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JORNALISMO TRADICIONAL NA ERA DIGITAL A matéria POEIRA E CONSPIRAÇÃO (http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=9&i=759), publicada na Carta Capital 493 é um excelente exemplo de como os males da Internet podem fazer bem ao jornalismo. Tenho visto, no website do Observatório da Imprensa, muitos jornalistas lamentarem as inovações tecnológicas. Quando não compromete a saúde financeira dos jornalões e revistinhas ou provoca demissões de jornalistas, a Internet é responsabilizada pela baixa qualidade do jornalismo. Em razão de não saírem da frente de seus computadores, os infojornalistas ficam tentados a inventar notícias - exatamente como aquele norte-americano que escandalizou o NYT em razão de seu “jornalismo inventivo”. É verdade que a revolução digital está sacudindo os alicerces do velho jornalismo. Mas as novas tecnologias não são e não podem ser culpadas pelos males do jornalismo. Há mais de um século invencionices e sensacionalismos assombram páginas dos jornais grandes e pequenos aqui e lá fora. Desde os primórdios do jornalismo os bons profissionais sempre procuraram fazer uma distinção entre os boatos e os fatos. Alguns, considerando que os próprios boatos são fatos quando escondem deliberadamente a verdade, perseguiam os primeiros até chegar aos últimos. No livro MANIFESTO DA ECONOMIA DIGITAL, que tive a oportunidade de resenhar (http://www.revistacriacao.net/manifesto_economia.htm), Pick Levine e outros defendem a tese de que atualmente: “Não precisamos de mais informação. Não precisamos de melhor informação. Não precisamos de informação automaticamente filtrada e sintetizada. Precisamos entender. Queremos desesperadamente entender o que está acontecendo...” Ressaltam, ainda, que: “Se você deseja entender, precisa reentrar no mundo humano das histórias. Se você não tiver uma história não terá entendimento. Desde a primeira carne assada por acaso numa savana pré-histórica, entendemos as coisas contando histórias. Não estou falando de ficção ou histórias com densos enredos; falo de narrativa que encadeiam os eventos no tempo e mostram seus desdobramentos.” Muito embora Pick Levin e seus colegas estivessem se referindo à gestão das empresas, dos mercados e das conversas que a Internet proporciona entre os consumidores e entre os mesmos e as empresas, as idéias de ambos podem ser perfeitamente aplicáveis ao admirável jornalismo novo. Em razão da revolução digital as “conversas na rede” se tornaram a matéria prima das empresas e dos jornalistas. Se em razão da Internet alguns jornalistas deixaram de contar histórias terão que reaprender a contá-las para recuperar a dignidade e credibilidade das informações que difundem. Contar uma história foi exatamente o que Luis Carlos Azenha fez na matéria publicada na Carta Capital. Partindo de uma informação veiculada na Wikipédia em espanhol (de que os americanos construíram o aeroporto de Luis Maria Arganã e pretendem instalar uma base militar no Paraguai), o jornalista foi até o local para apurar os fatos e construir sua narrativa. Através das informações colhidas “in loco” e dos depoimentos das autoridades que foram entrevistadas, Azenha conta a verdadeira história e desmonta o boato. Informa, também, que no website do Departamento de Estado dos EUA consta que o tal aeroporto foi construído por engenheiros militares paraguaios – informação idêntica a que colheu no local. O que nos interessa é menos o conteúdo da matéria do que o procedimento que foi adotado na sua construção. Partindo de um dado que consta da Wikipédia, os fatos foram apurados “in loco”, narrados e inclusive confirmados por outra informação “on line”. É digno de nota o fato do jornalista não ter presumido que a informação divulgada pelo Departamento de Estado fosse melhor ou mais confiável que a que consta na Wikipédia. Ao contrário, ele foi ao local, apurou os fatos para que pudéssemos avaliar e julgar dois conteúdos que estão postados na Internet sobre o mesmo assunto. Em razão de seu cuidado o jornalista deu uma nova dignidade e importância ao jornalismo. O procedimento adotado por Azenha deveria se tornar referência para seus coelgas. Os jornalistas não precisam demonizar a Internet, nem tampouco devem utilizá-la de maneira leviana. Azenha sugere na era digital que há uma clara distinção entre o trabalho jornalístico e a produção de conteúdos para a Internet. Nem todos os que produzem textos escritos ou iconográficos na rede têm a obrigação de preservar verossimilhança entre os fatos e o que difundiram sobre os mesmos. Em razão de seus conhecimentos e compromissos profissionais, os jornalistas podem e devem procurar os fatos e distingui-los dos boatos que circulam na Internet – mas não é isto que tem ocorrido em alguns jornalões e revistinhas. Fábio de Oliveira Ribeiro |