|
MICRÔMEGAS EM SAMPA
Se Micrômegas (aquele personagem de Voltaire) lesse os jornais brasileiros ele perceberia rapidamente que o Brasil é um pais esquizofrenico. No Brasil, os mesmos jornalistas que se escrevem artigos espetaculares e cheios de calor humano convocando os cidadãos para fazer doações às vítimas das catástrofes que ocorrem LÁ FORA não tomam conhecimento das catástrofes que ocorrem AQUI DENTRO. Quando muito culpam a chuva,os barrancos que desmancham e invocam a espada da Lei contra qualquer manifestação popular que pretenda coagir o poder público a fazer o que deveria ter feito. Micrômegas certamente notaria que os tais jornalistas sabem para quem escrevem: para os privilegiados e para os remediados de classe média. O personagem e seu criador achariam isto muito óbvio. Afinal, os privilegiados brasileiros querem ser respeitadso como iguais LÁ FORA, mas AQUI DENTRO sempre demonstram desprezo pela miséria que sustenta seus privilégios. Os remediados seguem como cachorrinhos seus mestres, quer porque gostam de espelhar vícios como se fossem virtudes quer porque tem um verdadeiro horror de descer ao andar de baixo. E os que habitam o andar de baixo? Não deveriam ter virado a mesa? Qual nada. No Brasil o andar de baixo raramente se movimenta. Carnaval, futebol, cervejinha, mulher gostosa na TV, copa do mundo, Ronaldo no Corintians, Robinho no Santos... além da certeza de que os Policiais brasileiros tem dedo mole, ótima pontaria e quase sempre ficam impunes quando atuam no andar de baixo. Voltaire certamente entenderia porque os DIREITOS HUMANOS (ou melhor, porque a NEGAÇÃO dos DIREITOS HUMANOS) é o elemento de coesão desta sociedade permanentemente doente. No dia em que os Policiais brasileiros forem obrigados a respeitar os de baixo estes perdem o medo dos de cima. E é por isto que quem está no andar de cima insiste em limitar os DIREITOS HUMANOS aos HUMANOS DIREITOS. Os autores do trocadilho não percebem o risco que correm. Afinal, quem não é considerado HUMANO o bastante pode muito bem começar a tratar os MAIS HUMANOS exatamente como eles tem sido, ou seja, como NÃO HUMANOS. Este é um caso clássico em que a exceção funciona tanto para limitar um conceito como para destruí-lo totalmente. Voltaire, que ajudou a fomentar uma Revolução e foi recebido com honras na Paris revolucionária, diria para Micrômegas ir embora do Brasil e ficar tranquilo com o futuro. "Nesta terra nem as guilhotinas francesas funcionariam direito." Fábio de Oliveira Ribeir |