REVISTA CRIAÇÃO
 

HOMEM DE FERRO (e sem ética)

Abaixo selecionei algumas críticas representativas que foram feitas acerca do filme.

http://g1.globo.com/Noticias/Cinema/0,,MUL449387-7086,00-CRITICA+DOWNEY+JR+DA+CEREBRO+E+CORACAO+AO+HOMEM+DE+FERRO.html

http://diario.iol.pt/cinema/homem-de-ferro-iron-man-robert-downey-jr-bilheteira-eua-iol-cinema/947988-4059.html

http://www.omelete.com.br/cine/100012376/Cinema__Estreias_da_Semana__30_4_.aspx

http://cinemacomrapadura.com.br/filmes/2480/homem_de_ferro_(iron_man_2008)

Não é preciso ser muito perspicaz para perceber que os textos selecionados têm algo em comum o fato de serem peças de propaganda da obra. Penso que há uma diferença entre crítica de cinema e publicidade. Segundo Ande Bazin a função do crítico é:

“atuar como mediadores entre a obra cinematográfica e o espectador comum, oferecendo um modelo de leitura da primeira e sublinhando os eventuais valores poéticos nela presentes. Refiro-me aos críticos que atuam em jornais e revistas ou que escrevem em suplementos culturais cujo público alvo não se restringe ao meio acadêmico. A função daqueles que escrevem sobre cinema é ajudar – e não complicar – ao leitor a percorrer o itinerário do filme com um mínimo de conhecimento lingüístico – de modo a permitir que se reconheça, durante o trajeto, aquilo que é importante e o que não o é. Uma função, portanto, que, mesmo antes de se reportar à apreciação estética da obra considerada no seu conjunto, incide sobre a sua sucessiva racionalização, quer dizer, a tradução em termos lógico-discursivos do sentido poético que ela exprime através dos procedimentos de significação que lhe são próprios.” (http://www.coisadecinema.com.br/matArtigos.asp?mat=1733)

Tendo em conta as palavras de Bazin, procurarei fazer aquilo que os críticos não fizeram.

HOMEM DE FERRO parece um panfleto contra o militarismo e o comércio de armas, mas funciona exatamente como seu oposto. Neste como em muitos outros filmes os militares norte-americanos são apresentados como profissionais sérios, comprometidos unicamente com os direitos humanos e a democracia. Estão no Afeganistão não por razões imperiais, mas para combater terroristas ferozes que querem dominar a Ásia.

O herói é um fabricante de armas bem sucedido que acaba nas mãos de terroristas. Quando descobre que os produtos de sua empresa estão sendo utilizados pelos bandidos, com a ajuda de um colega de cativeiro, percebe que tem a obrigação de fazer algo. Tony Stark engana os terroristas, fabrica uma armadura, foge e quando chega em casa aperfeiçoa sua nova invenção. Após avisar a imprensa que pretende parar de fabricar armas, usa sua nova armadura para ir novamente ao Afeganistão e destruir os produtos que, sem saber, fabricou para os terroristas.

Mas a ética do herói é distorcida. Em nenhum momento o "homem de ferro" cogita dar o mesmo tratamento às armas que construiu e vendeu para ao Exército dos EUA e que permitiram a ocupação imperial do Afeganistão.

A ética é um ramo da filosofia que trata dos valores, que podem ser considerados individualmente, socialmente e hierarquicamente. Uma das características da ética é sua superioridade em relação a moral. As distinções morais não têm lugar nas cogitações éticas. Assim, a conduta do personagem Tony Stark, que escolhe destruir as armas em posse dos terroristas e não as que estão com os militares norte-americanos pode até ser considerada moral (tendo em conta uma moralidade norte-americana), mas sem dúvida é anti-ética. Ao considerar a fabricação, venda e posse de armas um mal, para ser ético o herói deveria se empenhar na destruição de todas as armas (independente de quem as tivesse).

Outra coisa singular no filme é a silenciosa linguagem do império que está presente no seu roteiro. Na dinâmica cinematográfica de HOMEM DE FERRO não existe espaço para coisas como "autodeterminação afegã" ou "respeito á soberania daquele outro país". O direito dos EUA de entrar e permanecer no Afeganistão não é questionado. O Afeganistão é apenas um palco para as ações militares e heróicas norte-americanas.

A cada lançamento fica mais evidente que a indústria cinematográfica norte-americana pode ser considerada, também, uma eloqüente mensageira do império. É notável como os filmes estão se transformando em peças de propaganda da predominância e da proeminência militar dos EUA. HOMEM DE FERRO não foge à esta regra.


Agora cedo a palavra os críticos/publicitários cinematográficos.




Fábio de Oliveira Ribeiro

OS: Este texto havia sido publicado no OI, onde recebeu diversos comentários destrutivos. Mas um dos comentadores fez a seguinte observação que reproduzo em razão de seu conteúdo:

Marcelo Ramos , São Paulo-SP - Publicitario
Enviado em 9/5/2008 às 10:00:50 AM

Que pena as "análises acadêmicas" sobre o artigo. Em um universo ideal, falar sobre linguagem cinematográfica fumando um charuto e tomando um whiski seria ótimo. Não que o artigo diga algo novo. Faz tempo, aliás, muito tempo, que Hollywood faz propaganda. Aliás, não é exatamente propaganda. Se você faz um filme independente ou com orçamento próprio, é fácil, você manda no roteiro, no diretor, etc. Mas quando entra na área das grandes produções que envolvam a imagem dos USA, realmente os interesses de Estado interferem. Vocês aqui, que criticam o artigo, sabiam que o cinema e DVD são assuntos tratados diretamente pelo Departamento de Estado Norte-Americano? Os filmes que são "exportados" de lá pra cá pelas grandes distribuidoras são feitos por "venda casada". O que é isso? Compra-se um filme A (não do ponto de vista cinematográfico) e leva-se 10 filmes C - por filme entenda-se panfletos de propaganda. Nos EUA de hoje, se você quer produzir algo que envolva a imagem Norte-Americana com orçamento mais alto, está sujeito ao Departamento de Estado. Senão, pode inscrever seu filme em Sudance, o festival dos independentes. Aí você se vira pra pagar. Assim, os USA não fazem propaganda, eles apenas "sugerem" pequenas adaptações ao roteiro. Legal, né? Um exemplo clássico é o primeiro homem-aranha. No roteiro original, a cena final não era ele posado na bandeira americana.

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