ERA UMA VEZ NO MÉXICO À primeira vista, ERA UMA VEZ NO MÉXICO parece mais um daqueles enlatados em que a exacerbação da violência gratuita é utilizada para criar um efeito de humor. Contudo, o filme é mais que uma comédia despreocupada. Ele ridiculariza de maneira ferina e mordaz a mania que o governo americano tem de ficar tentando moldar o mundo à sua imagem. Explora de forma lúdica as situações ridículas em que as instituições americanas se colocam em virtude dos imprevistos. O pistoleiro apolítico contratado para fazer o serviço sujo da CIA no México revela-se um autentico nacionalista. O agente secreto, traído por quase todos os mexicanos que recrutou para interferir nos destinos políticos de outro país, acaba cego e guiado por um menino. O traficante e o general que pretendem chegar ao poder são vencidos pelo povo, que encara o dever de lutar para criar seu próprio destino à revelia da CIA. A atitude de “El”, interpretado com maestria por Antonio Banderas, revela de maneira clara que as pessoas tem seus próprios interesses, que seus interesses mudam de acordo com a evolução dos fatos. Os seres humanos não podem ser manipulados pela Casa Branca como se fossem bonecos destituídos de personalidade e vontade. Apesar de engraçado “El” pode ser comparado a Bin Ladem e Saddan Hussein. Afinal, muitas são as faces dos bandidos que fugiram ao controle do governo americano. Desde que conseguiu derrubar Mossadeq, a CIA desfruta um prestígio imenso. A agência, símbolo da eficiência americana, seria capaz de interferir com sucesso na política de outros paises. Contudo, depois de quatro décadas de espionagem e contra-espionagem na Alemanha, a CIA foi surpreendida pelos acontecimentos que resultaram na queda do muro de Berlim. Isto para não dizer que os espias americanos não foram capazes de evitar os ataques ao WTC em 11/09/2001. As questões colocadas pelo filme podem ser enunciadas da seguinte maneira. De que adianta tentar interferir nos destinos de outros povos se eles são perfeitamente capazes de resolver seus problemas? Para que manter a CIA se a agência é absurdamente ineficiente? Porque apoiar a política exterior do governo Bush Dabia se seus planos são uma relação de coisas que quase sempre não acontecem? A elite americana sempre encarou os latino-americanos como um povo que não sabe se governar. Por isto encarregou a Casa Branca da relevante tarefa de provê-los de governos. Na segunda metade do século XX, os donos do poder nos EUA transferiram para os outros povos a imagem que construíram dos latino-americanos. O resultando não poderia ser pior. Imbuídos da missão de governar os povos, vários Presidentes americanos se intrometeram indevidamente na vida de outras nações. Só conseguiram construir uma imagem negativa e terrível dos EUA. Os governos americanos deram aos terroristas de todas as cores o que eles precisam para divulgar suas idéias:- um inimigo cruel. O pior é que o governo Bush parece não ter aprendido nada em 11/09/2001. Tanto que cultiva abertamente a imagem dos EUA como potência invencível com direito a ditar as regras onde puder levar suas armas. Felizmente alguns protagonistas da indústria cinematográfica americana são mais perspicazes do que George W. Bush. Perceberam que a origem do mal está na ignorância ou na incapacidade que os americanos tem de rejeitar a auto-imagem falsa que criaram de si mesmos nos últimos dois séculos. Desta compreensão resultou a produção de filmes que pretendem desfazer o equívoco. ERA UMA VEZ NO MÉXICO é sem dúvida um legítimo representante de uma nova era cinematográfica. A curiosa inversão operada pela ideologia oficial americana começa a ser desfeita. Nós latino-americanos, herdeiros legítimos da civilização romana, já fomos tratados pelo cinema americano como bárbaros. Suportamos toda sorte de humilhações de maneira civilizada. Os produtores e diretores de filmes americanos, descendentes dos bárbaros que habitavam além da muralha de Adriano, consideravam-se civilizados e somente agora começam a merecer o título que ostentavam.
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