REVISTA CRIAÇÃO

EXCALIBUR (O FILME)

Trata-se de um longa metragem inspirado nas novelas de cavalaria que contam a história do Rei Arthur e seus cavaleiros da Távola Redonda.
Dois nobres disputam a hegemonia no reino. Auxiliado por Merlim, o mago, Lord Uther consegue apoderar-se da espada do poder, Excalibur, e é reconhecido como o rei pelo inimigo. Contudo, a paz dura pouco, pois Uther enamora-se pela esposa do ex-rival, reacendendo o ódio entre ambos.
Durante a noite, enquanto o inimigo comanda seu exército em campanha, Uther, com auxílio de Merlim, toma as formas do oponente e passa a noite com a esposa dele. O rival morre, Uther fica com sua esposa, que dá a luz a um menino. O garoto é entregue ao mago como prêmio exigido pelos seus feitiços.
Uther acaba morto pelos cavaleiros leais do inimigo. Antes, porém, enterra Excalibur numa rocha. O tempo passa, o reino continua sem um rei. Regularmente cavaleiros vindos das mais distantes regiões disputam em torneio pelo direito de tentar arrancar Excalibur da rocha. Porém, ninguém consegue tal feito. Durante um destes torneios, Arthur, o escudeiro de um cavaleiro, acaba retirando a espada do poder da rocha, sendo aclamado rei.
Quando isto ocorre, Merlim reaparece e revela que Arthur é filho do rei Uther. Nova divisão se opera. Alguns cavaleiros recusam-se a aceitar o escudeiro como rei e atacam o castelo daquele que fica do seu lado.
Segue-se rigorosa batalha, em que Arthur prova seu valor militar. A guerra termina quando Arthur ajoelha-se diante do líder inimigo e pede para que ele o consagre cavaleiro, entregando-lhe Excalibur.
Durante as comemorações pela paz, Arthur enamora-se por lady Guinevere, com quem acaba se casando. Segue-se um período de prosperidade no reino.
Atraído pela fama do cavaleiro Lancelot do Lago, Arthur bate-se com ele. Só o vence por que invoca os poderes de Excalibur, quando estava para ser derrotado. A espada se quebra, Arthur se arrepende e ela novamente ressurge inteira. Lancelot jura obediência a Arthur, mas enamora-se por Guinevere.
A prosperidade do reino é tamanha que Arthur controle uma Távola Redonda, onde ele e seus fiéis cavaleiros se reúnem para contar histórias sobre seus feitos memoráveis.
Morgana, primeira filha do inimigo de Uther, portanto, meia irmã de Arthur, encontra-se com Merlim, que resolve adestrá-la nas artes da magia. Valendo-se de seus dotes, ela convence um dos cavaleiros a lançar suspeitas no relacionamento entre Guinevere e Lancelot. Diante da acusação, o rei Arthur manda realizar um torneio para a descoberta da verdade.
Como Lancelot demora, um jovem escudeiro, Percival, se dispõe a defender a causa da rainha. Consagrado cavaleiro para tal façanha ele prepara-se para o combate. Pouco antes, Lancelot do Lago reaparece e combate o oponente derrotando-o e obrigando-o a retirar a acusação.
As relações entre Guinevere e Athur ficam abaladas. Aproveitando-se disso, Morgana utiliza um feitiço, e passando-se pela rainha, mantém relações íntimas Arthur. Engravida dele dando a luz a Mordred.
Arthur, acaba surpreendendo Guinevere nos braços de Lancelot. Enterra a espada do poder entre ambos e acarreta a desgraça do reino. Congelado por Morgana, Merlim já não pode ajudá-lo.
O reino decai, Arthur adoece e para recuperar a glória, pede aos seus cavaleiros para que encontrem o Santo Graal. Eles saem pelo mundo a procura do cálice sagrado. A maioria deles morre durante a jornada e depois de muito sofrimento, Percival acaba encontrando o Graal e retorna com ele para salvar o rei e o reino. Arthur serve-se do cálice sagrado e melhora, mas é um pouco tarde.
Mordred, seu filho bastardo e adulterino, cresceu e reivindica o poder. Arthur recusa-se a abandonar a realeza, procura Guinevere no convento onde ela recolheu-se e novamente recupera Excalibur, a espada que ela guardou durante todo aquele tempo.
Reabilitado, o filho de Lord Uther e seus poucos cavaleiros marcham para a guerra. Contudo, estão em inferioridade numérica. Arthur invoca a ajuda de Merlim e o mago reaparece, inutilizando a magia de Morgana e espalhando um denso nevoeiro. Durante a noite, quando o nevoeiro se espalha, Mordred procura o auxílio da mãe. Não a reconhece e a mata.
Inicia-se a batalha. Arthur e seus cavaleiros lutam bravamente. Durante o combate, Lancelot do Lago aparece para ajudá-los. O combate é sangrento e a vitória fica do lado do Rei, que no final bate-se pessoalmente com Mordred. Pai e filho matam-se mutuamente, Excalibur retorna ao lugar de onde veio e a história acaba iniciando-se um tempo em que os homens já não se submetem à magia do mundo.

II - ORIGENS DO PORTUGUÊS
Em 197 a.C., após derrubarem os Cartagineses, as Legiões Romanas permaneceram na Península Ibérica, dividindo-a em duas províncias: Hispânia Cisalpina e Hispânia Transalpina. A primeira compreendia o que hoje é a Espanha, a segunda correspondia a mais ou menos o território atual de Portugal.
Desde então e até o século V d.C., os Romanos permaneceram na região onde introduziram a sua cultura, língua e costumes. Os principais feitos da romanização foram a construção de estradas e de escolas onde o latim era ensinado.
Nos quase sete séculos que permaneceram na Hispânia, o poder de Roma só foi abalado em uma única oportunidade. Em 142 a.C., depois de infligirem diversas derrotas aos Romanos, os lusitanos, liderados por Viriato, celebraram um tratado com o Senado, através do qual era reconhecida a liberdade da Lusitânia. Porém, por ordem de Servilio Lipião, Viriato foi assassinado e em 133 a.C. a região foi definitivamente pacificada após a destruição do ultimo baluarte rebelde às margens do Rio Douro.
Naquela época existiam dois aspectos da língua latina. O latim clássico, escrito, era cultuado pelos patrícios, intelectuais e escritores na cidade de Roma. O latim vulgar, predominantemente oral, era a língua da plebe, dos habitantes das províncias. O latim introduzido na Península Ibérica foi o último, levado para lá pelos soldados, comerciantes e aventureiros que buscavam uma vida mais digna que a que teriam em Roma.
Em contato com os falares da região, o latim vulgar passou por transformações. Com as invasões bárbara (século V) e Árabe (século VIII), a língua destacou-se progressivamente do tronco de origem até chegar ao português que falamos na atualidade. A expansão marítima acabou fazendo com que a nova língua fosse introduzida na África, Ásia e América Latina, transformando-se num dos principais veículos de comunicação mundial após o século XV. O declínio de Portugal acarretou, entretanto, o desprestígio internacional do português.
III - A LÍNGUA PORTUGUESA E A ESPADA DO PODER
É uma tarefa difícil relacionar a história da língua portuguesa ao filme Excalibur. Afinal, a lenda do Rei Arthur originou-se em outra região e foi introduzida em Portugal pelas traduções das novelas de cavalaria, para o português a partir de 1400/1438. Todavia, há uma questão latente no filme que pode muito bem ser interpretada em termos lingüísticos. É o caso da linguagem de Merlim.
O mago é a personagem que impulsiona a trama retratada no filme. É ele que faz com que Excalibur chegue às mãos de Lord Uther, transformando-o em rei. A intervenção de Merlim é essencial para que Uther assuma a aparência do inimigo e possa dormir com a esposa dele. O filho de ambos fica em poder do mago e, posteriormente, acaba chegando ao trono ao retirar a espada do poder da rocha. É Merlim que aconselha Arthur durante o florescimento do seu reinado, adestra Morgana nas artes ocultas e reaparece ao final para derrotá-la a fim de que as tropas do rei possam combater as do seu pérfido filho Mordred.
Tudo isso só é possível porque Merlim é senhor de uma linguagem especial, através do qual é capaz de comunicar-se com as forças da natureza, conjurando-as a realizarem seus desejos. Todas as transformações operadas na narrativa dependem deste incomparável poder que Merlim acaba compartilhando com Morgana, sua inimiga.
Quando chegaram à Península Ibérica, os Romanos já eram senhores de uma arma privilegiada. Ao contrário dos povos conquistados (agráfos) eles dominavam a escrita, instrumento fundamental para manter a comunicação regular entre os comandantes das legiões estacionadas nas províncias ocupadas e a sede do Império. Assim, se a linguagem do mago permitia-lhe dominar as forças da natureza, a escrita permitiu aos Romanos dominar o mundo.
Contudo, o inevitável contato entre Romanos e os povos locais acabou possibilitando uma troca. O latim ganhou traços das línguas faladas na Península Ibérica e os súditos do império puderam, com o tempo, ter acesso à escrita. Primeiro do próprio latim, e mais tarde, da língua portuguesa que originou-se dele. O que ocorre entre Merlim e Morgana é algo parecido. Em pouco tempo ela aprende a linguagem privilegiada do mago e se torna tão poderosa quanto ele. Mas também não foi isso o que ocorreu com Portugal?
O primeiro documento escrito em língua portuguesa data de 1189 (cantiga da Ribeirinha de Paio Soares de Taveirós). O português encontra seu apogeu no século XV com Camões, época em que Portugal colonizou a África, a Ásia e o Brasil. Ou seja, em apenas quatro séculos de domínio da escrita, os portugueses repetem o feito dos romanos, construindo um verdadeiro império.
Todavia, a exemplo de Morgana, Portugal também estava fadado a sucumbir diante de Merlim. O mito de Arthur e seus cavaleiros adentrou na cultura portuguesa em 1400/1438. Poucos séculos depois, a Inglaterra supera Portugal, transformando-se em sua principal credora. O português, como principal língua civilizada nos continentes Africano e Asiático não é vencido pelo inimigo externo, mas pela incapacidade dos filhos de Portugal, como Mordred, de reconhecerem a própria mãe, no caso a necessidade de independência político econômica de Portugal. Contudo, a vitória de Merlim não é completa, pois já não há mais espaço para a magia num mundo em que todas as culturas dominam o princípio civilizatório, a escrita.
No final do filme, Merlim se retira e cabe agora aos homens a direção de seu próprio destino. E não foi isso que aconteceu à medida que a escrita universalizou-se? Ainda que existam nações poderosas, nenhuma delas é poderosa o bastante para submeter completamente a outra. E isto ocorre por que quase todos, senão todos, dominam esta poderosa arma que distinguiu o homem da natureza, conferindo-lhe a história.
Enfim, universalização da escrita obriga a espada do poder a retornar para as profundezas do lago. E por isso, apesar do declínio de Portugal e do desprestígio internacional de sua língua, ainda podemos refletir sobre estas questões através do português, felizmente.

IV - BIBLIOGRAFIA
1) Excalibur - filme
2) História da Civilização, A.G. Matoso, 3ª edição, Livraria Sá da Costa, Lisboa, 1947.
3) História da Língua Portuguesa, Livro Técnico, 7ª edição, Rio de Janeiro.
4) A literatura portuguesa em perspectiva, Lênia M. de Medeiros Margelli, Maria do Carmo T. Maleva e Yara F. Vieira, volume I, Atlas, São Paulo, 1992.

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