REVISTA CRIAÇÃO

HULK: VERDE, BOM E RACISTA

A nova versão cinematográfica do Hulk termina com uma inusitada aparição do herói do filme Homem de Ferro. Por isto vou começar esta crítica pelo fim. E para tanto retomo o texto sobre a cinedramatização daquele outro personagem da DC Comics.


Ao ser publicada no OI minha critica sobre o Homem de Ferro foi muito mal recebida ( http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=484FDS009). Mas um dos comentaristas postou algo que tomo a liberdade de utilizar neste momento:


"Marcelo Ramos , São Paulo-SP - Publicitario
Enviado em 9/5/2008 às 10:00:50 AM

Que pena as "análises acadêmicas" sobre o artigo. Em um universo ideal, falar sobre linguagem cinematográfica fumando um charuto e tomando um whiski seria ótimo. Não que o artigo diga algo novo. Faz tempo, aliás, muito tempo, que Hollywood faz propaganda. Aliás, não é exatamente propaganda. Se você faz um filme independente ou com orçamento próprio, é fácil, você manda no roteiro, no diretor, etc. Mas quando entra na área das grandes produções que envolvam a imagem dos USA, realmente os interesses de Estado interferem. Vocês aqui, que criticam o artigo, sabiam que o cinema e DVD são assuntos tratados diretamente pelo Departamento de Estado Norte-Americano? Os filmes que são "exportados" de lá pra cá pelas grandes distribuidoras são feitos por "venda casada". O que é isso? Compra-se um filme A (não do ponto de vista cinematográfico) e leva-se 10 filmes C - por filme entenda-se panfletos de propaganda. Nos EUA de hoje, se você quer produzir algo que envolva a imagem Norte-Americana com orçamento mais alto, está sujeito ao Departamento de Estado. Senão, pode inscrever seu filme em Sudance, o festival dos independentes. Aí você se vira pra pagar. Assim, os USA não fazem propaganda, eles apenas "sugerem" pequenas adaptações ao roteiro. Legal, né? Um exemplo clássico é o primeiro homem-aranha. No roteiro original, a cena final não era ele posado na bandeira americana."


Hulk é mais um exemplo de como o cinema pode ser utilizado para fins não necessariamente artísticos. Mas neste filme a propaganda política é mais sutil do que no Homem de Ferro. Os conflitos no filme Hulk são mais variados.


O conflito que existe entre o Estado e o cidadão é expresso através das relações entre Banner e o General que o usou e criou o monstro que agora pretende controlar. Quais são os limites para o Estado? A resposta dada pelo filme é clara: o Estado não tem limites. O corpo do herói pertence ao Estado e o Exército dos EUA pode perseguir seus objetivos até mesmo no território de outro país. A exemplo do filme Homem de Ferro no novo Hulk a soberania dos EUA se expande cinematograficamente por todo globo. Neste caso é a arte que imita a vida ou é a vida que está querendo imitar a arte?


O filme explora o conflito entre civilização e barbárie. Banner é civilizado, mas o produto de suas experiências não. O General parece civilizado, mas age como se fosse uma máquina a serviço de um Estado bárbaro que coisifica os cidadãos (sua filha incluída).


No Brasil o herói é perseguido pelos corredores da Favela da Rocinha. Quando chega nos EUA o personagem é obrigado a fugir através dos corredores de uma belíssima universidade. É evidente que os livros simbolizam a civilização. Os barracos, por sua vez, representam a barbárie. Assim, é impossível não fazer duas perguntas. No Brasil há favelas porque não existem livros? Nos EUA não existem favelados por causa das bibliotecas?


Logo no início do filme a sexualidade contida e educada de Banner confronta a lascívia agressiva do brasileiro que assedia a trabalhadora na fábrica. Pouco tempo depois o monstro que há em Banner se encarrega de dar um fim brutal ao brasileiro.


A literatura inglesa está recheada de exemplos de como o fardo do homem branco tem sido conter e disciplinar a irracionalidade e sexualidade dos latinos, africanos e asiáticos. Portanto, Hulk reforça uma antiga tradição literária. Este clichê foi relacionado pelo professor Edward W. Said ao imperialismo cultural, à tentativa deliberada dos povos autoproclamados superiores de colonizar o imaginário das raças inferiores (de submetê-las através da criação de esteriótipos que as mesmas são obrigadas a consumir por intermédio dos produtos culturais que exportam).


O conflito final entre Hulk e seu principal oponente é exemplar. Mostra como os norte-americanos legítimos são intrinsecamente bons e as pessoas de outras nacionalidades não são.


Banner, o norte-americano, não desejava o poder que adquiriu e passa o tempo todo tentando se livrar dele. Já o soldado de origem russa faz qualquer coisa para adquirir condições de confrontar Hulk. Quando consegue o que deseja o monstro russo ataca indiscriminadamente as pessoas nas ruas de New York. Em razão disto bom moço aceita o sacrifício de libertar o Hulk para defender a população.


Este confronto de nacionalidades sugere algumas perguntas. Porque o oponente do herói tinha que ser justamente de origem russa? A recuperação do poder militar da Rússia preocupa os produtores de cinema dos EUA a ponto deles reiniciarem a Guerra Fria nas telas? Antes de responder sugiro ao leitor que releia com atenção as palavras de Marcelo Ramos que reproduzi no início desta crítica.

Fábio de Oliveira Ribeiro

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