FARC
E ALIANÇA DO NORTE
Para derrubar
o Talibã, que havia quase extinto a produção
de ópio no Afeganistão, os EUA se apoiaram na Aliança
do Norte. Apesar de ter sido apresentada ao mundo como uma legítima
expressão da modernidade naquele país, a referida Aliança
do Norte é composta por mercenários comandados por senhores
da guerra que lucravam com a produção e o comércio
de ópio.
Os americanos venceram a Guerra do Afeganistão. Os fervorosos
Talibãs foram vencidos e depostos. O resultado foi catastrófico:
a produção e comércio de ópio no Afeganistão
têm crescido assustadoramente desde então. Em conseqüência
houve um aumento significativo do uso desta droga na Europa e nos
EUA.
A guerrilha colombiana é sustentada pela tributação
dos produtores e comerciantes de cocaína colombianos. Está,
portanto, no mesmo ramo de atividade que a Aliança do Norte
afegã. Curiosamente, as FARC não recebem o mesmo tratamento
que a Aliança do Norte.
Enquanto os narcoguerrilheiros afegãos foram e ainda são
tratados a pão-de-ló pelos militares americanos, o governo
dos EUA insiste em considerar as FARC um grupo terrorista. Como recebe
ajuda econômica e militar dos EUA, a Colômbia de Uribe
não pode e não quer tratar os milicianos das FARC como
insurgentes. Portanto, não há solução
política para a controvérsia colombiana.
Que diferença há entre o ópio da Aliança
do Norte e a cocaína das FARC? Nenhuma! Ambas as substâncias
são alucinógenas, as duas viciam e causam danos aos
usuários. A produção e comercialização
de cocaína e de ópio sustentam verdadeiros exércitos
privados no Terceiro Mundo e imensas redes de corrupção
na Europa e nos EUA. Apesar destas semelhanças, os americanos
tratam a Aliança do Norte como aliada política e as
FARC como criminosas.
No Afeganistão os americanos construíam uma solução
militar politicamente incorreta: os traficantes foram colocados no
poder para atender aos interesses da Casa Branca. Na Colômbia
o governo dos EUA provoca a preservação do impasse político:
os guerrilheiros não podem fazer acordos com o governo porque
são considerados criminosos.
Suponhamos que as FARC sejam militarmente destruídas com a
ajuda dos EUA. A vitória não resolverá o problema
mundial das drogas. Apenas e tão somente aumentará o
potencial de mercado do ópio afegão produzido e comercializado
com a ajuda do próprio Tio Sam. Afinal, me parece que os viciados
em cocaína não ficarão sem se drogar em razão
da ausência da droga. Havendo possibilidade eles farão
um recall, ou seja, passarão a usar ópio e ficarão
numa boa (numa pior, para falar a verdade).
Enquanto os gringos insistirem nesta política estupidamente
ambígua e contraditória em relação aos
seus aliados e inimigos não serão criadas as condições
para solucionar o impasse na Colômbia. Não podemos apoiar
as FARC, mas também não devemos endossar a política
americana para a Colômbia considerando as ações
dos EUA no Afeganistão.
Pessoalmente, cheguei à conclusão que a narcoguerrilha
colombiana não tem nada de socialista. Ao contrário.
Pelo pouco que já estudei acho que se estivessem vivos humanistas
como Marx, Engels, Rosa de Luxemburgo e outros teóricos do
socialismo certamente não admitiriam ser aliados dos líderes
das FARC à custa do sofrimento dos operários que se
viciam em cocaína ou vêm seus filhos viciados ou mortos
por traficantes.
Fábio de Oliveira Ribeiro