REVISTA CRIAÇÃO

O MITO BIN LADEN

A propósito de justificar uma verdadeira “guerra santa” contra Bin Laden e seus seguidores o governo americano "demonizou" o milionário saudita. A mídia ajudou a fazer do milionariozinho (sim, porque para os padrões americanos ele é um pé rapado) uma verdadeira potência militar, cujo poder real não chega a 0,000000000l% do poderio bélico americano.

Apesar de estar na defensiva, Bin Laden já ganhou a guerra da propaganda. Se você abrir o Farejador IG hoje (12/09/2002) e fizer uma pesquisa descobrirá que existem 9.844 melhores páginas sobre o saudita e apenas 2.866 melhores páginas sobre George W. Bush. Na guerra da informação fala-se mais sobre o líder do Al-Qaeda do que sobre o Presidente dos EUA, cuja importância política teoricamente é muito maior. Ainda mais neste momento em que os EUA estão prestes a incendiar o Oriente Médio atacando o Iraque.

É claro que Bin Laden é mais atacado do que venerado. Contudo, não deixa de ser assustador o tamanho da imagem que construíram dele. Um personagem tão grande chega a atingir proporções míticas. E aí é que reside o maior perigo. A consciência mítica é irracional e incontrolável. Assim como pode despertar ódios, pode também despertar simpatias insólitas.

Logo após o atentado de 11/09/2001 um amigo meu (que morou nos EUA, é de classe média alta e formado em Artes) condenou veementemente as ações de Bin Laden, qualificando-o de louco e fundamentalista. Desde então, não tivemos mais oportunidade de nos ver. Em 25/05/2002 encontrei-o e para minha surpresa ele me disse que para ele o terrorista saudita era o novo Jesus Cristo, que teria retornado para punir os americanos.

Não sou nem religioso nem crédulo a ponto de acreditar num disparate destes. Contudo, fiquei profundamente interessado pela afirmação. Ela confirma minha hipótese de que a mitificação de Bin Laden é prejudicial.

Tentei refazer o raciocínio que levou meu amigo à sua conclusão e cheguei às seguintes semelhanças:- Bin Laden destruiu duas torres, Deus destruiu uma (a de Babel), o líder do Al-Qaeda atacou um país protestante (em que se lê a Bíblia e os Evangelhos) e Jesus retornaria para julgar e punir os cristãos e não para salva-los. Se continuarmos procurando, encontraremos outras analogias. Algumas até melhores e mais profundas.

Mas não estou interessado nestas analogias e sim nas conseqüências da "demonização" de Bin Laden. O Brasil não tem vinculações diretas com os atentados ou com as ações americanas que levaram os fundamentalistas árabes a atacar NY. Está na hora da mídia começar a desfazer este mito antes que ele consiga adeptos em nosso país.

Homens muito odiados e perseguidos pela imprensa (como Hitler na Alemanha dos anos 20) acabam sendo amados pela população. Afinal, as pessoas mais ignorantes tiram suas próprias conclusões a partir dos retalhos de informação a que tem acesso e dá iconografia religiosa deformada que cultuam.

Antonio Conselheiro costuma ser citado como um exemplo bem triste de como um líder religioso acaba levando seus adeptos à destruição. Mas será que algum jornalista é capaz de lembrar-se que foi a imprensa brasileira que criou uma histeria pública em torno do caráter monarquista de Canudos obrigando o exército a intervir? A história é prova de que nem sempre as conclusões do povo são as melhores ou aquelas que a mídia gostaria que fossem tiradas a partir das manchetes.

Se continuarmos alimentado este monstro chamado Bin Laden acabaremos arrastados para sua caverna, transformando o Brasil numa espécie de Oriente Médio. Não demora e a bandeira do Al-Qaeda acabará sendo levantada pelo Movimento Sem Terra não durante as ocupações e sim nos conflitos. A imagem da bandeira do MST levantada em Gaza por um brasileiro junto de Arafat, pode muito bem simbolizar que a situação explosiva no campo deixa antever a possibilidade de atentados no Brasil. A hipótese de uma ramificação cristã do Al-Qaeda não é tão absurda.

Em seu O Império e os Novos Bárbaros, Rufin acusa os militantes terceiro-mundistas de deformarem as teorias européias, adaptando-as às suas próprias realidades subdesenvolvidas. O que impede que alguns malucos cristianizem o islamismo radical de Bin Laden aplicando-o ao Brasil?


Fábio de Oliveira Ribeiro

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