ENTRE A INFORMAÇÃO E O LUCRO Já tive a oportunidade de ler e resenhar vários livros sobre o papel da mídia. Dentre estes gostaria de destacar os seguintes: JORNALISMO
E DESINFORMAÇÃO, Leão Serva CULTURA
DO MEDO, Barry Glassner ELEMENTOS
DO JORNALISMO, Bill Kovach & Tom Rosenstiel ELEMENTOS
PARA UMA TEORIA DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO, Hans Magnus
Enzensberger SOBRE
A TELEVISÃO, Pierre Bourdieu Há consenso no sentido de que o objetivo da empresa jornalística (comercialização de notícias, pagamento de seu custo e realização de lucros) acaba interferindo de alguma maneira no seu papel público (difusão de fatos e opiniões para que os cidadãos possam exercitar sua cidadania). Mesmo quando prime pela ética, profissionalismo, isenção epreservação de sua liberdade, a empresa jornalística certamente hesitaria em publicar uma denúncia inédita que abalasse a credibilidade de seu maior anunciante. O livro ELEMENTOS DO JORNALISMO sugere que o paradoxo da livre circulação de informação combinado com o desinteresse e desinformação do cidadão americano pode ser solucionado através de uma maior participação do leitor. Os autores alertam, entretanto, que “...neste começo de século 21 a profissão terá pela frente a maior ameaça de sua história. Veremos pela primeira vez o surgimento de um jornalismo baseado no mercado, mais e mais divorciado da idéia de responsabilidade cívica.” A isenção é uma meta que nem sempre a imprensa preserva. Os mídia tendem a achar que a SUA agenda é ou deve ser a agenda pública. Isto explica, por exemplo, a reação de uma parte da mídia ao segundo mandato de Lula. Não foram poucos os jornalistas que disseram que o resultado da eleição contrariou a “opinião pública”. Entretanto, a “opinião pública” foi legitima e soberanamente expressada na urna. Sendo assim, o resultado pode ter contrariado, no máximo, as poucas “opiniões publicadas”. E olhem que digo isto sem ser eleitor do Lula. Fiz campanha do voto nulo, mas ao contrário de alguns jornalistas não me sinto no direito de questionar o resultado legítimo das urnas. Leão Serva afrima que a “... necessidade de surpreender e os procedimentos usados pelo meio para esse fim explicam em parte a existência de tantos leitores que, embora metralhados diariamente por um sem-número de informações, nem por isso compreendem realmente a natureza dos fatos que consomem.” É preciso dar a devida atenção ao vocábulo “consomem”. Ao usar o mesmo o autor deixa claro que antes de ser um bem cultural a informação jornalística é um produto, uma mercadoria. Em termos marxistas, a notícia seria considerada uma mercadoria muito especial, porque não só produz alienação no seu produtor mas também seu consumidor. Nesse sentido, vale a pena conferir como o autor de CULTURA DO MEDO se refere à atividade jornalistica. Barry Glassner enfatiza que “...os jornalistas se vangloriam de ser desconfiados em relação às informações que recebem. O jornalista adirão ´usa seu ceticismo como um cavaleiro medieval usava sua armadura´, disse Shelby Coffey, diretora da ABC News e ex-editora do Los Angeles Times. No entanto, quando se trata de uma grande história de crime, um jornalista se comporta como o garoto mais certinho do colegial para quem a garota mais popular da escola pediu ajuda em seu projeto de ciências. Grato pela oportunidade, ele não se preocupa em fazer muitas perguntas.”
Marinho sabia, melhor do que ninguém, que os golpistas haviam rasgado a Constituição de 1946 e violado a hierarquia militar. O Presidente deposto tinha o direito inquestionável de cumprir seu mandato pois havia sido eleito e empossado num pleito legítimo. Mas a lógica empresarial falou mais alto. Não a toa as empresas Globo cresceram assustadoramente durante o Regime Militar. Muito embora tenha abrigado alguns jornalistas comunistas, a Globo nunca se posicionou abertamente contra os militares (pelo menos até eles apearem do poder). As relações perigosas entre a imprensa e os políticos são evidentes. Cada dono de empresa jornalística ou jornalista tem suas preferências pessoais e acaba expressando-as de forma clara ou disfarçada. Quando há conflito entre o jornalista e seu patrão é evidente que predomina “a linha da casa” (a opinião do dono vai a público e a do jornalista à merda). O último escândalo envolvendo o Renan Calheiros está aí para provar que as vezes o político é o VERDADEIRO dono do jornal em nome do laranja. Imaginem o que ocorreria com um jornalista do jornal de Renan denunciasse o patrão oculto? Você sabe o que faz o jornalista antes de preparar seus textos (escritos, sonoros e visuais)? Bourdieu nos dá a resposta: “Para os jornalistas, a leitura dos jornais é uma atividade indispensável e o clipping um instrumento de trabalho: para saber o que os outros disseram. Esse é um dos encanemos pelos quais se gera a homogeneidade dos produtos propostos.” Aliás, o francês alerta-nos que nas “...equipes de redação, passa-se uma parte considerável do tempo falando de outros jornais e, em particular, do que ‘eles fizeram e que nós não fizemos’ (‘deixamos escapar isso!’) e que deveriam ter feito - sem discussão - porque eles fizeram.” Esta atitude faria com que os jornalistas fiquem submetidos à um verdadeiro “...fechamento mental.”
Mesmo que seja econômica ou politicamente tendenciosa, a imprensa livre é sempre melhor do que a censurada. Não há dúvidas de que a censura se transforma sempre numa fonte maior de distorções, mentiras e meias-verdades. Além disto, a liberdade de imprensa e a competição entre as empresas jornalísticas favorecem o cidadão. Quando pode consultar várias fontes, o leitor tem condição de formar sua opinião de uma maneira bem mais sólida e independente. Quando lê ou vê uma notícia ou opinião jornalística o leitor pode adotar duas atitudes: credulidade ou crítica. Se acreditar em tudo que ler e ver acabará ficando confuso tamanha a diversidade de opiniões sobre um mesmo tema. Caso seja mais criterioso, o leitortelespectador pode extrair das notícias o que realmente lhe interessa. Nesse sentido, o ceticismo pode ser uma ferramenta importante. Duvide do que ler e ouvir. Sobre assuntos delicados (política e economia, p.e.), consulte sempre várias fontes. Procure identificar os pontos controversos para poder detectar distorções. As omissões também são importantes. Nem tudo o que lhe interessa será publicado ou divulgado. Cada empresa jornalística cuida de suas prioridades. Portanto, o leitor também pode e deve dar mais atenção aos seus próprios interesses do que aos dos jornalistas e controladores das TVs que assiste ou jornais e revistas que lê. Por fim, é sempre bom lembrar que a internet modificou substancialmente o jornalismo. Agora qualquer cidadão pode produzir e difundir fatos e opiniões. O que era monopólio dos jornalistas e donos de empresas jornalísticas se tornou cessível a todos. O próprio Jornal de Debates é um excelente exemplo de como Hans Magnus Enzensberger tinha razão quando afirmou que as "... novas mídias têm a tendência a eliminar todos os privilégios de formação, e com isso também o monopólio cultural da inteligência burguesa.” Fábio de Oliveira Ribeiro |