REVISTA CRIAÇÃO

NÓS FOMOS HERÓIS

“We where soldiers” é um dos melhores filmes de guerra lançados na atualidade. Isto não se deve às cenas de batalha realistas e bem estruturadas. Mas à sua capacidade de desestruturar a estética cinematográfica tradicional.

O filme não tem cenas de heroísmo, apenas seqüências que procuram registrar o que é um conflito entre exércitos com propósitos diferentes. Os vietnamitas lutam pela preservação de sua independência, os americanos proteger uns aos outros com ineficiência. Nesse contexto, os EUA poderiam vencer batalhas más não ganhariam a guerra, ainda mais quando submetidos às baixas causadas pelo “fogo amigo”.

O filme é um tributo tardio à superioridade da estratégica dos vietnamitas. Agarrado pela cintura o USArmy não conseguiu fazer valer sua superioridade aérea e tecnológica. Isto aliado à superioridade numérica deu ao Vietnam a vitória.

É claro que em “Nós fomos heróis” os americanos levam a melhor. Mas sua vitória é tão inútil quanto á de Pirro. Quando o protagonista americano se retira do campo de batalha, os vietnamitas ainda estão lá. O comandante inimigo é o último homem a sair do local do conflito, portanto, é o verdadeiro vitorioso porque manteve a posse do terreno.

A tática adotada pelo general Westmoreland é criticada de maneira mordaz e inteligente. Afinal, de que adiantava contar os corpos dos inimigos se para cada soldado vietnamita abatido pelo menos dois outros homens estariam dispostos a morrer por seu país?

A dor causada pela guerra é instantânea. E repercute imediatamente nos lares em que as famílias foram desfeitas. A película mostra isto de maneira clara. Os roteiristas e produtores tiveram honestidade para, propositalmente, lembrar o expectador americano que a guerra é generosa o bastante. Ela distribui sofrimento entre todos os envolvidos. Inclusive entre os inimigos, que também têm suas famílias que choram seus mortos.

Ao sugerir a pergunta “Qual o propósito da guerra do Vietnam?”, “We where soldiers” coloca em xeque a cultura militar americana no exato momento em que os EUA estão prestes a declarar uma nova guerra ao Iraque. É justamente por isto que o filme é importante e bem vindo.

Sugiro ao espectador que faça o seguinte teste. Assista a “Nós fomos heróis” e depois responda a seguinte questão:- “Há realmente necessidade de deslocar 350.000 americanos para morrer num país distante onde a população apóia seu governante e certamente lutará para preservar sua independência e cultura?” Caso sua resposta seja “sim”, parabéns você merece assistir o filme novamente. Se for “não” assista assim mesmo, porque um bom filme fica melhor ainda quando o assistimos pela segunda vez. Boa diversão.

Fábio de Oliveira Ribeiro

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