REVISTA CRIAÇÃO
MANIFESTO DA ECONOMIA DIGITAL

Mercados são conversas. Partindo deste pressuposto os autores do “O manifesto da economia digital” (Pick Levine e outros, editora Campus, 2000) nos fazem percorrer os meandros de uma nova teoria dos negócios. Segundo eles a Internet teria recuperado ou reconstruído o Mercado como um espaço privilegiado de troca de histórias e produtos. Um local onde os preços das mercadorias e serviços são determinados não por produtores e fornecedores e sim pelos compradores.

Uma das teses fundamentais do livro é de que a rede de computadores destroçou o marketing tradicional. A propaganda já não consegue forjar a lealdade como antigamente. As mentes e os corações dos consumidores transitam livremente entre as informações necessárias sobre os bens e serviços que desejam. Informações que muitas vezes contradizem as campanhas publicitárias que maximizam as virtudes e minimizam os defeitos dos produtos e serviços colocados à disposição dos consumidores.

Através da Internet as pessoas se tornaram capazes de identificar as mentiras contadas pelas empresas e as meias verdades forjadas pela mídia. As conversas “on-line” entre diversos agentes do mercado (consumidores, especialistas, empregados, etc...) resultou numa intensificação da competição e no rompimento do modelo que estava em vigor desde a revolução industrial. O empresário não é capaz de construir a imagem que deseja de sua empresa e de seu produto. Afinal, são opiniões desautorizadas que fazem isto por ele contra sua vontade.

Nesse sentido, os autores ressaltam que a Internet acabou interferindo diretamente na administração das empresas. O comando exercido pelos administradores e gerentes se desintegrou porque ninguém mais pode preservar os segredos que possibilitavam o controle dos meios, dos processos e da lealdade dos empregados. As informações que vagam de um lado para outro na rede, que são compartilhadas entre empregados de empresas concorrentes, consumidores, especialistas, curiosos e consumidores podem determinar o sucesso ou o fracasso de uma empresa. Os autores tiveram o cuidado de selecionar dois exemplos para mostrar como a adaptação ou a resistências a esta nova realidade acarretam conseqüências boas ou ruins para as empresas envolvidas.
Para os autores há uma revolução em curso. Uma revolução que está modificando não as relações de produção, mas os fundamentos da administração das empresas. O fordismo/taylorismo, que possibilitou o sucesso da revolução industrial, é incompatível com a realidade construída pela Internet. O poder do empresário dentro e fora dos muros da empresa está rapidamente sendo substituído por uma verdadeira “ditadura do consumidor”. O que fazer quando os consumidores podem determinar as características e os preços dos produtos que desejam consumir antes mesmo que eles sejam fabricados?

“O manifesto da economia digital” é um livro agradável porque foi escrito de como se fosse uma conversa. A linguagem coloquial, as metáforas desaforadas e provocantes fazem da leitura um exercício interessante. Afinal, não é sempre que vemos um assunto tão sério sendo tratado de maneira tão informal. O livro é uma jóia. A jóia que faltava para percebermos que a Internet não só chegou para ficar, mas para transformar a maneira como encaramos o trabalho, os negócios e até mesmo as revoluções.

É claro que ainda é cedo para medir o impacto da Internet na economia brasileira. Afinal, em nosso país as trocas são realizadas de diversas formas e a comercialização de produtos “on line” é uma novidade. Entretanto, lentamente os brasileiros começam a utilizar a rede para reclamar, reivindicar, contar histórias e oferecerem suas opiniões sobre praticamente todos os assuntos.

Há uma revolução silenciosa em curso. Uma revolução feita de muitas palavras. Os mercados são conversas, conversas como esta que estamos tendo sobre um livro. Divirta-se e aprenda como refazer sua vida, seu trabalho e sua maneira de encarar o mundo virtual, que é real porque pode interferir no seu cotidiano e no faturamento de sua empresa. Boas conversas.

Fábio de Oliveira Ribeiro

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