REVISTA CRIAÇÃO

O CARNAVAL É O BRASIL


Imaginem um templo em que os touros eram sacrificados para permitir aos fiéis se purificarem e renascerem banhados no sangue do animal. Imaginem um tempo em que os neófitos eram embriagados, submetidos brutalmente à sodomia, obrigados a matar seres humanos e a preservar os segredos do culto sob pena de perder a vida. Imaginem o vento de renovação que fez ruir templo do touro e tempo do vinho, acarretando a supressão dos sacrifícios de seres vivos e a realização de guerras que duraram décadas, séculos, exigindo dos novos fiéis brutalidades maiores do que as que eram praticadas nos tempos antigos.


Se sua imaginação não é fértil, recorra a um bom livro de história. Assim você descobrirá as características do mitraísmo, ficará horrorizado com a brutalidade dos mistérios de Baco e paralisado ante as carnificinas patrocinadas pela intolerância do cristianismo medieval. Mas não se engane, elementos do culto de Mitra e de Baco foram preservados e reinterpretados pelos primeiros escritores cristãos.


Cristo é uma versão atualizada, pacificada, humanizada de Mitra e de Baco. A renovação simbólica do sacrifício do filho de deus substituiu a morte concreta do touro, mas o efeito é o mesmo: purificação pelo sangue. Como Baco, Jesus também sobreviveu à morte e ofereceu aos seus seguidores o do vinho. O vinho de Baco se tornou o sangue de Cristo para que o culto de Mitra pudesse ser renovado.


Quando aqui chegaram os portugueses trouxeram para o Brasil o cristianismo, portanto, elementos do mitraísmo e dos mistérios de Baco. O contato destes fragmentos da antiguidade com a cultura dos índios e negros produziu o carnaval. Nosso carnaval é, portanto, uma festa pagã de um renovado paganismo.


O carnaval é a essência do Brasil. O Brasil é esta celebração da união caótica dos cultos da antiguidade (Mitra e Baco) com o novo paganismo (de índios e negros). Ironicamente, esta união foi sacramentada a ferro e fogo pela brutalidade do cristianismo medieval (mas não pela vontade dos cristãos). Na verdade, o próprio carnaval atenuou temporariamente a brutalidade cristã por intermédio da renovação do paganismo antigo e da preservação do paganismo nativo e africano.


Assim como surgiu a festa popular (POPULAR e não COLONIAL) foi preservada pela população. Hoje é carinhosamente incentivada pelo Estado, de olho nos lucros econômicos e políticos que a mesma possibilita aos descendentes dos colonos e seus novos sócios (donos de hotéis de alto padrão, empresas de turismo, companhias aéreas, embarcações de luxo, etc).


No dia em que o carnaval deixar de existir como festa popular e fonte de negócios para a elite, o Brasil entrará num processo irreversível de autodestruição. Afinal, só o caótico carnaval é capaz de sustentar e preservar inabaláveis as contradições sócio-econômicas deste país.


Fábio de Oliveira Ribeiro

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