O
LEVIATÃ ANARQUICO
Hobbes (1588/1679)
é ainda hoje considerado um filósofo controvertido
e difícil de classificar.
Em sua obra mais conhecida Hobbes proclama "...seu completo
materialismo. A vida - diz ele - não é senão
um movimento de membros e, por conseguinte, os autômatos tem
uma vida artificial. A comunidade, que ele chama Leviatã,
é uma criação de arte, e é, de fato,
um homem artificial. Isto se propõe a ser algo mais do que
uma analogia, sendo descrito com alguns pormenores." (Bertrand
Russel, OBRAS COMPLETAS, volume III).
Um pouco adiante o próprio Bertrand Russel esclarece que
ao "...contrário da maioria dos defensores do governo
despótico, Hobbes afirma que todos os homens são naturalmente
iguais. Em estado de natureza, antes da existência de qualquer
governo, todo homem deseja preservar sua própria liberdade,
mas adquirindo domínio sobre os demais; estes desejos são,
ambos, ditados pelo instinto de conservação. Deste
conflito, surge uma guerra de todos contra todos, que torna a vida
'asquerosa, brutal e breve'. Em estado de natureza, não existe
propriedade, nem justiça ou injustiça; há somente
guerra, e 'a força e a fraude são, na guerra, as duas
virtudes cardeais'." (OBRAS COMPLETAS, volume III).
Ainda segundo Russel o "...poder supremo, quer se trate de
um homem ou de uma assembléia, chama-se soberano. Os poderes
do soberano, no sistema de Hobbes, são ilimitados. Tem o
direito de censura sobre toda manifestação de opiniões.
Supõe-se que seu interesse principal seja a preservação
da paz interna, e que, por conseguinte, não usará
do poder da censura para suprimir a verdade, pois uma doutrina contrária
à paz não pode ser verdadeira..." e admite que
"... o soberano possa ser despótico, mas mesmo o pior
despotismo é melhor do que a anarquia." (OBRAS COMPLETAS,
volume III).
Nos últimos dias o Estado de São Paulo deu provas
cabais de que é suficientemente desenvolvido e moderno para
adotar uma versão distorcida da filosofia de Hobbes.
Cientes de que o terror seria desencadeado as autoridades paulistas
nada fizeram. Aguardaram a onda de ataques e destruição
para reagir com uma violência sem precedentes. A ponto de
não se poder distinguir mais entre ação policial
legítima e execução pura e simples de criminosos
e suspeitos.
As autoridades são unânimes em culpar o crime organizado
pela onde de destruição, mortandade e violência
policial. Contudo, o crime verdadeiramente organizado, ou seja,
aquele que age dentro do Estado sob o manto da mais absurda impunidade
não sofreu nenhum golpe. Nenhum Delegado corrupto foi preso,
nenhum Diretor de Presídio que recebe propina para facilitar
a vida dos presos foi afastado, nenhum carcereiro que comercializa
drogas e telefones nas celas foi abatido a tiros.
É realmente curiosa a verdadeira obsessão desencadeada
contra PCC. A eficiência desta organização é
bem menor do que a das quadrilhas de policiais. A prova disto está
nos números. Os bandidos estão sendo abatidos como
moscas, suas armas estão sendo apreendidas, as bombas deles
ou não foram usadas ou explodiram nos seus colos. Já
os criminosos que atuam dentro do Estado e recebendo salário
estão tranqüilos. Muitos estão protegidos por
brigadas de policiais e quando a poeira baixar voltarão a
operar impunemente.
Chegamos a um grau tal de corrupção que o Estado se
rendeu à impossibilidade de controlar seus servidores. Ao
invés de punir os policiais que comercializam celulares nas
celas, o Estado resolveu banir a telefonia celular dos municípios
onde existem presídios. Admitiu assim que os bandidos do
serviço público adquiriram o direito de explorar todo
tipo de ilegalidade para favorecer seus sócios criminosos.
E mais, que os cidadãos de bem que compraram seus celulares
não tem direito de utilizá-los porque o Estado não
controla nem pune os seus maus servidores.
Os fatos estão aí e qualquer um que pretenda refletir
sobre os mesmos é obrigado a concluir que:
O Brasil tem uma constituição, mas o Estado de São
Paulo não é capaz de respeitá-la. O arbítrio
e a brutalidade estatal substituíram a submissão dos
servidores públicos à Lei. Agora tudo é permitido.
A corrupção policial é permitida porque não
coibida, o excesso de violência contra criminosos e suspeitos
é permitida porque o Governador e seus Secretários
de Estado são incapazes de preservar a hierarquia e os seus
subordinados estão apavorados.
Atônita a população sustenta o Leviatã
com seus impostos e se tranca em casa aterrorizada. A quem nós
devemos temer mais? Aos criminosos e suspeitos, que além
de poucos e/ou presos estão morrendo como moscas? Aos delegados,
carcereiros, investigadores e diretores de presídios corruptos,
que continuarão impunes para fomentar a desordem no sistema
carcerário? Aos policiais militares brutais que sentiram
o gosto de sangue e podem acabar se voltando contra a população
porque estão apavorados e prestes a perder a noção
de hierarquia? Ao Governador e seus Secretários que estão
deixando o Estado submergir na ilegalidade porque não controlam
nem punem seus subalternos?
Todos os dias ligo a TV admiro este Leviatã coxo, mal encarado,
caolho, brutal e sem a mínima noção do que
seja legalidade em que se transformou o Estado de São Paulo.
Estou farto de ser paulista. Sinto vergonha de ter nascido na terra
dos bandeirantes. A anarquia, que já havia tomado conta das
instituições estatais de segurança, ganhou
as ruas sem a ajuda dos anarquistas.
A cada noticiário a mentira se transforma em verdade e o
crime organizado dentro do Estado demonstrou mais uma vez seu poder
sobre a desorganizada criminalidade de rua. Um Leviatã horrível
e incontrolável atormenta e amedronta a população
do Estado de São Paulo. Não há mais Lei porque
o próprio Estado se curvou à corrupção
de seus servidores, se convenceu e convenceu todos nós que
é incapaz de combater o crime dentro de suas próprias
fileiras.
Fábio
de Oliveira Ribeiro
PS:-
Pensando bem, sou obrigado a pedir desculpas a Hobbes. Ele deve
estar rolando em seu túmulo porque certamente não
gostaria de ver seu LEVIATÃ comparado a esta besta disforme
em que se transformou o ANARCOESTADO paulista.