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ELEIÇÕES AMERICANAS
a) divino
O livro em questão é MURRO NA CARA, Objetiva, 1996, de Vitor Paolozzi. Nesta obra são destrinchados os segredos das campanhas políticas americanas, as quais são muito parecidas com as brasileiras. A primeira coisa que o autor destaca as eleições são sempre imprevisíveis mesmo que os gastos de campanha sejam milionários. As eleições ainda são “... um imenso buraco negro, em que análises diferentes são aceitas para explicar acontecimentos e justificar cursos de ação.” Nos EUA a profissionalização das campanhas eleitorais criou um fenômeno interessante. “A influência que em outras décadas exerciam os dirigentes partidários, com poder para escolher candidatos, dirigir campanhas e controlar diretórios locais, foi esvaziada e transferida para novas mãos. Especialistas em comunicação, marketing e propaganda, os consultores gradualmente assumiram total controle das candidaturas.” O mesmo processo de transferência de poder para os publicitários ocorreu no Brasil. Recentemente líderes partidários aparentemente antagônicos como Maluf e Lula foram eleitos pelas mãos do mesmo homem: Duda Mendonça, cujo poder transcendeu às eleições. Por quase dois anos este publicitário agiu como se fosse um verdadeiro “técnico da seleção” dos ministros escolhidos por Lula. O exercício do poder por homens que não foram nem eleitos nem nomeados é um fato. Portanto, ninguém deve estranhar que, há bem pouco tempo, foi justamente o publicitário Marcos Valério que cuidou do caixa de campanha petista e, segundo divulgado pela imprensa, ajudou a comprar votos de congressistas provocando um incidente que poderia ter derrubado Lula. Isto demonstra ser verdadeira a afirmação de Paolozzi de que políticos “...despreparados que depositam cegamente suas esperanças nas mãos de “especialistas” mal sabem que podem estar confiando em pessoas tão ineptas quanto eles próprios.” Campanhas não são feitas para obter a aprovação de programas de governo, mas para administrar os danos dos ataques dos adversários e para destruir seu apoio popular. Afinal, quando começa o tiroteio não há mais espaço para debate racional. Vocês já perceberam como as campanhas exemplificam o princípio aristotélico da não contradição. Mas não se engane. Isto não quer dizer que os políticos optaram por uma filosofia, apenas que contrataram um publicitário para coordenar os trabalhos de seus correligionários. “Partindo do candidato e passando pelo seu vice, dirigentes do partido e assessores, todos precisam apresentar não só a mesma versão para os fatos relacionados à disputa eleitoral como também devem abordar apenas os temas que são do interessa da campanha...” Eis dois conselhos que se aplicam perfeitamente ao jeitinho brasileiro de fazer campanha política:- “...quem não for o mais agressivo, quem simplesmente reagir a eventos, ao invés de provocá-los, estará morto quanto chegar o dia da votação.”; “Uma boa campanha deve ainda ter maleabilidade para adaptar-se ao curso dos acontecimentos. É preciso ter jogo de cintura para mudar as regras do jogo quando a situação está difícil”. Toda eleição é igual. Nem começa a disputa os comícios relâmpagos, passeios a pé nas cidades, refeições típicas em público começam encher o noticiário com imagens inusitadas dos candidatos. Não seja mais enganado. Saiba que boa parte disto tudo é fogo de palha para atrair a atenção da imprensa. Como destaca Vitor Paolozzi esse “...vale-tudo para criar fatos geralmente funciona porque a imprensa “morde a isca”, atraída pela possibilidade de exigir imagens que sejam diferentes daquelas típicas de campanha”. Campanhas são feitas com propostas? Errado. São moldadas a partir de pesquisas detalhadas feitas junto aos eleitores. O candidato bem sucedido não é necessariamente o que desenvolveu a melhor e mais detalhada plataforma de governo, mas aquele que elaborou um plano que atende os anseios de uma parcela significativa da população. O que prova satisfatoriamente que quando a publicidade impera, não há mais espaço para a política. A arte do convencimento cedeu passagem à manipulação das esperanças dos eleitores. Pois é com os dados das pesquisas na mão que “...vai ser desenhada uma estratégia que molde o candidato dentro das expectativas da população e ao mesmo tempo o diferencie, e valoriza, em uma comparação com a concorrência.” Durante as últimas eleições presidenciais Lula ficou sob fogo cerrado. Afastou ministros, mandou apurar os fatos e tudo indica que esperou ser declarado candidato para dizer que estava arrependido pelos equívocos que cometeu. Grande novidade... Esta é uma artimanha bem conhecida, uma tática eficaz e tão usada que se tornou uma espécie de cânone das eleições presidenciais americanas. Qual o segredo do sucesso numa eleição? Após estudar profundamente o fenômeno Vitor Paolozzi chegou à conclusão “...de que o segredo está não em produzir uma campanha diferente ou revolucionária, mas em saber escolher o chavão certo, para o candidato certo, na eleição certa, e ter um mínimo de competência para executar o serviço.” Mas não é só isto. O candidato deve, ainda, dar ao eleitor otimismo, pois o candidato que for pessimista “...não desperta esperança no eleitor.” A utilização da TV nas campanhas eleitorais dos EUA é um fato corriqueiro. No Brasil um direito garantido gratuitamente aos partidos políticos. MURRO NA CARA assegura que, em se tratando de TV, a imagem do candidato é muito mais importante do que as propostas. Além disto, o candidato não precisa ter qualidades, basta que o público acredite que ele as tem e a eleição pode estar no papo. Exemplo: em razão da eficiência do Duda Mendonça uma parcela significativa do eleitorado acreditou que Lula era competente e honesto. Seu governo é um desastre administrativo e seus principais colaboradores corruptos. Mas é claro que o Duda Mendonça não pode ser processado por propaganda enganosa. Afinal, todos os outros candidatos também estavam tentando aparentar qualidades que não tinham. Quanta manipulação há numa campanha eleitoral? Responder esta pergunta é impossível, porque em se tratando de campanha eleitoral tudo é ou pode vir a ser manipulação. Ao utilizar pesquisas de opinião e moldar o candidato, o publicitário não está a vender um produto. “Em vez disso, ele vende aos eleitores as suas noções preconcebidas. Ao votar no político que a capaz de expressar suas noções de maneira evocativa, os eleitores estão se reafirmando.” O jogo de manipulação é tão asqueroso que o autor frisa que uma das “... tarefas de uma campanha é saber identificar corretamente quais são os sentimentos e preocupações prioritárias do eleitor e reagir a eles. As pessoas têm a tendência de julgar que os problemas que afligem suas vidas particulares são igualmente importantes para o país...” Portanto, se está desempregado, desconfie do candidato que diz que seu governo pretende criar empregos. Se não tem casa própria, não acredite no primeiro calhorda que prometer um programa habitacional arrojado. À medida que avançamos ficamos com a impressão que o livro MURRO NA CARA pode ajudar o eleitor a não se deixar manipular pela propaganda eleitoral. Talvez até ajude alguns, quanto à grande maioria... Uma boa campanha eleitoral não inculca valores novos nos eleitores, apenas tira proveito dos valores que eles já interiorizaram para reforçar sua decisão de votar neste ou naquele candidato. De qualquer maneira, o livro de Vitor Paolozzi é uma leitura agradável e necessária. Afinal, em sua excelente exposição do fenômeno eleitoral americano o jornalista nos dá informações realmente úteis e precisas sobre o relacionamento entre os candidatos e seus publicitários e entre estes os jornalistas e eleitores. Uma outra forma de prevenir os males do republicanismo é VOTAR NULO. A deliberada rejeição de todos os partidos e candidatos por parte da população torna o resultado das eleições imprevisíveis. Isto pode obrigar os partidos a renovarem seus quadros e os políticos a repensarem suas práticas. Quando eles passarem a respeitar mais os contribuintes que pagam seus salários merecerão novamente os votos dos eleitores. De qualquer maneira é sempre importante discutir as eleições nos EUA, pois cá também teremos eleições este ano.
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