REVISTA CRIAÇÃO
FALCÃO NEGRO EM PERIGO

A primeira impressão que temos é que FALCÃO NEGRO EM PERIGO não passa de um faroeste moderno. Rangers e Deltas seriam a versão atualizada da 7ª Cavalaria. Os cavalos, colts 45 e winchesters teriam sido substituídos por metralhadoras, fuzis e carros de combate de última geração, mas a lógica do combate desigual continuaria orientando os filmes de ação americanos. Os negros de Mogadício parecem se comportar exatamente como os índios do velho oeste, que insistiam em barrar o avanço da civilização anglo-americana em nome da preservação da barbárie. Como num faroeste dos anos 50, os soldados americanos combinam iniciativa individual e disciplina militar para derrotar bárbaros semi-civilizados que atiram mal e se expõe a riscos desnecessários.

É claro que FALCÃO NEGRO pretende ser mais que um moderno faroeste. Na medida que tenta retratar fielmente os combates ocorridos na capital da Somália em 1993, o filme pretende ser histórico. Quase um documentário da realidade. O problema é que mutila a história na medida em que não traz qualquer informação sobre a gênese do conflito que mergulho Mogadício em sangue. A velocidade da ação e a tensão provocada pelos combates de rua obscurecem a inteligência do espectador. Só depois de sair do cinema é que temos condições de perguntar:- como todas aquelas metralhadoras, fuzis e lança mísseis portáteis chegaram à Somália?

Um traficante de armas, Mr. Atto, é preso. No diálogo que se segue, o general americano não pergunta-lhe quem são seus fornecedores. O Diretor evita o embaraço de explicar o fato de que boa parte do equipamento utilizado pelos milicianos somalis era “made in USA”. O general mostra-se especialmente preocupado com o genocídio que está ocorrendo na Somália. Este fato, que funciona como motivação para a intervenção americana, predispõe o espectador a solidarizar-se com os Deltas e Rangers. Entretanto, nunca é demais lembrar que genocídios aconteceram em todas as Guerras Civis. Na americana, que ocorreu no século XIX, morreram aproximadamente 620.000 pessoas (mais que o dobro das vítimas na Somália até 1993). E nem nos isto os EUA foram invadidos pelo exército de qualquer outro país.

As baixas americanas nos combates de rua em Mogadício foram insignificantes se comparadas à dos milicianos somalis. Apesar ou exatamente por causa disto os soldados americanos são retratados como civilizados. Os negros, como os índios dos antigos faroestes, morreram como “moscas” e além disto foram condenados ao esquecimento. Apenas os nomes dos 19 americanos mortos nos combates são mencionados no final do filme. FALCÃO NEGRO mutila a memória dos mais de 1000 somalis abatidos em Mogadício. Eles não têm qualquer direito aos créditos. Apesar de estarem combatendo em seu próprio solo natal foram retratados como vilões e, portanto, não tem história passível de ser filmada.

A única virtude de FALCÃO NEGRO é reproduzir com realismo um CBI (Conflito de Baixa Intensidade). De mostrar que a guerra moderna é qualitativamente diferente dos conflitos da primeira metade do século XX.

Na Somália não foram utilizadas divisões de infantaria, artilharia pesada, nem bombardeios de saturação. O pelotão que entrou em ação era reduzido, composto de homens treinados em múltiplas habilidades e apoiado unicamente por tanques leves e helicópteros. A superioridade tecnológica aliada à inferioridade numérica produziu o resultado desejado:- desequilíbrio de poder entre as facções empenhadas no controle do país. A superioridade numérica dos milicianos somalis, que segundo Clausewitz poderia dar-lhes a vitória, foi anulada. O conflito em Mogadício seguiu a lógica dos manuais militares preparados após o fim da Guerra Fria. Em seu “A Guerra do Futuro”, Bevim Alexander, eminente historiador militar americano, defende justamente a tese de que nos CBIs o US Army deve combinar a superioridade tecnológica com táticas de guerrilha.

Assim, apesar da retórica de FALCÃO NEGRO devemos desconfiar das benevolentes intenções humanitárias dos EUA para intervir na Somália em 1993. Afinal, os americanos tiveram em Mogadício uma excelente oportunidade para adestrar suas tropas e verificar o desempenho de seus modernos equipamentos a fim de se preparar para outros CBIs. Se prestar atenção ao filme, o cinéfilo perceberá que o Diretor conseguiu mostrar como os africanos conseguiram praticamente anular a superioridade tecnológica americana com medidas simples. Fazendo barricadas e ateando fogo a pneus velhos, os milicianos somalis obrigaram os tanques a ficarem rodando pela cidade sob uma tempestade de balas. Nada mal para uma milícia desorganizada...

O filme trata de um episódio da Guerra Civil na Somália. A facção liderada por Mohamed Aidid é apresentada como cruel o bastante para roubar alimentos e atirar indiscriminadamente contra a população faminta. Apesar disto, a imagem do caminhão de alimentos desprotegido diz mais que o diálogo entre o piloto do helicóptero e seu comandante. O helicóptero não interfere porque não foi atacado. Contudo, a população é atacada justamente porque foi atraída por um caminhão de alimentos sem escolta.

Note-se que o filme apresenta apenas a facção combatida pelos americanos. Onde, entretanto, estão os milicianos da facção apoiada pelo US Army?

É evidente que numa Guerra Civil ambos os lados cometem excessos. Na Guerra Civil Americana o Norte estrangulou o abastecimento de alimentos do Sul, que por sua vez armou embarcações para afundar os navios mercantes nortistas. Resultado:- toda população civil americana foi obrigada a sentir os efeitos da guerra.

Como não apresenta nenhum fato relacionado à facção apoiada pelos americanos, FALÇÃO NEGRO mutila cinematograficamente a Guerra Civil na Somália. Nesse sentido, o filme atende aos princípios do Departamento de Estado Americano segundo o qual “nossos aliados são sempre bons porque suas más ações são esquecidas ou escondidas do público.” É justamente em razão disto que somos levados a aceitar como necessária a intervenção americana na Somália em 1993 e a concordar com a ética do faroeste aplicada pelo Governo Clinton “não importa quantos negros morreram, o resultado foi bom.”

Apesar de tudo FALCÃO NEGRO vale o ingresso. As cenas dos combates de rua são magníficas. O espectador sente-se dentro do combate e não no cinema.

Nunca é demais lembrar que a Guerra Civil na Somália não terminou com a intervenção dos EUA. Que o US Army se retirou da região porque a opinião pública americana exigiu o fim da intervenção depois de tomar conhecimento dos combates em Mogadício. E que a Somália deixou de ser o foco das atenções da mídia porque o “show americano na região” terminou em 1993.


Fábio de Oliveira Ribeiro


JOHN KEEGAN, Uma História da Guerra, Bibliex, 1993.
BEVIN ALEXANDER, A Guerra do Futuro, Bibliex, 1995.

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