MITO
E REALIDADE
Aqueles que gostam de mitologia tem razões de sobra para considerar um clássico o livro MITO E REALIDADE, de Mircea Eliade (http://www.romenia.org.br/Cultura/MirceaEliade.htm). Apesar de curta, a obra é profunda e nos remete ao âmago de uma questão que tem provocado debates ao longo dos séculos. Mircea começa sua obra fazendo um alerta. O conteúdo do vocábulo mito tem se modificado ao longo dos séculos. Mito já foi considerado “fábula”, “ficção” e atualmente refere-se a uma “história sagrada verdadeira”. Nesse sentido, frisa que o mito “...fala apenas do que realmente ocorreu, do que se manifestou plenamente. Os personagens dos mitos são os Entes Sobrenaturais. Eles são conhecidos sobretudo pelo que fizeram no tempo prestigioso dos “primórdios”. Os mitos revelam, portanto, sua atividade criadora e desvendam a sacralidade (ou simplesmente a “sobrenaturalidade”) de suas obras. Em suma, os mitos descrevem as diversas, e alguma vezes dramáticas, irrupções do sagrado (ou do “sobrenatural”) no Mundo. É essa irrupção do sagrado que realmente fundamenta o Mundo e o converte no que é hoje. E mais: é em razão das intervenções dos Entres Sobrenaturais que o homem é o que é hoje, um ser mortal, sexuado e cultural.” Os “Entes Sobrenaturais” a que se refere Mircea são os todos os personagens fantásticos a que se referem os diversos mitos. A definição do autor é restritiva e preferimos uma definição um pouco mais abrangente. Também consideramos “Entes Sobrenaturais” os personagens históricos que, em razão de seus feitos se tornaram objeto de culto e adquiriram um caráter mítico. Assim, admitimos a hipótese de que Jesus é um ser tão mitológico quanto Lenin. O deus crucificado ocupa o papel central no cristianismo e é o depositário das esperanças de felicidade e salvação de milhares de pessoas que acreditam nele e repetem sua história de forma simbólica. Após sua morte, Lênin se transformou num ícone da URSS e numa referência teórica para milhares comunistas que procuraram nas suas obras as soluções para os problemas teóricos e práticos da revolução comunista. Lenin encarnou, portanto, o mito do líder revolucionário vitorioso que conseguiu unir teoria e prática para libertar o mundo das garras da religião. Mircea assegura-nos que o homem ao “...recitar os mitos reintegra-se àquele tempo fabuloso e a pessoa torna-se, conseqüentemente, contemporânea, de certo modo, dos eventos evocados, compartilha da presença dos Deuses ou dos Heróis.” Não a toa Mircea frisa que viver “...os mitos implica, pois, uma experiência verdadeiramente “religiosa“, pois ela se distingue da experiência ordinária da vida cotidiana.” E um pouco mais adiante acrescente que o “...indivíduo evoca a presença dos personagens dos mitos e torna-se contemporâneo deles. Isso implica igualmente que ele deixa de viver no tempo cronológico, passando a viver no Tempo primordial, no Tempo em que o evento teve lugar pela primeira vez.” É assim, por exemplo, que o cristão se identifica com os apóstolos ao comer o pão que simboliza o corpo de Jesus e beber o vinho que é o sangue dele. Ao encenar a última ceia o cristão retorna misticamente ao tempo em que seu deus estava vivo e partilha da sua substância em condições de igualdade com os apóstolos. Também é assim que o leitor de Lênin retorna aos primórdios da revolução russa e partilha a esperança de sucesso do seu mestre. Ao ler e reler os livros de Lênin que precederam a revolução sabendo antecipadamente o sucesso que a mesma obteve, o comunista adquire a certeza de que também poderá ajudar a construir a revolução em seu país. Os homens sempre tiveram dificuldades para lidar com as contradições de suas vidas. Nossas vontades e ideais nunca correspondem aos fatos. É por isto que recorremos ao mito e tendemos a transformar quase tudo em mito, por intermédio do qual nos colocamos fora do tempo e muitas vezes retornamos à origem, em que havia harmonia, felicidade e saúde. Segundo o autor de MITO E REALIDADE “...para as sociedades arcaicas, a vida não pode ser reparada, mas somente recriada mediante o retorno às fontes.” Mas o retorno às origens não parece ser uma qualidade apenas dos homens arcaicos. Os cristãos procuram sempre retornar às origens do cristianismo em busca de revitalizar sua fé, individualmente através dos ritos ou coletivamente por intermédio de movimentos políticos milenaristas quase sempre sangrentos. Curiosamente, nem Marx e Engels deixaram de ser seduzidos pelo mito das origens. Quando escreveram A Origem da Família, da Sociedade e do Estado encontraram um estado de beatitude socialista primitivo que poderia ser revitalizado através da prática revolucionária. Não são poucos os comunistas que retornaram ao próprio Marx e Engels para recuperar a pureza da ideologia que teria sido contaminada pelos abusos stalinistas. A renovação do mundo é um elemento fundamental de todos os mitos. Mircea alerta que “... o que importa para nossa pesquisa é o fato de, malgrado a diferença das estruturas sócio-econômicas e a variedade de contextos culturais, os povos arcaicos pensarem que o Mundo deve ser anualmente renovado e que essa renovação se produz obedecendo a um modelo...” Quando nos deparamos com o milenarismo religioso tão em voga no século XX quanto o fervor revolucionário dos comunistas é inevitável perguntar se o arcaísmo não sobreviveu mesmo nas sociedades mais adiantadas. Todos os mitos que tratam da renovação contém uma visão escatológica do fim do mundo. Segundo Mircea “...o Fim do Mundo no passado, e aquele que terá lugar no futuro, representam a projeção gigantesca, em escala macroscópica e com uma intensidade dramática excepcional, do sistema mítico-ritual da festa do Ano Novo. Desta vez, porém, não se trata mais do que poderia ser chamado de “fim natural” do Mundo - “natural” porque coincide com o fim do Ano, fazendo parte integrante, portanto, do ciclo cósmico - mas de uma catástrofe real, provocada pelos Entes Divinos.” Muito embora o autor de MITO E REALIDADE advirta que a“...expectativa do Fim do Mundo e a iminência do julgamento final não caracterizam nenhuma das grandes Igrejas cristãs...“ o milenarismo tem sobrevivido à margem das instituições religiosas. Para os cristãos milenaristas o Armagedom precede o retorno do Messias. Após a destruição do mundo pecaminoso e corrompido ocorrerá o estabelecimento na terra de um reino de mil anos de harmonia e felicidade. Os marxistas, por sua vez, acreditam que o colapso do regime de exploração do homem pelo homem ocorrerá em razão de suas próprias contradições. O fim do capitalismo antecede o advento do socialismo, um regime em que as desigualdades deixarão de existir e os homens poderão finalmente desenvolver todas as suas potencialidades. As semelhanças mitológicas entre o milenarismo cristão e o determinismo histórico de Marx são muito grandes e explicam, por exemplo, o surgimento da esquerda católica politizada e revolucionária que tem sido repudia doutrinariamente e ferozmente combatida pela Igreja Católica. A marcha inexorável do tempo sempre causou desconforto ao homem. É por isto que a abolição do mesmo e o retorno às origens sempre esteve no centro das preocupações mitológicas. Mircea Eliade
afirma que “...para o homem das sociedades arcaicas, o Ao longo de sua obra, Mircea trata ainda das relações entre mitologia, ontologia e história, mitologia da memória e do esquecimento, da grandeza e decadência dos mitos, de suas sobrevivências e camuflagens no cristianismo. Após ler MITO E REALIDADE concluímos que parece que o homem tem uma faculdade inata de transformar praticamente tudo em mito e o que é verdade para o homem arcaico não é menos verdade para o homem moderno. Nas palavras do especialista durante “...milênios, o homem trabalhou ritualmente e pensou miticamente nas analogias entre o macrocosmo e o microcosmo. Era uma das possibilidade de se “abrir” para o Mundo e de participar assim da sacralidade do Cosmo. Desde a Renascença, quando se provou que o Universo era infinito, essa dimensão cósmica que o homem acrescentava à sua existência nos é negada. Seria normal que o homem moderno, caído sob o domínio do Tempo e obsedado por sua própria historicidade, procura-se “abrir-se” para o Mundo, adquirindo uma nova dimensão nas profundezas temporais.” Os gregos transformaram a verdadeira Guerra de Tróia em mito e se dedicaram ao culto dos seus heróis. Os cristãos não descansaram enquanto não sobrepujaram os mitos gregos e romanos. Durante sua luta pela hegemonia o próprio cristianismo se apropriou de elementos da mitologia que pretendia suplantar e transformou a história do deus crucificado num mito complexo e contraditório. Os iluministas lutaram contra o obscurantismo religioso e a partir do século XIX a própria ciência acabou mitificada. Marx concebeu teorias políticas e econômicas que pretendiam libertar o homem dos preconceitos e ilusões religiosas e menos de um século depois de sua morte o próprio marxismo acabou se tornando a religião dos comunistas. A obra resenhada sugere uma conclusão importante. O estudo de mitologia não é só atual, mas fundamental para qualquer um que não pretenda se tornar vítima das ambições políticas de outra pessoa. Além de ajudar a compreender a sociedade em que se desenvolveu ou se tornou objeto de culto, o mito pode ser utilizado politicamente para paralisar as dissidências ou criá-las e transformá-las em movimentos emergentes e hegemônicos. O próprio Mircea creditou o sucesso do nazismo e do comunismo aos seus apelos mitológicos ao afirmar que embora “...radicalmente secularizados na aparência, o nazismo e o comunismo estão carregados de elementos escatológicos; eles anunciam o Fim deste mundo e o início de uma era de abundância e beatitude...” Fábio de Oliveira Ribeiro |