MITOLOGINTERNET
A Internet não é apenas um repositório de informações sobre mitologia. Ela é mitologizante. Há algum tempo circula na rede um e-mail que assegura que os EUA estariam ensinando que a Amazônia é um parque florestal internacional. Quando o recebi passei a informação adiante declarando guerra aos americanos. Dias depois, em razão de uma nota publicada no IG Ultimo Segundo descobri o equivoco e fiz o que era necessário para repara-lo. Só então me dei conta de que a Internet é maravilhosamente perversa. Ela contém bilhões de páginas que veiculam trilhões de informações. Navegamos on-line para reduzir nossas incertezas, mas a própria rede é uma fonte imensa de certezas absurdas. A informação veiculada num e-mail foi capaz de levar-me a colaborar para a disseminação da incerteza a propósito de reduzi-la. Apesar de falsa, referido e-mail penetrou fundo em minha consciência, despertando sentimentos incontroláveis (medo, ódio, etc), que são os ingredientes de todos os mitos. O próprio binômio certeza/incerteza é tão antigo quanto o homem e em grande medida explorado por diversos mitos. Ao descobrir que matou o pai e casou-se com a mãe, Édito fura os próprios olhos. O herói trágico renunciou aos benefícios da visão, mas também privou a si mesmo da fonte de todos suas desventuras. Cassandra, a vidente da Ilíada, vê o futuro trágico de Tróia e aconselha os troianos á não aceitarem o presente grego. Ninguém lhe dá crédito. Apesar de seus avisos, a cidade invadida, saqueada e destruída. Ignorado pelos troianos, o dom de Cassandra é tão inútil quanto à visão ignorante de Édipo. Ela viu um futuro que os outros não queriam ver. Ele viu algo diferente do que deveria ter visto. A história do e-mail falso prova suficientemente que a Internet não resolve o problema da certeza/incerteza. Ao contrário, ela o intensifica, porque tentando resolve-lo podemos acabar colaborando para divulgar um auto-engano. Que fazer? Abandonar a rede como Édipo abandonou a visão? Usar as informações que recebemos sabendo-as inúteis como o dom de Cassandra? Estas são questões que não podem ser resolvidas. Desde tempos imemoriais a verdade sempre foi escorregadia. Procurando-a acabamos cegos como Édipo ou frustrados como Cassandra. Se a internet é mitologizante, a única coisa saudável a fazer é mitologizá-la. Transformando-a num espaço lúdico, em que o binômio certeza/incerteza é apenas uma das variáveis do jogo, podemos conservar a sanidade e emprega-la sem medo de sofrer ou causar conseqüências nocivas. Fábio de Oliveira Ribeiro |