REVISTA CRIAÇÃO
FILMES E GUERRAS

A crescente militarização dos EUA depois dos incidentes de 11/09/2001 tem gerado um debate intenso em torno dos destinos da democracia americana. Debate este que já se faz sentir no cinema. O cinéfilo já percebeu a avalanche de filmes tratando de temas militares que tem sido lançados nos últimos meses? "A guerra de Hart" e "Crimes em primeiro grau" se inserem perfeitamente neste contexto. Apesar da ambientados em contextos históricos diferentes (II Guerra Mundial e início do século XXI), os dois filmes tratam do mesmo assunto:- lealdade e deslealdade militar.

Em "A guerra de Hart" o protagonista envolve todos os prisioneiros numa encenação para desviar a atenção dos alemães. Até aqueles que não sabem do seu plano de fuga aceitam-no pacificamente quando descobrem o real objetivo da Corte Marcial e seus possíveis desdobramentos (fuzilamento do condenado e/ou dos participantes do engodo). Qualquer sacrifício é válido para impor ao inimigo uma derrota (a destruição da fábrica de bombas). Após a fuga e o sucesso no ataque à fábrica, Hart retorna ao campo e negocia a absolvição dos seus subordinados em troca da própria vida e acaba sendo executado pelo comandante do Campo de Prisioneiros de Guerra.

Em "Crimes em primeiro grau" a trama é mais sutil e vai se desdobrando num verdadeiro jogo de escolhas, que envolve lealdade e deslealdade. Passível de ser condenado, um fuzileiro naval ganha uma nova identidade e acaba acidentalmente descoberto pelo FBI. Sua esposa, uma advogada conceituada, mesmo tendo sido enganada resolve defendê-lo. Apesar dele ter mantido sua real identidade em segredo ela acredita na sinceridade de seu amor. Aprisionado, o fuzileiro tem que ser condenado para encobrir a morte de três jovens americanos num atentado feito por seu superior a mando de um oficial que atualmente é general e goza de prestígio. Tudo leva a crer que ele não assassinou aqueles nove inocentes em El Salvador. Quando a sujeira começa a chegar no general ele determina a liberação do prisioneiro encerrando o caso. Entretanto, o sócio da sua esposa descobriu que o marido dela matou uma das testemunhas do massacre. O fuzileiro admite que matou as nove pessoas em El Salvador e as testemunhas que iriam acusa-lo e tenta mata-la, mas acaba sendo morto por um dos sobreviventes do massacre. Em "A guerra de Hart" a lealdade entre os militares diante do inimigo é valorizada ao máximo. Quando se está em guerra até mesmo as pequenas deslealdades entre companheiros de caserna é justificável para possibilitar uma derrota ao inimigo.

Em "Crimes em primeiro grau" a lealdade entre militares diante dos imperativos éticos da democracia americana é questionada. Os militares não têm o direito de enganar a opinião pública, mas acabam fazendo isto e prejudicando a vida de civis inocentes.

A mensagem do primeiro filme não é contrariada totalmente pela do segundo.Afinal, a democracia americana é capaz de acomodar os problemas decorrentes da deslealdade dos militares para com os civis (muito embora os responsáveis pela morte dos três americanos no atentado em El Salvador continuem impunes). Os dois filmes parecem indicar que a lealdade militar é indispensável, confere honra e, muito embora seja questionável, é um valor que justifica até mesmo os pequenos contratempos (pois a segurança nacional deve ser preservada). Resumindo, quem assistir estes dois filmes não estranhará as conseqüências das novas campanhas militares americanas no Oriente Médio. Filmes como "A guerra de Hart" e "Crimes em primeiro grau" estão se encarregando de difundir no Ocidente as condições necessárias para aceitação das maiores atrocidades militares. Afinal, como já declarou Bush, os EUA estão em guerra. E nas guerras (mais do que nos filmes) todos têm se sacrificar ou serão sacrificados.


Fábio de Oliveira Ribeiro

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