REVISTA CRIAÇÃO

AS LOUCURAS DE DICK E JANE

Vale a pena conferir esta ácida comédia sobre a vida empresarial americana. Pouco antes de sua empresa ir à falência, o protagonista é promovido a um elevado cargo. Satisfeito convence a esposa a pedir demissão do emprego. Não demora muito para que ambos fiquem literalmente no fundo do poço, porque todas suas economias foram reduzidas a pó. As ações que tinham da empresa em que ele trabalhava são desvalorizadas e o fundo de pensão da mesma ficou sem um centavo.

Desesperado ele tenta de tudo para sustentar a família, até se empregar em biscates como se fosse um imigrante ilegal nos EUA. Acaba tratado como tal pela Polícia de Fronteira. Retorna do México em condições lastimáveis só para encontrar a esposa desfigurada porque teve reações alérgicas à um teste remunerado com cosméticos.

Injuriado, resolve passar assaltar lojas, supermercados e bancos. Em sua nova profissão comete toda sorte de idiotices e descobre que outros ex-colegas estão fazendo o mesmo. Embriaga-se num clube para executivos, imita um marionete, reencontra o diretor que o promoveu e espanca-o. Acaba sendo convencido por ele a aplicar um golpe de mestre no ex-dono da empresa que faliu e que ficou com uma fortuna de 400 milhões de dólares.

O golpe dá certo e o dinheiro é empregado para manter um fundo de pensão para os ex-empregados da falida. Apresentado com benfeitor em público o empresário que se beneficiou da falência e roubou os empregados fica sem ação.

Apesar do final feliz o filme é bastante interessante. Na América à Bush, que isenta os ricos de impostos e deixá-os impunes, os pobres não tem importância econômica e política para o Estado. Por isto, o filme mostra como os desempregados são tratados como imigrantes em seu próprio país.

Enquanto passam as maiores dificuldades, os protagonistas vêem o empresário vigarista aparecendo na TV praticando caça esportiva, dando entrevistas, etc... Algo mais ou menos parecido ocorreu no Brasil com aquele famoso ex-presidente do Mappin, que deixou os empregados na mão e ficou tão ou mais rico com a falência de sua empresa.

A referência aos escândalos financeiros (ERON, ADELPHIA, WORLDCOM, DYNEGY, HARKEN e outras), não são acidentais. São deliberados. O final feliz aumenta a comicidade do filme. Afinal, a vida nem sempre imita a arte. Principalmente quando se trata de dinheiro. Caso um empresário vigarista fosse vítima de um estelionato bem intencionado tenho certeza de que o Judiciário dos EUA colocaria o autor do golpe na cadeia para proteger o milionário. Lá como aqui a justiça pode custar caro a quem não tem dinheiro e barato para quem possa pagar os serviços de um Juiz.

A comédia registra o declínio dos tradicionais valores americanos. A terra da oportunidade, eficiência e ética protestante (valorização do trabalho e da atividade econômica lícita) já não é a mesma. A “grande maçã” está podre e os vermes que a governam não são a causa disto, mas apenas um sintoma da degenerescência político-econômico-educacional da ex-potência. Não deve demorar muito para que os americanos percebam que estão sendo sistematicamente enganados.

Fábio de Oliveira Ribeiro

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