REVISTA CRIAÇÃO
INTERNET: O MITO AQUI E AGORA

Ineptire est juris gentium.
A inépcia é um direito de todos.
(Arthur Schopenhauer)


Em sua obra MITO E REALIDADE, Perspectiva, 2004, Mircea Eliade, afirma que a historiografia desempenha para o homem moderno o mesmo que a mitologia desempenhou para o primitivo. Nas palavras do autor:

“Durante milênios, o homem trabalhou ritualmente e pensou miticamente nas analogias entre o macrocosmo e o microcosmo. Era uma das possibilidades de se “abrir” para o Mundo e de participar da sacralidade do Cosmo. Desde a Renascença, quando se provou que o Universo era infinito, essa dimensão cósmica que o homem acrescentava ritualmente à sua existência nos é negada. Seria normal que o homem moderno, caído sob o domínio do Tempo e obsedado por sua própria historicidade, procurasse “abrir-se” para o Mundo, adquirindo uma nova dimensão das profundezas temporais. Inconscientemente, ele se defende da pressão da História contemporânea através de uma anamnesis historiográfrica...”

O poder de sedução da Internet parece estar ligado às possibilidades ilimitadas que ela cria para o cidadão comum interferir no mundo sem sair de sua própria casa. A partir de seu computador pessoal, o internauta pode fundar um partido, iniciar uma campanha contra ou a favor de uma decisão política ou judicial, manter um blog, comentar uma matéria jornalística, reclamar diretamente aos Órgãos Públicos municipais, estaduais e federais em razão de suas ações ou omissões, apropriar-se de informações privilegiadas ou divulga-las para prejudicar um desafeto ou beneficiar uma causa que defende. Os mais ousados estão em condições de elaborar Projetos de Lei e envia-los à Assembléia Legislativa ou à Câmara dos Deputados e iniciar campanhas de mensagens para os Deputados apoiando suas propostas. Ninguém duvida de que a Internet já mudou completamente as relações entre os cidadãos, entre estes e o Estado e principalmente entre os ocupantes de cargos públicos eletivos e os cidadãos que dizem representar.

Apesar de seus benefícios, a Internet tem causado desconforto numa categoria de pessoas: os especialistas. Desde o século XIX o Ocidente atribuiu um valor excessivo aos especialistas. Faculdades foram criadas para formá-los, leis foram aprovadas para regulamentar suas profissões e, principalmente, proibir o exercício das mesmas por leigos. OABs, Conselhos Federais e toda uma gama de instituições públicas ou quase públicas foram criadas para defender e proteger os especialistas.

Dentre todos os especialistas os que mais sofreram o impacto da Internet foram os jornalistas. Não são poucas as vozes que vociferam contra a proliferação de blogs, denunciam o mal jornalismo praticado na blogosfera ou lamentam o tempo em que os jornais eram vendidos em bancas e os jornalistas tinham o privilégio de definir o que era e o que não era notícia, bem como a ênfase a dar à mesma.

Na Internet todos somos leitores e jornalistas, mas alguns jornalistas querem que continuemos apenas leitores. Isto não é só infantil, é anacrônico. Assim como a historiografia desempenhou a partir da Renascença o mesmo papel que a mitologia na antiguidade, a Internet tem um papel mítico a desempenhar.

Através da Internet todas as habilidades podem ser exercitadas e, eventualmente, reconhecidas. Mesmo que não sejam desde logo reconhecidas, à medida que forem exercitadas as habilidades individuais para produzir textos (escritos, falados, iconográficos, fotográficos, televisivos e cinematográficos) e divulgá-los na Internet ou usá-los com finalidade política ou lúdica colaborará para o desenvolvimento da sociedade. Na Internet os acertos e os erros podem ser compartilhados, de maneira que tudo pode acabar virando estímulo ou reforço. Os artistas e os especialistas formados sob o signo da comunicação “on line” tendem a ser mais ágeis e adaptáveis que seus colegas do passado.

Qualquer um que tenha o mínimo conhecimento de mitologia não pode desconsiderar o papel relevante que a Internet já desempenha ou virá a desempenhar no desenvolvimento da humanidade. Por intermédio de um provedor gratuito e ao custo de uma ligação discada, o internauta está em condições de participar de movimentos virtuais globais ou transforma-los em realidades locais.

A criação de identidades e de convergência de propósitos através da Internet é uma realidade. Isto transforma a rede de computadores num centro de re-ligação entre indivíduo e sua comunidade de eleição. A re-ligação é uma experiência mística e muitas vezes bastante agradável. Mesmo que seja terrificante, auxilia no processo de amadurecimento individual. Nesse sentido, pode-se dizer que a Internet é mais do que um mercado, um fórum e uma biblioteca. Ela é mítica e mitilogizante.

O filósofo Arthur Schopenhauer tinha uma verdadeira aversão por especialistas. Considerava-os mercadores, pois “...sua ciência é um meio e não um fim.” (A arte de escrever, L&PM, 2005). Com alguma razão considerava que os diletantes estavam em condições de produzir algo digno de nota, porque “... só se dedicará a um assunto com toda seriedade alguém que esteja envolvido de modo imediato e que se ocupe dele com amor, com amore.” (idem).

Durante séculos somente as pessoas ricas ou protegidas das muito ricas puderam se dedicar a um assunto por diletantismo. Com a Internet o diletantismo está ao acesso de todos. Nesse sentido, a rede mundial é realmente revolucionária. Quanto mais cabeças pensarem e divulgarem idéias, maiores serão as probabilidades de que os verdadeiros gênios tenham sua genialidade aproveitada em benefício da humanidade.

Desde a antiguidade clássica milhões de pessoas criativas definharam amarguradas porque não puderam submeter suas idéias ao julgamento público. Agora que o público está ao acesso de todos alguns privilegiados acostumados a ser tratados como únicos produtores culturais se mostram incomodados. A blogosfera será impiedosa com seus críticos, ignorando-os.

Para compreender melhor este texto, retorne ao início. Assim, caso seja um especialista ou um leitor acostumado a dar crédito apenas aos especialistas, você poderá ignorar as afirmações de um inepto diletante. Caso contrário poderá considerar este texto uma modesta contribuição ao diletantismo virtual.


Fábio de Oliveira Ribeiro

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