|
A FUNÇÃO SOCIAL DA GUERRA NA SOCIEDADE ISRAELENSE Apesar da lenga-lenga diplomática o conflito no Líbano tende a se ampliar e se tornar uma guerra de atrito sem fim. Explico. Ao atacar a milícia árabe os israelenses sabiam exatamente o que poderiam esperar: a reação negativa da opinião pública mundial, o fortalecimento político do líder da milícia, o aumento do estímulo ao recrutamento de novos milicianos entre os parentes das vítimas das bombas israelenses e, principalmente, o aumento de apoio militar e financeiro dos inimigos declarados de Israel. É impossível, portanto, deixar de perguntar por que o comando militar israelense decidiu bulir no vespeiro se somente atiçaria as vespas ampliando as possibilidades do conflito no sul do Líbano se tornar permanente? Talvez eles quisessem exatamente isto. Em sua obra O IMPÉRIO AMERICANO HEGEMONIA OU SOBREVIVÊNCIA, Noam Chomsky afirma que a “... autoridade dos militares israelenses alcançara níveis tais que o correspondente militar Ben Kaspit descreveu Israel não como “um país com um Exército, mas um Exército com um país”. J. K. GALBRAITH em sua obra A PAZ INDESEJÁVEL? RELATÓRIO SOBRE A UTILIDADE DAS GUERRAS, defende a tese de que se “...e não houvesse mais guerra, o Estado e a organização social tenderiam a desaparecer.” E mais, que a “...guerra é a força principal que estrutura as sociedades.” Não conheço Israel e o pouco que sei sobre o conflito decorre de fontes jornalísticas, bem como de websites diversos (inclusive árabes). O único livro que li sobre os aspectos culturais do conflito foi CULTURA E IMPERIALISMO (Edward W. Said). Também tive acesso aos livros recentes de Noan Chomsky, mas eles abordam a questão israelense sob o ponto de vista das relações diplomáticas e militares entre Israel e os EUA, cuja política externa é o foco principal de PODER E TERRORISMO e O IMPÉRIO AMERICANO HEGEMONIA OU SOBREVIVÊNCIA.. A obra O BELO FUTURO DA GUERRA, de Philippe Delmas, ajudamos a compreender o fenômeno militar após o fim da guerra-fria, mas não trata especificamente dos conflitos no Oriente Médio. De qualquer maneira mão podemos deixar de notar que as palavras de Galbraith ecoam na tese de mestrado de Florestan Fernandes, que pesquisou à fundo a FUNÇÃO SOCIAL DA GUERRA NA SOCIEDADE TUPINANBÁ. Em razão dos incidentes no Oriente Médio ficamos tentados a avaliar “a função social da guerra na sociedade israelense”. A escalada do conflito reforça o poder dos militares que desencadearam a campanha. Os negócios referentes ao abastecimento das tropas e aquisição de material bélico para a intensificação ou preservação das operações militares no sul do Líbano certamente proporcionará gordas comissões para os defensores da guerra. Não bastasse isto, a população israelense, amedrontada em razão dos foguetes que explodem em suas cidades certamente não fará nada para evitar o pior, ou seja, a transformação deste conflito numa guerra de atrito permanente. A guerra é parte da história israelense. Israel perdeu sua independência quatro vezes através da guerra (para os babilônios, egípcios, assírios e romanos). Espalhados pelo mundo os judeus sempre foram vítimas do anti-semitismo. Sofreram as conseqüências do nazismo nos campos de concentração. É natural que os israelenses tenham medo de perder sua independência. Também é natural que estejam dispostos à guerra para preservar sua autonomia. O que não é natural, entretanto, é o atual grau de militarização da política externa israelense. A insegurança gerada pela milícia árabe poderia ser resolvida através de uma força de paz antes do ataque ao sul do Líbano? Mas esta solução não foi nem cogitada nem apoiada pelos israelenses. Preferiram a guerra, uma guerra unilateral que traz conseqüências importantes para a própria sociedade israelense. Quase todos os presidentes israelenses na última década foram militares. Isto nos leva a questionar quem financia as eleições israelenses e com que interesses? E mais, quem serão os novos parlamentares e primeiros ministros de Israel? Serão os condutores desta ofensiva militar? Escolher a guerra como uma forma de estruturação social é uma bela maneira de colocar em risco a existência de toda a sociedade. A história está cheia de exemplos de catástrofes sociais provocadas por sociedades guerreiras aos seus próprios cidadãos. Mas parece que isto não preocupa em especial os líderes militares e políticos israelenses. Tudo indica que eles confiam demais no apoio americano? Confiam demais ou são apenas peças numa engrenagem política, econômica e militar que se articula desde os gabinetes dos mercadores da morte americanos, dos fabricantes dos foguetes que estão sendo disparados pelos aviões israelenses?
|