REVISTA CRIAÇÃO

MUNIQUE/A CAVERNA

MUNIQUE e A CAVERNA são dois filmes que tem uma estranha relação entre si. O primeiro retrata a ação do grupo terrorista mantido com recursos do governo israelense para promover assassinatos na Europa em represália ao atentado feito pelo Setembro Negro em Munique em 1972. O segundo narra as aventuras de um grupo de cientistas que acaba preso numa caverna e entra em contato com humanos geneticamente modificados por um vírus desconhecido.

O atentado de Munique resultou na morte de alguns atletas de Israel e desencadeou uma onda de violência oficiosa sem precedentes. Avner e outros quatro agentes do Mossad se empenham para assassinar os suspeitos de envolvimento em atentados contra israelenses. A princípio, os agentes secretos de Israel cumprem as ordens de seus superiores, mas com o tempo a célula terrorista que montaram adquire vida própria e passa a se relacionar de maneira autônoma com os traficantes de informações europeus.

Originalmente os alvos eram apenas palestinos em território europeu, mas não demora muito para que a célula terrorista israelense atue no Líbano, machuque alguns inocentes e passe a eliminar seus próprios inimigos. Avner sofre na pele as conseqüências da violência que comanda. Após várias ações bem sucedidas ele e seus companheiros se transformam em alvos, sem que se saiba exatamente quem pretende elimina-los. Aterrorizado, Avner suspeita que a CIA, KGB e o próprio governo israelense quererem se livrar dele e de seus amigos. Abandona a carreira terrorista e volta para a família, mas já não é o mesmo. O trabalho sujo modificou-o para o resto da vida.

O atentado contra os atletas israelenses em Munique foi, sem dúvida alguma, um ato de intolerância. Uma reação à violência oficial praticada por Israel desde 1967, quando começou a invasão dos territórios palestinos (que não é mostrada, mas apenas referida no filme). A resposta do governo israelense ao atentado não foi a retirada dos territórios indevidamente ocupados, mas o recrudescimento da intolerância oficial.

No filme A CAVERNA um vírus desconhecido transforma homens em seres diabólicos que se alimentam de carne humana. A violência deforma de tal maneira os agentes do Mossad que eles se transformam em terroristas semelhantes aos autores do atentado de Munique. Portanto, a intolerância pode ser comparada ao vírus do filme de terror.

A caverna romena é um ambiente fechado e assustador. Quanto mais penetram nela, mais os cientistas ficam à mercê dos seres geneticamente modificados. O mundo da espionagem, contra-espionagem e tráfico de informações é muito semelhante a uma caverna. Ao penetrar nele Avner e seus colegas deixam de ser seres humanos normais e voltam a ser animais assustados e assustadores (exatamente como os diabólicos habitantes do mundo subterrâneo do filme de terror).

Nos dois filmes o mergulho num mundo de sombras transforma definitivamente os viajantes. Avner faz sexo com a mulher pensando nos assassinatos que foram praticados. A heroína do filme de terror acaba sendo infectada e seu parceiro passa a cassá-la na multidão. Os dois filmes estão estranhamente entrelaçados, ainda mais se pensarmos o contexto em que foram lançados.

Neste exato momento, em razão da invasão do Afeganistão e Iraque, a intolerância espreita os lares americanos esperando uma oportunidade para se manifestar. Novos atentados ocorrerão e desencadearão novas ações militares americanas. O exército brasileiro está se atolando em sangue nas favelas haitianas. Ao contrário dos americanos não corremos riscos. Aqui a violência não é política, mas vinculada à criminalidade e à corrupção. Mesmo assim, estamos diante de uma questão que pode determinar o futuro da civilização brasileira: precisamos entrar na caverna da intolerância?

Fábio de Oliveira Ribeiro

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