REVISTA CRIAÇÃO

NOTAS SOBRE O MITO CRUCIFICADO

A maioria das pessoas acredita que o Novo Testamento foi ditado diretamente pelo altíssimo, por isso tendem a considerá-lo como a revelação da verdade. Em razão disto, estes leitores atribuem um valor absoluta à interpretação literal. Todavia, nem todos pensam assim. Há quem defenda que o Novo Testamento não passa de uma coletânea de histórias, que merecem uma interpretação alegórica. Nosso objetivo aqui não é defender nem uma nem outra posição, mas apenas seguir uma pista aberta por Bertrand Russel.

Em sua História da Filosofia Ocidental , o filosofo inglês percorre as origens do cristianismo. Através de sua obra ficamos sabendo que a cultura grega exercia sobre os judeus uma forte influência à época, principalmente depois que Antioco IV resolveu helenizar todos seus domínios, que abrangiam a Judéia. Antes dele, em 170 AC, depois de coibir uma rebelião na região que eclodiu durante a guerra contra o Egito e Roma, Antioco retirou os vasos do Templo, colocando nele a imagem de Zeus, que passou a ser identificado a Jeová. Feitas estas considerações históricas, Bertrand Russel afirma que:-

" ...É menos o Cristo homem que o Cristo figura teológica que interessa ao quarto evangelista."

Esta observação chamou-nos muito a atenção. Desde logo ela estabelece um abismo entre o deus morto e o homem que morreu na cruz a exemplo de tantos outros. E digo a exemplo de tantos outros, não porque todos tenham se transformado em deuses mas porque a crucificação era muito comum na antigüidade.

Infelizmente Jesus não legou para a posteridade sua doutrina, ou seja, não escreveu sua própria Bíblia, nem ditou-a enquanto estava vivo aos apóstolos. À exemplo de Sócrates contentou-se em transmitir seus preceitos oralmente aos seguidores. Após sua morte, a propagação da religião que teria fundado foi feita primeiro oralmente e depois através dos textos escritos pelos apóstolos.

Sabemos que o cristianismo surgiu do judaísmo, que os judeus sofriam então uma forte influência da cultura grega e que os propagadores da nova fé tinham dois fortes concorrentes:- o judaísmo baseado no Velho Testamento e o culto aos Deuses do Olimpo, cujos feitos maravilhosos foram registrados por poetas como Homero, Ovídio e outros. Assim, para que a nova fé se propagasse cumpria adaptá-la às crenças das gentes a fim de convertê-las.

A história do próprio cristianismo prova que o sincretismo é a maneira mais eficaz através da qual uma fé suplanta outra enquanto convive com ela por algum tempo. A propósito do Novo Testamento, Cesaré Cantú assevera que:-

"O Novo Testamento distingue-se de qualquer outra composição por uma singeleza de expressão vulgar e ingênua, sob a qual se oculta uma simplicidade de pensamento inexprimível. A fim de por o seu profundo sentido ao alcance da inteligência comum, a alegoria transforma-se em parábola; explicação sensível do preceito divino, que bem distante do apuro e da alegoria poética e do símbolo misterioso, expõe as verdades práticas com formas simples e com o aspecto de acontecimento ordinário e se torna, como arte, o modelo de numerosas lendas, produção exclusiva da literatura moderna."

Desde logo fica evidente que o Novo Testamento é tributário de toda literatura que o antecedeu. Além disso, que pretendeu dar-lhe maior popularidade através da clareza da linguagem e da supressão dos mistérios.

A teoria literária moderna postula que é possível rastrear num texto outros textos, aqueles que serviram de base à sua construção. A isto denominou-se intertextualidade. Como os autores do Novo Testamento se apropriaram de toda literatura existente até aquele momento a fim de divulgarem a doutrina do crucificado e conquistarem a adesão dos leitores e ouvintes, procuraremos analisar os textos cristãos comparando-os aos da tradição que existiam até o suplício do Rex Iudeus.


Com exceção do Evangelho de Mateus, onde se lê que Jesus desautorizou os seguidores a chamá-lo "o Cristo", os textos identificaram Jesus ao Messias, que estaria por vir para salvar os judeus segundo o Velho Testamento. Além disso, dois dos Evagelhos ligam Jesus diretamente a David, de quem José seria descendente direto. Como bem observa H.G. Wells :-

"A inserção dessas genealogias é tanto mais estranha e desarrazoada quanto, de acordo com a lenda, Jesus não era de modo nenhum filho de José, mas miraculosamente concebido."

A influência do judaísmo no cristianismo foi maior que gostariam ou imaginam alguns cristãos.

"Este mal foi seguido por outro, que aumentou ainda mais o desejo que os egípcios tinham de nos perder. Um dos doutores da sua lei ao qual eles dão o nome de escribas das coisas santas, e que passam entre eles por grandes profetas, disse ao Rei, que naquele mesmo tempo deveria nascer um menino entre os hebreus, cuja virtude seria admirada por todo mundo, o qual elevaria a glória da sua nação, humilharia o Egito e cuja reputação seria imortal. O Rei, assustado com esta predição, publicou um edito, segundo o conselho daquele que lhe fazia esta advertência, pelo qual ordenava que se deveriam afogar todos os filhos dos hebreus do sexo masculino..."

Josefo refere-se obviamente à história de Moisés tal como ela é contada na Bíblia. Esta história deve ter servido de modelo para o cronista cristão. A exemplo do Faraó, Heródes também foi alertado do nascimento de um hebreu ilustre que colocaria em risco seu poder. Ambos mandaram matar todos os meninos recém nascidos. Entretanto, Jesus salvou-se tal como Moisés e, como ele, também conseguiu concluir sua missão. Um libertou os hebreus do Egito o outro libertou-os do pecado original. As duas histórias tem a mesma estrutura e finalidade:- demonstrar que nada é capaz de vencer a vontade do altíssimo.

Segundo o Novo Testamento, os apóstolos teriam sido ungidos pelo Espírito Santo a fim de cumprirem sua missão. Quando isto ocorreu uma língua de fogo teria aparecido sobre suas cabeças.

"...Pisão escreve que cinco mil cartagineses, enquanto Magão perseguia os nossos, que recuavam em desordem, foram massacrados numa emboscada. Todos esses autores tributam grandes honras ao general Márcio. E à sua glória real acrescenta-se alguns prodígios:- enquanto arengava ao exército uma chama brotou de sua testa sem que ele sentisse, para grande medo dos homens à sua volta."

É evidente que tanto no texto de Tito Lívio quanto Novo Testamento, que foi escrito posteriormente, a labareda de fogo sobre a cabeça simboliza a inspiração divina. Parece que trata-se de uma convenção literária muito antiga. Não, há, portanto, nada de excepcional no relato dos apóstolos. Note-se que o historiador romano não poderia ser acusado de cristão, porque cita autores anteriores e ele mesmo morreu em 17 depois do nascimento de Cristo.

Ainda percorrendo a obra de Tito Livio, deparamo-nos com o seguinte fragmento:-

"Segundo esse autor (Valério Âncias), encontrando-se Quincio em Placência, convidou para a mesa uma cortesã da qual andava enamorado. Durante o repasto, gabou-se diante da mulher de ter conduzido a bom termo, com extraordinário rigor, incontáveis missões de que fora encarregado, e de manter na prisão considerável número de condenados à morte que deveria entregar ao machado do carrasco. A cortesã enrroscada nos braços do consul, disse-lhe que nunca vira cortar uma cabeça e desejava muito presenciar esse espetáculo. O amante, ávido por mostrar-lhe atenção, chamou à sua presença um daqueles infelizes e o decapitou."

Esta história, que ocorreu no século II aC e foi narrada por um autor pré-cristão e citada por outro, é muito semelhante a de João Batista, Salomé e o Rei Herodes contada no Novo Testamento. Os elementos são os mesmos:- o poderoso e a cortesã; o banquete; o pedido de decapitação; a execução do prisioneiro.

A história de João Batista foi escrita alguns anos depois da morte de Jesus. À época, em razão da condenação do mestre, os apóstolos vivam no anonimato. Vários fugiram da Judéia. A história do suplício do pregador é narrada com requinte e detalhes. Mas é impossível que o apóstolo tivesse conhecimento dos detalhes. Ele não presenciou o fato e em razão de sua origem e opção é pouco provável que tenha sido informado por alguns dos cortesãos presentes no banquete em que teria dançado Salomé. As únicas informações que seguramente tinha eram duas:- a prisão de João Batista e sua morte. Assim, ao contar a história é bem possível que tenha acrescentado alguns elementos da matriz romana para dar mais efeito dramático à morte do pregador que batizou Jesus.

Maria teria engravidado virgem. O altíssimo seria pai de seu filho extraordinário segundo a tradição cristã revelada. Há aqui duas questões fundamentais, a concepção virginal e a filiação divina.

Além do contato entre os povos antigos propiciado pelo comércio, os judeus se espalharam pelo mundo depois da destruição do Templo. Certamente entraram em contato com diversos mitos. Nos interessa particularmente o de Tammuz, que está relacionado aos de Adonis, que também era filho de parto virginal.

"O Prof. Henri Frankfort observou em seu comentário desse objeto que cada um de seus elementos foi relacionado, na arte e culto posteriores, com a mitologia do deus Tammuz (Damuzi, na Suméria), morto e ressuscitado, protótipo de Adonis, que era consorte, bem como filho de parto virginal, da deusa-mãe de muitos nomes:- Inanna, Ninhursag, Ístar, Astarté, Ártemis, Deméter, Afrodite, Venus. "

É possível que os escritores dos Evangelhos tivessem conhecimento do mito do nascimento virginal. Se for este o caso, temos que admitir a hipótese de que lhe deram uma nova versão para conferir maior autoridade e vigor à palavra do Messias. Aliada à suposta (e contraditória) descendência de David por parte paterna, a origem virginal certamente daria maior autoridade moral ao personagem Jesus. Além disso assim ele atenderia não somente judeus, mas adeptos de vários outros cultos.

No ano de 431dC, em Eféso, a Virgem Maria foi declarada "Berço de Deus", transformando-se em objeto de culto dos cristãos. A partir de então passou a ser encarada como uma verdadeira deusa-mãe. Esta declaração, que denuncia a persistência do culto à deusa-mãe mesmo após o advento e a expansão do cristianismo, nos permite relaciona-la às outras deusas-mãe cultuadas na antigüidade. Por via de conseqüência, o culto as histórias de seu filho devem estar relacionadas às de Adonis e Tammuz.

Na literatura grega era muito comum os deuses descerem na terra e gerarem filhos. Vários de seus heróis mitológicos foram fruto de uniões entre Zeus e mulheres. Os mais famosos destes semideuses são Hércules e Perseu, filhos respectivamente de Zeus com Alcmena e Dânae. Íon nasceu da união de Creúsa com Apolo. O próprio Aquiles era neto de Zeus e filho de Tétis. A fim conferir maior valor ao fundador de Roma, Virgílio relata na Eneida que ele nasceu da união de Vênus com um homem . Assim, a filiação divina de Jesus não é uma novidade literária.

Segundo o texto cristão, pouco antes do Messias ser preso e imolado, ele revelou sua natureza divina aos apóstolos. Depois de levar os apóstolos a um sítio deserto ele elevou-se aos céus. Então Cristo se iluminou e à sua volta apareceram as figuras dos patriarcas do velho testamento.

Na obra já citada, em que resume os textos da tradição clássica grega, os quais são anteriores ao Novo Testamento, Edith Hamilton relata que:-

"Um brilho fulgurante que vinha do alto incidiu sobre mãe e filho, e ambos ergueram os olhos. Então, toda a angústia que sentiam transformou-se em reverência e maravilha. Acima deles pairava uma forma divina, bela e majestosa para além de toda comparação possível.

"Sou Palas Atena" disse a aparição. "Apolo pediu-me que aqui viesse para dizer que Íon é filho dele e teu." Foi ele quem o tirou da caverna onde o havias deixado."

Em outra passagem, Atena surge da mesma forma:-

"...Enfurecido, o rei estava saindo do templo para prender e mandar matar os desconhecidos e a traiçoeira sacerdotisa quando, de repente, viu que sobre ele pairava uma forma radiante - tratava-se, sem dúvida, de uma deusa. Toas recuou, e o medo imobilizou-lhe os passos.

"Para ó Rei!" disse a divindade. "Sou Atena, e ordeno-te que deixes o barco partir."

Nos dois fragmentos acima vemos a mesma cena reproduzida no Novo Testamento:- a divindade que paira iluminada sobre os espectadores atônitos. Alguns poderão objetar que no caso de Jesus, ele mesmo revelou sua natureza divina. É verdade, há uma pequena variação entre as histórias gregas e a cristã, quiçá em razão da dupla natureza do imolado:- homem histórico e filho de Deus. Entretanto, a variação é menor que a identidade. Trata-se, portanto, da mesma imagem ou convenção literária reproduzida com um colorido diferente.

Os principais feitos maravilhosos do Messias cristão foram:- curar as chagas dos doentes, andar sobre as águas, multiplicar os pães, indicar onde se encontravam os peixes, reviver um morto, vencer satã no deserto, ascender ao céus e iluminar-se, vencer no Templo o debate com os rabinos, aparecer depois de morto aos apóstolos, renascer para a vida eterna, livrar os homens do pecado original e velar por suas almas no reino dos mortos. Ao todo temos aqui doze grandes proezas, o mesmo número das tarefas conferidas a Hércules, que também era filho de um deus.

Tanto Hércules quanto Jesus realizaram prodígios na infância que atestaram sua condição de seres maravilhosos. Enquanto era apenas um bebê, o herói grego agarrou duas serpentes que ergueram-se por sobre seu berço esmagando-as. Como todos sabem Jesus foi o único que escapou ileso à execução dos bebes ordenada por Herodes.

Hércules era um homem muito forte, Jesus também. A diferença é que a força do primeiro era física e a do segundo moral. Ambos estiveram entre os mortos. Hércules desceu ao Hades (ad inferus = inferno = reino dos mortos, que fica embaixo da terra) onde libertou Teseu da cadeira do esquecimento. Jesus penetrou no sepulcro de Lázaro trazendo-o novamente à vida. Note-se que no último caso o corpo do morto estava numa caverna, que simboliza as entranhas da terra ou o inferno.

A exemplo do semideus grego, o Rex Iudeus também tinha seus acessos do fúria. Num deles Hércules cometeu "...o assassinato de um bom amigo, a fim de vingar-se de um insulto que lhe fora dirigido pelo pai do jovem, o rei Êurito" . Jesus atacou ferozmente os vendilhões do templo imprecando contra sua conduta e virou as barracas onde se encontravam as mercadorias. É claro que o personagem cristão tinha um autocontrole maior que o grego, mas sua tolerância também tinha limite.

Ambos encontraram a morte através da traição. Jesus foi vendido aos romanos por Judas. Hércules vítima de um encantamento mortal preparado pela esposa em razão do ciúmes que ela sentia da princesa Iole, por quem o herói se apaixonara. Após a morte, ambos foram levados para o céu. O semideus foi perdoado por Hera e casou-se com Hebe, o Messias sentou-se ao lado do altíssimo.

É claro que há uma diferença entre os dois. Jesus se manteve casto enquanto Hércules desvirginou dezenas de jovens numa só noite. Mas apesar dos autores terem lhes conferido opções sexuais distintas, a natureza e o caráter de ambos personagens são muito parecidos. Afinal, ambos levaram ao extremo suas opções sexuais.

Os textos que tratam de Hércules enfatizam que ele não era lá um herói muito inteligente:-

"A inteligência nunca esteve muito presente nas coisas que fez e, na verdade, é a grande ausente em todos seus feitos e proesas."

Ao contrário do herói grego, Jesus é descrito com um homem sábio. Mais que isto, como um homem astuto. Ao ser questionado pelos rabinos no Templo sobre o que deveria ser feito em relação a Roma, Jesus pediu uma moeda perguntando qual era a imagem que estava gravada nela. Quando responderam que era a de Cesar, disse que se deveria dar a ele o que lhe pertencia.

A astúcia parece que Jesus herdou de Perseu. O semi-deus grego tinha que matar Medusa mas não podia olhar diretamente para ela porque se o fizesse seria transformado em pedra. Então, guiando-se pelo reflexo da Medusa em seu escudo, Perseu conseguiu cortar sua cabeça. Apesar das diferenças é notável a semelhança entre as histórias. Nos dois casos os personagens deparam-se com um inimigo poderoso que não podem enfrentar diretamente. Ambos alcançam a vitória através de um ardil.

Além da força miraculosa de Hércules e da astúcia de Perseu, a Jesus foi ainda atribuída a coragem de Teseu. O Novo Testamento relata que o Messias enfrentou e venceu sozinho satã, o mais poderoso inimigo do povo eleito por Jeová. Teseu venceu sozinho o Minotauro, um ser diabolicamente poderoso. Alguns podem objetar que Teseu realizou o prodígio num espaço fechado e Jesus num espaço aberto. Mas isto não importa, porque nos dois casos a desorientação produzida pelo deserto ou pelo labirinto é vencida da mesma forma. Ambos usaram um fio condutor para manter-se ligados ao seu destino. No caso de Teseu este fio é real (novelo lhe dado por Ariadne) no de Jesus abstrato (fé no Pai).

Há uma clara semelhança entre o relato do Cristo pregado na cruz e o mito de Prometeu registrado por Ésquilo. Por ter dado aos homens o conhecimento do domínio do fogo, Prometeu foi acorrentado numa rocha escarpada no Cáucaso. Em razão de divulgar uma doutrina perigosa, Jesus foi pregado na cruz. Ambos tiveram os pés e as mãos imobilizadas. Em ambos os casos a condenação foi injusta, pelo menos se considerarmos os benefícios que produziram para os homens. Nos dois casos temos a transgressão, a natureza divina do condenado e a inutilidade da pena. No caso do deus grego os homens já tinham se apropriado do fogo, no do Cordeiro de Deus já havia sido transmitida sua mensagem, que foi reforçada através da imolação do deus vivo.

Segundo o Novo Testamento Jesus pode ser considerado legítimo rei dos hebreus por dois motivos. É filho de Deus, portanto, seu representante na terra. Além disso, seu pai terreno, José, descenderia diretamente de Davi. Mas ao contrário dos outros reis, Jesus não viveu cercado de riquezas. Ao contrário, palmilhou humildemente a Judéia ensinando e acabou sendo crucificado para libertar seu povo do pecado original e da dominação romana. Aliás, de frisar-se que antes mesmo de ser preso Jesus sabia que seria traído e nada fez para escapar ao seu destino.

A lenda ateniense de Crodo, que explica porque a Ática não sofreu com as invasões dóricas, relata uma trajetória muito parecida:-

"A lenda atribuía, porém, este fato ao heroísmo de Crodo, rei de Atenas, que, tendo consultado o oráculo sobre o resultado da guerra com aqueles invasores, recebera a resposta de que venceria o povo cujo rei perecesse na batalha. Vestido de camponês, este monarca introduziu-se nas fileiras inimigas, onde encontrou a morte. Libertou, desta forma, o seu povo do jugo dos Dórios, que não conseguiram ocupar a Ática."

A história de Jesus é muito semelhante a de Crodo. Ambos são reis legítimos. Ambos apresentam-se de maneira humilde e morrem para libertar seu povo. E o que é mais importante, ambos não procuraram evitar seu destino. Ao contrário sabendo o que ocorreria, deixaram-se capturar pelo inimigo.

Cristo teria morrido na cruz ao 33 anos, a mesma idade que tinha Alexandre o Grande quando faleceu em 323 aC. Alexandre morreu no auge de sua glória, após submeter a Grécia e a Pérsia e fazer da Macedônia o maior império da antigüidade. Segundo o Novo Testamento, Jesus alcança a glória morrendo na cruz para libertar toda humanidade do pecado original. Não obstante o texto cristão partir do pressuposto de que a glória de Cristo é maior e mais perene que a de Alexandre, é óbvio que o autor cristão se inspirou neste personagem que acabou se transformando numa espécie de culto de todos os povos antigos. Por fim, a exemplo de Alexandre, Jesus também é descrito como filho de um deus.

"Fundou a cidade de Alexandria, que fez esquecer, pelo seu brilhantismo, pela sua cultura, pela sua prosperidade econômica, todas as grandezas faraônicas; e visitou o oásis de Amom, cujo oráculo o considerou como filho de Zeus."

Do mito de Dionisio os cristãos parecem ter retirado dois elementos fundamentais:- a morte e renascimento e o culto do vinho. Segundo as lendas o deus do vinho morria toda vez que chegava o inverno para renascer na primavera. Seu atributo era o vinho, que fazia dele um deus ao mesmo tempo alegre e por outro agressivo e intolerante:-

"O culto de Dionísio centrava-se nessas duas concepções tão distantes entre si - por um lado, a liberdade e a alegria arrebatadora, e, por outro, a brutalidade selvagem."

Jesus também morreu e renasceu e, curiosamente, na última ceia teria mandado os apóstolos consumirem o vinho porque ele era o seu sangue. Aparentemente o Messias não tem o mesmo caráter contraditório que Dionisio. Todavia, a crueldade que o deus e seus seguidores exteriorizavam, Jesus sugeria aos seus seguidores que interiorizassem, a fim de, negando os prazeres terrenos, poderem desfrutar o supremo prazer no reino dos céus. O prazer não é suprimido, mas apenas transformado em uma categoria mística, pois sem ele não haveria motivo para tanta privação.

Existem semelhanças entre a saga do crucificado e o mito de Orfeu. Ambos desceram aos infernos por amor e tiveram um fim trágico. A musica através da qual Orfeu domesticou os animais pode muito bem ser comparada às doces palavras através da quais Jesus civilizou seus seguidores, ensinando-os a apartar-se daquilo que há de bestial na natureza humana.

Ao tratar das manifestações primitivas da arte cristã nas catacumbas romanas, Jose Pijoan afirma que:-

"Orfeo pareció a los primeros cristianos una figura profética de Jesús: com sus cantos había levantado las murallas de la ciudad ideal; por el amor hábia descendido a los infiernos en busca de su amada esposa, y su trágico fin podía interpretarse muy bien como una profecia del terrible drama del Calvario."

As afirmações de Jose Pijoan ilustram como o cristianismo teve sucesso em libertar-se dos mitos em que se inspiraram os escritores do Novo Testamento. A matéria prima empregada na composição dos textos sagrados aparece, posteriormente, apenas como uma reinterpretação dos mitos antigos a partir do referencial cristão (como se os evangelistas não tivessem se inspirado neles).

As relações entre os textos do Novo Testamento e a tradição literária anterior são maiores do que pensamos. H.G. Wells assegura que:-

"Os primeiros dos três evangelhos, os de Mateus, Marcos e Lucas derivam de documentos anteriores; o Evangelho de São João tem mais originalidade e características pessoais e é colorido por teologia de tipo fortemente helênica."

Adiante, o mesmo autor informa que Saulo de Tarso ou Paulo:-

"... foi, provavelmente, judeu, embora alguns escritores judeus o neguem; certamente estudou com mestres judeus. Era, entretanto, bem versado nas teologias helênicas de Alexandria e sua língua era o grego."

Paulo foi sem dúvida o responsável pela romanização do cristianismo. Em suas epístolas, é impossível deixar de perceber ecos dos sacrifícios rituais celebrados em todo o mundo antigo e particularmente em Roma. A única diferença é que o sacrifício que antes era feito com animais e pessoas passa a ser apenas simbólico.

"O que será claro para qualquer que leia as suas epístolas, lado a lado com os Evangelhos, é que o seu espírito estava saturado por uma idéia que não aparece de modo algum em proeminência nas palavras e ensinamentos que ficaram de Jesus, a idéia de uma pessoa destinada ao sacrifício e oferecida a Deus como reparação e em expiação do pecado. O que Jesus pregou foi um novo nascimento; o que Paulo pregou foi a antiga religião do sacerdote e do altar e do derramamento de sangue propiciatório."

É nos textos de Paulo que o homem-deus se torna o Cordeiro, a vítima ritual que é imolada para apaziguar a ira divina. Mas a partir do momento em que ele foi crucificado se tornaram desnecessárias novos sacrifícios reais, o ritual simbólico é capaz de restabelecer a harmonia desejada pelos pecadores. Para H.G. Weels foram os textos de Paulo que desencadearam o retorno ao culto da deusa-mãe pelo Concílio de Eféso em 431dC.

"As contribuições do culto alexandrino ao pensamento cristão e às suas práticas foram ainda mais consideráveis. Na pessoa de Horus, que era ao mesmo tempo filho de Serapis e identico a Serapis, era natural que os cristãos fossem encontram uma analogia esclarecedora para as suas lutas com os mistérios paulinos. Daí para a identificação de Maria com Isis e a sua elevação a nível quase divino - a despeito das palavras de Jesus a respeito de sua mãe e irmã* - era também um passo natural." (*Mateus, XII, 46-50)

Mais adiante, na mesma obra, Weels idêntica o culto criado por Paulo ao mitraismo:-

"...todos os santuários mitraicos, parece, apresentavam a figura de Mitra matando esse touro, que sangra copiosamente de um ferimento do flanco e deste sangue é que brota a vida nova. O devoto mitraista banhava-se realmente neste sangue do touro do sacrifício e por este meio "nascia de novo".

O devoto mitraista nascia de novo como o cristão renasce ao tomar o vinho após ele ser miraculosamente transformado em sangue do deus-morto. Assim, os mitos associados ao sacrifício ritual também foram agregados à história de Jesus a fim de aumentar o potencial de conversão.

É claro que houve uma significativa modificação no sacrifício ritual. Afinal, se antes as vítimas eram sacrificadas para aplacar a cólera dos deuses ou conjurar seu auxílio, agora é o próprio deus-morto que é imolado em benefício dos devotos. Como além de deus-morto Jesus também foi um homem, segue-se que pode-se fazer uma associação entre o ritual do pão e do vinho e o sacrifícios de vítimas humanas que eram praticados entre os fenícios. Como nos informa A..G. Mattoso:-

"As escavações recentes revelaram a prática revoltante de sacrifícios humanos, a que aludiam os escritores clássicos. Por ocasião das grandes calamidades, segundo Phílon, era costume sacrificar os filhos mais queridos, a fim de apaziguar os deuses com o sangue de vítimas inocentes."

Quem poderia ser mais querido para Deus que seu filho? Sacrificando-o em benefício dos homens Deus teria demonstrado seu amor ilimitado por todos nós, tornando desnecessários outros sacrifícios. Repetindo-o ritualmente, os cristãos estariam apenas renovando o novo pacto celebrado com a divindade. E assim a nova religião habilitou-se para receber adeptos entre os fenícios e povos sob sua influência.

Há, ainda, um certo parentesco entre o mito do crucificado e o de Osíris. A idéia de que os homens são julgados por suas ações é fundamental nos textos do Novo Testamento. Deste julgamento depende a entrada dos fieis no Paraíso, que é reservado aos puros de coração. Esta idéia, que sugere a necessidade de um julgamento, é idêntica à do deus dos mortos:-

"Depois da morte, a alma comparecia na sala da "dupla justiça", perante um tribunal, composto por 42 divindades, presididas por Osíris. Apresentada uma balança, num dos pratos era lançado o coração do defunto, isto é, a sua consciência, pesada ou levem conforme as faltas. No outro prato, figurava a verdade, representada por uma estatueta da deusa Maat. Conforme o resultado, o morto era admitido aos gozos do paraíso ou condenado aos suplícios do inferno."

Retirados os adornos que são próprios da mitologia egípcia, podemos identificar Jesus com Osíris. Ambos presidem um julgamento. A pureza do coração é a medida absoluta da bem-aventurança e a culpa razão do suplício.

A idéia de um julgamento após a morte também está presente na mitologia grega:-

"A alma, depois da morte, comparecia a um tribunal supremo, onde era julgada. Considerada justa, partia para os Campos Elísios, onde reinava a felicidade eterna; julgada culpada, descia ao Tártato, lugar de suplícios e dores infinitas."

As trindades concebidas no Novo Testamento (Pai, Filho e Espírito Santo/José, Maria e Jesus), correspondem a duas outras anteriores cultuadas por egípcios e caldeus. A principal trindade egípcia, Osíris, Isis e Hórus (respectivamente pai, mãe e filho), equivale de certa maneira à José, Maria e Jesus. Note-se que Hórus vence definitivamente o mal exatamente como Jesus (Set, no caso, pode ser identificado a Satã). Entre os Caldeus Anu, Enlil e Ea, representam respectivamente o deus superior, o senhor da terra e o pai da civilização, da arte e do conhecimento . Os atributos de Anu, Enlil e Ea correspondem quase exatamente aos de Deus Pai (criador), Filho (o deus-vivo que ensina o caminho da bem aventurança) e Espírito Santo (que inspira a verdadeira religião, o verbo divino e portanto o conhecimento).

Um dos principais atributos de Jesus é curar os doentes. Este seu poder pode estar relacionado ao culto de Eshmun, que era venerado pelos fenícios como o Deus da Saúde. O culto das divindades fenícias pelos hebreus é relatado no Velho Testamento.

"Depois da morte deste rei, seguiram-se várias revoluções, até que subiu ao trono Itobaal, pai de Jesabel, que, tendo casado com Achab, rei de Israel, conseguiu introduzis na Palestina o culto das divindades de Tiro. A Influência dos Fenícios manteve-se entre os Hebreus até o momento em que os profetas levantaram a voz contra os falsos deuses estrangeiros."

O Novo Testamento relata que quando Jesus nasceu teria sido avistada uma nova estrela no firmamento, a qual teria guiado até ele os reis magos. É obvio que esta estrela simboliza a origem divina do deus-vivo pela simples relação que se pode fazer entre ela e a morada do deus (céu). Mas a referência à estrela também designa, de certa maneira, a existência de um destino especial que é desde sempre atribuído àquela criança, cujo nascimento é prenunciado no céu de maneira tão espetacular. Neste particular o texto do Novo Testamento parece ter recebido influência do mazdeísmo, religião dos persas que foi compilada por Zaratustra ou Zoroastro no Avesta por volta do século do século III aC. É provável que os escritores cristãos tenham conhecido as particularidades desta tradição, afinal Ciro:-

"...entregou aos Judeus os vasos preciosos, roubados do Templo; e voltou à pátria coberto de glória. As suas atenções para com os Judeus acarretaram-lhe simpatias e adesões."

A principal diferença que existe entre o mito do crucificado e os mitos dos quais ele deriva é o fato de Jesus ter sido um homem. Mas isto também não pode ser considerada una inovação excepcional dos escritores cristãos. Os judeus já conheciam a divinização do homem desde que estiveram no Egito, onde o Faraó não era apenas um representante de deus, mas um deus vivo. Quando foi coroado Rex Iudeus os imperadores romanos já eram venerados como se fossem verdadeiros deuses. A única diferença entre o Messias e os governantes divinizados é socio-político.

Enquanto o Faraó e o Imperador detinham o poder político em razão do fundamento divino, o pregador da Judéia descrito pelos três primeiros evangelistas, sobretudo Thiago e Mateus, andava maltrapilho de cidade em cidade ensinando parábolas singelas de fundo moral elevado. Mas esta novidade, que tinha um potencial realmente revolucionário, acabaria sendo soterrada pelos outros mitos que foram sendo agregadas à ela pelos evangelistas no afã de conseguir adeptos. No final, até mesmo o homem que originou o mito acabou sendo ofuscado pela imagem que criaram dele (imagem que talvez não desejasse). Mas isto não importa, porque como ensina Joseph Campbell o propósito da mitologia sempre foi e sempre será:-

"... não fundamentalmente iluminar a mente com respeito à natureza do universo, mas criar comunidades de experiência comum para engajar os valores do indivíduo em crescimento nas questões de interesse fundamental do grupo local."

E mais:-

"Funcionando como um "caminho", a mitologia e o ritual levam a uma transformação do indivíduo, desprendendo-o de suas condições históricas locais e conduzindo-o para algum tipo de experiência inefável. Funcionando como uma "idéia étnica", por outro lado, a imagem prende o indivíduo ao seu sistema de valores, atividades e crenças historicamente condicionadas, como membro ativo de um organismo sociológico."

A partir das idéias de Campbell, poderíamos de concluir que, na pior das hipóteses, o mito do crucificado é um caminho. Que poderia não ser o melhor, mas pelo menos teria tornado desnecessário o sacrifício ritual de vítimas reais na medida em que elevou-o ao plano simbólico. Que seria potencialmente mais inofensivo que o mito do herói, pois a partir dele os grandes feitos teriam se tornado dispensáveis. Que o consumo do vinho passaria a ser ritual evitando-se os excessos que são prejudiciais. Que teria a virtude valorizar a piedade.... Gostaríamos mas não podemos defender esta tese.

Em princípio, a abolição do sacrifício ritual não foi uma novidade introduzida pelo cristianismo. Isto já havia ocorrido no período helenístico, mais ou menos três séculos antes de Jesus palmilhar a Galiléia:-

"Obsérvese que estos altares descomunales no se destinaban para hacer sacrificios, ni aun para mantener um fuego sagrado, y el Zeus helenístico, convertido en un dios universal que sintetiza a todos los dioses, no necessitava ofrendas, ni víctimas, ni incienso: el altar era um símbolo de su unidad y omnipresencia."

Além disto, justamente em razão de ser a síntese de diversos mitos (nem sempre compatíveis entre si), o mito do crucificado é incapaz de fornecer um único caminho. Ao contrário, não só fornece muitos caminhos como suas contradições podem ser usadas para desencadear a passionalidade e a crueldade de seus seguidores.

E estes dois mil anos de cristianismo estão mais cheios de vítimas do mito do crucificado do que ficou o Monte Gólgota no dia da execução do pregador nazareno. O que prova que fazendo o que ele não fez, ou seja, escrevendo uma doutrina e atribuindo-a a ele, os evangelistas bem intencionados talvez tenham conseguido o contrário do que ele pretendia. Mas nunca poderemos ter certeza disto, porque não sabemos exatamente qual foi sua doutrina.

De qualquer maneira, depois destas considerações chegamos a um verdadeiro paradoxo:- para seguir Jesus é preciso negar o cristianismo, negando-o nada resta a ser feito porque o mestre não indicou o caminho. Este paradoxo não pode ser resolvido, portanto, deve ser negado. Negando-o resta-nos apenas viver a vida da melhor maneira, pois não é necessário fazer nada de especial, nem mesmo procurar um caminho, a não ser o de Pedro (a rocha sobre a qual foi erguida a Igreja de Jesus justamente porque o apóstolo negou-o três vezes).


Fábio de Oliveira Ribeiro


BIBLIOGRAFIA

História da Filosofia Ocidental, livro segundo, Codil, São Paulo, 3ª ed., 1969.

História da Civilização, António G. Mattoso, vol. 1, 3ª edição, Lisboa, 1947.

Historia Del Arte, José Pijoan, Salvat Editores, Barcelona, 1951.

História dos Hebreus, Flavio Josefo, vol. 1, Editora das Américas, São Paulo, 1958.

História Universal, H.G. Wells, vol. 3, 9ª edição, Edigraf, São Paulo, 1972.

História Universal, Césare Cantú, vol. 7, editora das Américas, São Paulo, 1963.

A História de Roma, Tito Lívio, 3º volume, livro XXV, Paumape, São Paulo, 1ª ed., 1990.

A História de Roma, Tito Lívio, 5º volume, livro XXV, Paumape, São Paulo, 1ª ed., 1990.

As Máscaras de Deus, Mitologia Oriental, Joseph Campbell, Palas Atena, São Paulo, 2ª ed., 1995

As Mascaras de Deus, Joseph Campbell, Mitologia Primitiva, Palas Atena, 3ª ed., São Paulo, 1994.

Mitologia, Edith Hamilton, Martins Fontes, São Paulo, 1999

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