REVISTA CRIAÇÃO

A MISÉRIA DA FISOLOFIA DIGITAL


Em seu longo artigo publicado na Revista do Advogado (AASP, nº 69, Maio/2003), José Eduardo Faria defende a tese de que a Internet representa um retrocesso nas relações políticas e de poder, viabilizando a substituição do contato direto pelo virtual, do espaço de deliberação política pela aceleração das trocas irrefletidas em que apenas o lucro é principal elemento organizador da atividade humana. O autor é, sem dúvida alguma um pessimista mal informado. A propósito de fazer uma análise marxista da sociedade distorce e despreza a principal categoria analisada por Marx no 18º Brumário de Luiz Bonaparte.

O totalitarismo fascista e nazista foram produtos de um mundo em que o capital era concentrado nas mãos de alguns poucos e a opinião massificada. Nos princípio do século XX os meios de comunicação eram unidirecionais e controlados pelo Estado. Ao monopolizar as fontes de criação do imaginário e organizar em torno de si as elites de seus paises, Hitler e Mussolini conseguiram criar uma estrutura de poder que só foi abalada pela guerra.

Podemos não viver em um paraíso socialista, mas é fato que o capital encontra-se em grande parte despersonalizado e pulverizado na sociedade. Pode-se negar a realidade, mas não se pode ignorá-la. Em razão de suas próprias características o capitalismo pós-industrial inviabiliza a construção de novos totalitarismos inspirados no III Reich. Principalmente porque, na atualidade, os maiores investidores nos mercados de capital são justamente os Fundos de Pensão.

O advento da Internet, por outro lado, colocou em cena o cidadão comum. De destinatário de uma mensagem filtrada pelo Estado ao tempo do nazifascismo o popular passou a ser o criador de sua própria mensagem. Com equipamentos cada vez mais baratos qualquer pessoa pode expressar sua opinião, criar seu grupo de discussão e organizar sua intervenção no mundo real a partir da interação virtual.

O autor do texto “Informação e Democracia” é refratário à globalização. Pode-se negar um fenômeno, mas não se pode ignorá-lo. A globalização já se tornou uma realidade. Não há como contrariar a tendência geral de uma maior integração entre os agentes econômicos, entre as instituições não governamentais e, entre os cidadãos das mais diferentes culturas. O isolamento econômico e cultural defendido indiretamente pelo articulista não é só anacrônico. É também antimarxista. Karl Marx sempre privilegiou o movimento operário internacional como uma alternativa de poder aos belicosos nacionalismos do velho continente

Num mundo integrado em que a tecnologia proporciona a comunicação multidirecional, a principal obrigação do intelectual é emitir sua opinião deixando bem claro que ela é apenas mais uma dentre infinitas possibilidades. Diante da avalanche de conteúdos proporcionada pela Internet não existem mais as condições necessárias para a criação de utopias irrealizáveis ou para a destruição das imperfeições do mundo. Quando todos podem produzir e difundir suas próprias idéias a doutrinação está fora de cogitação. Àqueles que pretendem compartilhar seus ideais, só resta procurar apresentar a realidade tal como a vê e não tal como ela é. A fragmentação do mundo é um fato inexorável e podemos tirar proveito disto formando-nos a nós mesmos ao invés de ficar procurando dominar o imaginário das outras pessoas difundindo o medo de novas tecnologias.

As utopias que fundaram os Estados totalitários, da Alemanha hitlerista à URSS stalinista, foram concebidas por intelectuais mais ou menos pessimistas em relação ao passado e otimistas em relação ao futuro. Filósofos acostumados a lidar com platéias incultas e incapazes de questionar os conteúdos que eles produziam fizeram escola antes da II Guerra Mundial. Ninguém pode desdenhar o poder da palavra. Nos primórdios do século XX milhões de pessoas eram doutrinadas. Os dissidentes eram mantidos calados à força. Incapazes ou impossibilitados de discordar alemães, italianos, japoneses e russos não tinham outra alternativa senão seguir seus lideres.

O mundo se libertou das garras do totalitarismo através da guerra. Pode mundo bem permanecer longe dele por intermédio dos computadores pessoais em rede. As sementes da ditadura, inconcebível num mundo em que todos podem defender suas idéias, não encontrarão solo fértil na Internet. Na verdade não existe limite entre a vida “on line” e o cotidiano dos usuários. A fragmentação existente no mundo virtual impera no mundo real inviabilizando qualquer projeto de massificação que pretenda negar aos cidadãos o direito de se manifestar livremente.

É evidente que nem todos têm acesso aos computadores e à Internet. A exclusão digital é uma realidade. Entretanto, todos os governos estão empenhados em resolver este problema. Além disto, devemos ter em mente que há apenas dois séculos apenas uma minoria da população tinha acesso à educação. Se retroagirmos um pouco mais, verificaremos que a exclusão social era ainda maior. A cinco séculos mais de 90% dos europeus eram analfabetos e aprendiam o cristianismo através da tradição oral apoiada pelas imagens da paixão de Cristo. A dez, nem mesmo os Estados nacionais existiam.

Além de ser maior e mais eficiente que o Mosteiro e que a Ágora, a Internet também é um espaço de troca. Este fato parece incomodar de maneira especial o filósofo José Eduardo. Talvez porque ele não saiba ou pretenda esconder que as trocas sempre foram necessárias. No mundo antigo o Mercado também era um espaço publico privilegiado, porque permitia o contato entre culturas diferentes (além dos negócios, é claro). A vida em sociedade sem economia e sem comércio é impraticável.

Economia, comércio e lucro são três coisas absolutamente ligadas entre si. Os planejadores socialistas tentaram revogar o lucro por decreto. E o que produziram? Um comércio artificial que transformou uma economia ineficiente num exercício de manipulação estatística.

O lucro é fruto de uma paixão genuinamente humana. Que como todas as outras encontra seu limite na morte do indivíduo. Entretanto, as empresas reais ou virtuais transcendem seus donos. Produzem lucros, mas também atendem às necessidades dos empregados proporcionando salários. Enriquecem seus donos, mas geram tributos que serão utilizados para satisfazer as demandas dos cidadãos. A ganância do mais famigerado capitalista selvagem virtual pode ser reprovável, mas continuará a produzir efeitos indesejados por alguns filósofos.

A miséria da filosofia é ignorar a economia. A do seu amante é desprezar a liberdade dos comerciantes. Os Estados e as empresas nunca foram obrigados a pegar dinheiro emprestado. Quando emprestam dinheiro de organismos internacionais ou de investidores estrangeiros, os administradores públicos e privados sabem exatamente quais os riscos que correrão. Assumem a obrigação de remunerar o capital alheio da forma preconizada no contrato para poder usar recursos que de outra forma não teriam.

Quando trabalhava na sua obra máxima, Marx escreveu uma carta ao seu maior amigo alertando-o que ninguém havia escrito sobre a moeda na mais absoluta falta dela. Até mesmo o pai do socialismo tinha necessidades mundanas e vivia usando o correio para pedir dinheiro emprestado ao fiel colaborador. Porque é que não se pode fazer o mesmo através da Internet?

Crédito e calote são duas coisas incompatíveis. Nem todos os empresários são filantropos como Engels. Compreensão, paciência e tolerância são virtudes que devemos cultivar, mas nunca podemos exigir das demais pessoas. A menos que queiramos fundar uma nova utopia baseada no saque não podemos coagir os donos do capital a doarem o que é deles. Os investidores são bons porque emprestam a juros e não porque aceitam um muito obrigado como pagamento.


Fábio de Oliveira Ribeiro

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