REVISTA CRIAÇÃO

FAUSTO:- REALIDADE OU FANTASIA


No artigo publicado na Folha de São Paulo do dia 22/08/99, Hélio Schwartsman dá um panorama sobre o mito de Fausto. Alerta-nos sobre a existência do homem que o inspirou (Jörg Faustus) e dá a entender que os primeiros a ficcionalizá-lo, a transformá-lo em uma personagem foram os cléricos protestantes que acusaram-no de “vagabundo”, “falastrão”, “patife” e “louco”. Haveria, ainda, segundo Ian Watt, um Fausto mais jovem, que teria vivido no século V acusado de heresia que se indispôs com Santo Agostinho.

Segundo Schwartsmam o primeiro a associar Faustus ou Fausto a satã foi Lutero (Conversas à Mesa). Todavia, o mais importante texto que refere-se às peripécias do mago é o Faustbuch, de autor anônimo. Este data do século XVI e é o primeiro a desvincular a personagem do homem Jörg Faustus e a mencionar o contrato através do qual Fausto vendeu sua alma ao diabo.

Após o surgimento da imprensa, o Faustbuch foi reeditado várias vezes sendo utilizado como fonte de inspiração por Chistopher Marlowe em 1592. Diferentemente da personagem do Faustbuch, o Fausto criado pelo dramaturgo que rivalizava com Shakespeare é capaz de cativar o público. Apesar disto, somente com Goethe Fausto adquiriria uma maior profundidade literária e o direito de ser salvo de seu pecado de desejar o conhecimento. Depois de Goethe, Thomas Mann (Docktor Faustus) e Klaus Mann (Mephisto) também dariam sua contribuição à construção desta personagem comparável à D. Quixote, D. Juam e Robinson Crusoé.

Estas são, em síntese, as questões levantadas por Schwartsman em seu artigo. Além delas, cremos que outras merecem ser feitas sobre o tema.

A primeira é que Fausto não pode ser considerado propriamente como um “mito”. Afinal, de alguma maneira todos as personagens mitológicas que conhecemos fizeram parte de religiões que tiveram adeptos no passado. Zeus é para nós um personagem mitológico, mas para um grego do século IV aC ele era o que Deus, Jeová e Alá são hoje respectivamente para cristãos, judeus e muçulmanos. Assim, definir Fausto como um “mito” é um problema. Afinal, pelo que se sabe ele nunca fez parte de um sistema religioso, nunca foi objeto de culto no passado.

Além de terem feito parte de sistemas religiosos que tiveram vida no passado, os “mitos” traduzem ou procuram traduzir os elementos mais profundos enraizados na consciência humana. É assim que fornecem um repositório de paradigmas para a interpretação da conduta humana. Para ser mais claro, o comportamento humano pode ser traduzido, interpretado em termos mitológicos. Esse, por exemplo, foi o caminho percorrido por Freud para estruturar sua teoria do complexo de Édipo, personagem trágico que, como sabe-se, resume o desejo do filho pela mãe e o ódio inconsciente pelo pai. É nesse sentido que Fausto poderia ser entendido como um mito, uma vez que também traduz um traço fundamental da personalidade humana, que é o desejo do conhecimento e do poder que dele advém.

Porém, até mesmo nesse sentido definir Fausto como um mito é um problema. Como frisou Schwartsmam, há evidências de que o Fausto imortalizado na literatura por Christopher Marlowe, Johann Wolfgang von Goethe, Tomas Mann e seu filho Klaus Mann, existiu realmente. Teria vivido no século V e chamado-se Jörg ou Johanes Faustus. O Fausto de carne e osso teria sido um astrólogo e nigromante que gostava de impressionar as pessoas e de desfrutar os prazeres da mesa e da cama. Como já foi dito, o primeiro a associá-lo a satã (entidade demoniaca da tradição cristã) foi Lutero em sua obra “Conversas à Mesa”. Com o tempo o homem acabou sendo ofuscado pela sua imagem. Assim, o mito do sábio que celebra um pacto com o demônio encontra suas raízes na realidade ao contrário de Édipo, que não foi rei de Tebas e talvez nunca tenha existido a não ser no imaginário de seu criador.

Realidade e ficção se interpenetraram para dar vida a esta personagem ambígua. Fausto situa-se nos limites entre a mitologia e a história, talvez seja esta a razão do poema de Goethe ter se transformado num clássico. Além disso, deve-se ressaltar que Fausto encontrou um solo fértil a partir do Iluminismo. Desde então, o conhecimento é muito valorizado, o que não ocorria na época em que o Jörg Faustus vagou pela Europa. Assim, foi o fim da Idade Média que abriu caminho para que Fausto fosse transformado num verdadeiro mito.

De certa maneira, o homem moderno também realiza a mesma trajetória que Fausto, também faz o seu pacto com secreto com Mephistófeles. Persegue avidamente o conhecimento para a partir dele desfrutar os prazeres da vida. Não é isto que estamos fazendo neste exato momento? Hoje mais do que nunca o homem é literalmente empurrado nesta direção. Nada é capaz de o deter, nem mesmo os freios religiosos. Originalmente judaísmo, cristianismo e até mesmo o islamismo partilham da mesma posição em relação ao conhecimento, encarado como a fonte de todo mal. A expulsão de Adão e Eva do paraíso ilustra bem esta questão. Contudo, na atualidade estes três grandes sistemas religiosos são obrigados a tolerar a ciência e o desejo de conhecê-la.

Em razão da tradição judaica e cristã podemos dizer que o mito de Fausto é como que uma atualização, uma modernização de crenças muito anteriores ao século XV e mesmo ao século V de nossa era. Crenças que encontram-se retratadas de maneira muito original na Tora ou Velho Testamento.

A exemplo de Adão, Fausto obtém o conhecimento e o prazer, mas acaba sendo obrigado a vagar pelo mundo. Adão é condenado a trabalhar para seu próprio sustento e Fausto a acompanhar Mephistófeles. Portanto, de certa maneira ambos foram expulsos do paraíso, se entendermos este como um estado inicial, primitivo, em que não havia nem prazer, nem dor. Não parece ser acidental a coincidência de que o primeiro conhecimento adquirido pelos dois curiosos é relacionado ao prazer. Adão copula com Eva e, na versão de Goethe, a primeira coisa que Fausto descobre depois do pacto celebrado com Mephistófeles é o prazer sexual com Margarida.

Em Goethe o mito encontra sua versão mais acabada e genial. A chave para entendê-lo está logo no início do poema, onde Deus dialoga com Mephistófeles. A entidade diabólica pede a Deus a permissão para tentar o cientista obtendo-a com a restrição de que não poderá ficar com sua alma. Mephistófeles aceita a condição e retruca que a ele como ao gato só interessa o rato enquanto estiver vivo. Assim, temos na verdade dois contratos, um entre Deus e Mephistófeles e outro entre este e Fausto. Mas, Fausto não tem conhecimento do primeiro e sua ignorância é que o faz acreditar que sua alma pertence ao companheiro de jornada. A sua maneira, Goethe mantém a tradição religiosa mas escapa à solução maniqueista, conferindo maior colorido e valor ao mito. Enfim Fausto reencarna Adão, mas não é nem poderia ser condenado à perdição em virtude de perseguir o conhecimento.

A esta altura não posso deixar de notar que, ao dedicar-se a registrar sua versão sobre o mito de Fausto, Goethe deu a ele algo de sua própria educação clássica. Com efeito, pode-se estabelecer um paralelo entre a trajetória de sua personagem e a do filosofo Sócrates, que viveu no século IV aC. Todos os discípulos que escreveram sobre o ateniense, referem-se ao fato de que ele admitia que falava com sua entidade protetora, com seu daímom (vocábulo grego traduzido como sendo equivalente a “demônio”). No dia de sua execução, ao invés de ficar aterrorizado como seus pupilos, o filósofo dedicou-se a aprender uma nova música. Como vê-se, o grego e o personagem de Goethe entram em contato com seres supranaturais e perseguem o conhecimento. A identidade entre ambos não parece ser meramente casual.

Para finalizar, gostaria apenas de fazer uma observação. Como mencionado no texto de Márcio Suzuki publicado na Folha de São Paulo do dia 22/08/99, Goethe “... conta que várias vezes acordara à noite dizendo em voz alta alguma canção que lhe vinha como que espontaneamente ao espírito, que irrompia sem manda aviso.” Além de dedicar-se à literatura, Goethe também dedicou-se à ciência. É autor da “A Doutrina das Cores”, obra em que expõe o resultado de suas pesquisas e estudos acerca de fisiologia, física e química para tratar do fenômeno das cores.

Em “A Doutrina das Cores” Goethe rivaliza nada mais nada menos com um intelectual da envergadura de sir Issac Newton. Em virtude disto tudo não pode-se deixar de considerar a semelhança existente entre a personagem (Fausto) e seu autor (Goethe). Afinal, Goethe também perseguia o conhecimento e as canções que irrompiam durante a noite registradas por ele bem que poderiam ser sopradas em seu ouvido pelo próprio Mephistófeles. De qualquer maneira o importante é que neste como em outros casos a vida imita a arte.

Fábio de Oliveira Ribeiro

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