JOGOS MORTAIS OU NEMÊSE
Aquilo que infunde terror verdadeiro (o desemprego para o trabalhador e a falência para o empresário) transforma-se em cenário de um horror estetizado. As ferramentas de trabalho se transformam em instrumentos de tortura. Que tortura pode ser maior do que a lembrança da empresa funcionando e dos dias de trabalho laboriosos quando se está falido ou desempregado? Domesticadas pela cultura e pela tecnologia, as pessoas vivem como se estivessem mortas. Suas ações são quase sempre interrompidas. O amor se torna um fardo, o desejo de vingança um refúgio patológico e o vício em drogas a única alternativa viável para vencer o tédio de estar vivo. Por mais insano que pareça o filme demonstra que somente através da dor as personagens recuperam a sanidade. Escolher entre a vingança e o perdão é também optar por tranqüilidade ou sofrimento. Neste caso, o que é bom para as pessoas também pode ser bom para os EUA. Afinal, a Casa Branca tem priorizado a guerra à diplomacia, de maneira que os norte-americanos não poderão se lamentar caso novos atentados acarretem sofrimentos ainda maiores. O personagem central age como se fosse a encarnação da deusa grega Nêmese. Venerada e temida por todos, Nêmese tinha por ofício interromper a felicidades dos homens. Mas como o próprio sofrimento pode se tornar uma fonte de felicidade, segue-se que também cabia à deusa Nêmese interromper o sadismo e o masoquismo. É exatamente isto que ocorre no filme. Através do perdão, a assistente do vilão pode interromper seu sadismo e retornar à sanidade. Também por intermédio do perdão o esposo poderia salvar a filha e a esposa, mas prefere executar o protagonista e continuar sendo masoquista (ou seja, sofrendo). O que a primeira vista é apenas mais um filme de terror barato transforma-se rapidamente num clássico imperdível. Todas as personagens escolhem sofrer. A fatalidade de sua escolha apesar de todas as advertências evoca o mito de Cassandra. Ela foi amada por Apolo e repudiou o deus após ter ganhado dele o dom da premonição. Colérico e não podendo exigir de volta o que havia dado livremente, Apolo acrescentou-lhe um castigo: Cassandra nunca teria crédito mesmo que sempre estivesse a dizer a verdade. A única verdade cristã, ou seja, o valor divino do perdão foi ignorado pelos personagens. As advertências do vilão são tão inúteis quanto as predições de Cassandra de que Tróia seria destruída. Curiosamente, o perdão também tem sido ignorado pelos americanos e por seus governantes. Por isto os gringos sofrem. Por isto continuarão a sofrer, até que Nêmese complete sua tarefa de destruir o império dos EUA. Fábio de
Oliveira Ribeiro |