REVISTA CRIAÇÃO

UMA NOVA ONDA?

Há bem pouco tempo vimos Paris em chamas em razão dos protestos
realizados pelos descendentes de trabalhadores árabes. Garotos que não foram assimilados pela cultura e economia francesas apesar de terem nascido em solo francês.

Uma parte da imprensa desdenhou o problema, qualificando os manifestantes de "estrangeiros", "baderneiros", "incendiários", "bárbaros", "radicais islâmicos" e "jovens agressivos". Poucos foram os jornalistas que compreenderam o problema e admitiram que havia algo errado com a pacífica, moderna e desenvolvida civilização ocidental.

As atuais manifestações, patrocinadas por adolescentes tipicamente franceses (alvos como a neve e de olhos claros), despertaram pouca indignação. Não é preciso fazer uma amostragem muito grande para verificar que as expressões utilizadas para designar os manifestantes mudaram: eles são chamados de "jovens indignados", "estudantes descontentes", "garotos preocupados com o desemprego", etc...

É impossível deixar de perceber a sutileza da distinção de cobertura.
Ninguém questionou o direito dos franceses de manifestar-se contra o
governo. Mas como os descendentes de imigrantes árabes não são considerados "franceses", eles não tinham o direito de fazer o que fizeram.

A despeito da cobertura feita pela mídia é impossível deixar de perceber uma certa simetria no comportamento dos franceses (quer sejam jovens brancos de olhos claros ou filhos de imigrantes árabes). O descontentamento é gera e prova que há algo de podre no velho continente.

O crescimento populacional europeu estacionou há bastante tempo e a
expectativa de vida aumentou. À medida que as populações de vários paises da Europa envelhecem crescem as despesas com as aposentadorias e pensões. Isto drena a capacidade do Estado de atender às reivindicações e necessidades das gerações mais jovens. Os políticos europeus, que administram e legislam com um olho na arrecadação e outro no eleitor, fazem de conta que ignoram o problema e se mantém no poder com os votos das gerações mais velhas.

O conflito de gerações na França está apenas começando. É bem possível que se espalhe para outros países europeus com populações envelhecidas. Se as distorções não forem corrigidas, o conflito tende a se tornar crônico e será potencialmente mais danoso para a Comunidade Européia do que qualquer atentado terrorista.

Quase todas as tentativas de reformas previdenciárias acabaram abortadas ou minimizadas no velho continente. As gerações mais velhas não aceitam abrir mão de seu conforto e também sabem como defender seus direitos. As gerações mais novas estão frustradas porque não conseguem um lugar ao sol.

O destino das sociedades européias será selado pela reação dos políticos às manifestações. Se atenderem às reivindicações dos jovens às custas dos direitos das gerações mais velhas, eles perderão sua base de sustentação. Se agradarem seus eleitores mais velhos, fomentarão o ódio dos adolescentes frustrados e cada vez mais violentos. Em qualquer das hipóteses os conflitos podem comprometer o desempenho econômico da Comunidade Européia e, portanto, a capacidade dos Estados de arrecadar e pagar aposentadorias e pensões alimentando mais disputas.

Os incidentes na França podem não ser apenas fenômenos passageiros, mas o princípio de uma grande onda. Quando a mesma se avolumar e quebrar no velho continente, a América Latina poderá colher os frutos em forma de novos investimentos, instalação de novas empresas, etc... Um processo traumático para os europeus pode ser bastante proveitoso para os brasileiros.


Fábio de Oliveira Ribeiro

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