gregos, os EUA continuarão apenas desejando o apoio mundial para suas guerras. Pior para os americanos, fadados a cultuar heróis caricatos, a consumir drogas e a alimentar narcotraficantes para combatê-los (sozinhos).
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