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ISOLAMENTO CINEMATOGRÁFICO
Tinha 7 ou 8 anos quando assisti A GUERRA DOS MUNDOS em Eldorado (SP), no início da década de 1970. Em 1974 mudamos para Osasco (SP), onde assisti BEN HUR em 1977 ou 1978, outro filme que incendiou minha imaginação. Infelizmente os dois cinemas em que ocorreram estes espetáculos estão fechados. Um deles virou um Bingo e hoje abriga uma Igreja Evangélica. Desde então a indústria do cinema passou por transformações muito grandes. Na década de 1980, em razão da competição com a TV colorida e da crise econômica, a quantidade de salas diminuiu. Na década de 1990 o cinema enfrentou a competição do Videocassete. Atualmente os DVDs e a Internet estão a provocar uma nova revolução nos hábitos dos cinéfilos. A população cresceu. A crise econômica foi parcialmente superada e a quantidade de salas de projeção aumentou (pelo menos na Grande São Paulo). Os cinemas são mais confortáveis, asseados e seguros do que eram antigamente. Entretanto, são menos interessantes. Quando comecei a freqüentar cinemas as estréias não ocorriam todos os fins de semanas. Por isto sempre havia um bom filme antigo sendo projetado. Os dois grandes filmes que assisti na década de 1970 já eram velhos conhecidos do público quando os assisti na tela grande. A indústria cultural ampliou sua capacidade de produzir filmes. A computação gráfica criou possibilidades cinematográficas que não existiam (basta comparar as duas versões de A GUERRA DOS MUNDOS para perceber a distância entre os efeitos especiais antigos e os atuais). Quase toda semana tem um ou dois filmes estreando. Pelo menos uma vez por mês estréia algo digno de nota. Mesmo assim, o cinema não desempenha a mesma função que antes. Quando era garoto, o cinema propiciava um maior encontro entre as
gerações. Como os filmes antigos ainda eram projetados,
as gerações mais novas tinham a oportunidade de experimentar
as mesmas emoções pelas quais haviam passado as gerações
mais velhas. Havia, portanto, a possibilidade de interação
entre um garoto e seu avô em razão de ambos partilharem
a mesma memória cinematográfica. Tenho apenas 42 anos, vou mais ao cinema, assisto mais DVDs, baixo mais filmes da Internet, mesmo assim me sinto cada vez mais isolado. Tão ou mais isolado do que meu avô paterno se sentia quando tinha 70 e ia ao cinema todo sábado. O que tenho a dizer a um garoto de 15 que assistiu a nova versão de A GUERRA DOS MUNDOS no cinema e provavelmente não tem a menor idéia do que representou a primeira versão para a geração dos meus pais ou para a minha própria? Fábio de Oliveira Ribeiro |