O
ESPAÇO CRÍTICO DE VIRILIO
Paul Virilio é, sem dúvida alguma, um dos maiores e mais influentes críticos da era digital. Suas obras se tornaram referência necessária para todos os analistas modernos. É inevitável recorrer a ele, quer discordemos ou concordemos com suas idéias. Não é a toa que os roteristas de Matrix, o maior "cult movie" do ano 2000, admitiram terem sido profundamente influenciados pelo aspecto sombrio de sua obra. Portanto, analisar um livro de Virilio não é tarefa muito fácil. Não obstante, não podemos nos furtar a fazer algumas reflexões sobre O Espaço Crítico. Logo no primeiro capítulo, Virilio ataca o que considera a maior deformação produzida pelas inovações tecnológicas:- o falso-dia eletrônico. O autor parece não perceber que há uma profunda relação de continuidade entre o domínio do fogo, a invenção da lâmpada e o advento da televisão e do computador. Desde os primórdios o homem sempre procurou se libertar das limitações impostas pela natureza. Apartar-se da natureza é uma conseqüência da humanidade e um indício de civilidade. Foi criando um falso-dia através de fogueiras noturnas e afastando-se da luz do dia no fundo de uma caverna que nossos ancestrais se tornaram humanos. O falso-dia eletrônico não é, portanto, uma inovação tão alarmante. É apenas uma conseqüência necessária da evolução técnica de nossa espécie. Desde que dominou o fogo o homem mudou profundamente sua relação com a natureza. Todas as inovações técnicas subseqüentes, como a metalurgia, a construção de motores, de geradores de energia elétrica, a invenção da TV e do computador dependem necessariamente do primeiro grande salto em direção à civilização. Se não tivesse dominado o fogo na aurora dos tempos, o homem não fundiria e moldaria os materiais resistentes que possibilitaram as outras inovações tecnológicas. Não é a toa que, por mais que evolua, a humanidade ainda continuará dependendo por muito tempo do fogo. O fogo é a ponte que une o abismo existente entre o homem moderno e seu ancestral primitivo. É por isto que não há diferença qualitativa entre um cidadão francês ou americano do século XXI diante da tela de um computador e um xamã primitivo transmitindo oralmente a tradição diante de uma imagem pintada na parede de uma caverna à luz de uma fogueira ou de uma tocha. Nos dois casos a iluminação é artificial e envolve um processo quase mágico de absorção de informações. Pode-se objetar que o contato homem/máquina é diferente do que existe entre homem/homem. Isto pode até ser verdade, mas também é verdade que o contato homem/máquina é apenas uma outra forma de representar o contato homem/homem que construiu, programou e comunicou através da máquina. Além disso não podemos nos esquecer que o xamã é um vetor, um intermediário, entre o ser divino e os homens. Nesse sentido o contato entre o xamã e o neófito também é mediado por uma interface, exatamente como o contato entre os homens através da máquina. Desde que dominou o fogo o homem se tornou humano justamente porque modificou sua relação com o tempo e o espaço. Na era digital ele continua seguindo seu destino iluminado. Paul nega esta relação de continuidade e dependência entre o moderno e o antigo. Por isto se assusta diante do fato de que as telecomunicações proporcionam a inversão na relação chegada/partida. Esta inversão, entretanto, não representa um rompimento com o passado da espécie. Através de rituais propiciatórios nossos ancestrais procuravam abater mentalmente a caça antes mesmo de iniciar a caçada. A simulação é um componente importante de todas as culturas (primitivas ou modernas). A informática nos permite apenas simular de outra maneira. O Espaço Crítico é um livro alarmista:- "Se no século XIX a atração cidade/campo esvaziou o espaço agrário de sua substância (cultural e social), no final do século XX é a vez do espaço urbano perder sua realidade geopolítica em benefício único de sistemas instantâneos de deportação cuja intensidade tecnológica perturba incessantemente as estruturas sociais; deportação de pessoas no remanejamento da produção, do face a face humano, do contato urbano para a interface homem/máquina." Vê-se que o autor acredita piamente que o espaço/tempo instaurado pela era "high tech" substitui o espaço/tempo real, que é aquele em que os usuários se encontram quando estão diante do computador estudando, surfando ou simplesmente saboreando um hambúrguer diante da tela desligada do computador. A generalização feita por Virilio é, no mínimo, absurda. Ela pressupõe que os usuários ficarão conectados 24 horas por dia na rede, exatamente como os seres humanos que fornecem energia à Matrix no filme de nome análogo. Sua teoria só será verdadeira quando as máquinas forem capazes de satisfazer todas nossas necessidades orgânicas. Felizmente isto não ocorreu e não ocorrerá tão cedo, pelo menos enquanto os seres humanos tiverem corpos orgânicos. Segundo o analista, as novas tecnologias abolem a dimensão física. Talvez isto seja verdade. Mas a questão não é esta. É outra. Serão elas capazes de abolir a própria física ou as necessidades orgânicas dos seres humanos? A CNN realmente pode criar uma ilusão de inexistência de distâncias através da transmissão de notícias do mundo inteiro 24 horas por dia. Todavia, Ted Turner não pode me impedir de deixar de prestar atenção no noticiário por causa de meu gato nem me obrigar a levar o televisor ao banheiro. O contato face a face é indispensável para o processo de socialização segundo Paul. Ele tem razão neste ponto. Só que o contato face a face não impediu a coisificação do homem no mundo antigo. Os espartanos não tinham computadores e assim mesmo eles escravizaram ferozmente os hilotas. Roma não tinha servidores de última geração e construiu um império de servidão baseado na violência e na segregação social (romano civilizado sujeito de direitos x bárbaro). Clemente V não precisou mandar um e-mail para Felipe, o Belo, a fim de autoriza-lo a queimar os templários. Civilização e barbárie coexistem em toda história da humanidade. Não é um privilégio da era "high tech" e nem será uma conseqüência necessária da inexistência de contato face a face propiciado pela rede de computadores. O autor demonstra uma preocupação exagerada com a demolição das grandes cidades. Isto estaria se tornando um negócio lucrativo... Desde que dominou o fogo o homem nunca parou de reorganizar o espaço urbano. Construir e demolir é uma atividade "natural" para nossa espécie. Cada geração tem suas prioridades, preferências estéticas e necessidades religiosas. Isto acaba se refletindo no espaço urbano e nas edificações. É por isso que nossas cidades não são uniformes, mas um mosaico das mais diversas tendências arquitetônicas e urbanísticas. Elas sempre adquirirão novas características em detrimento das velhas tendências. As cidades são como os homens, elas nascem, crescem e morrem. A morte é uma fatalidade que qualquer homem de bom senso tem que aceitar. Nenhuma geração tem direito de dizer a outra:- "Eis a cidade, deixem-na como está". Para levantar o Coliseu, Vespasiano teve que mandar demolir a estátua colossal de Nero que havia no local. A propósito, a demolição do colosso de Nero, de outros monumentos e de cidades inteiras na antigüidade também deve ter gerado empregos, lucros... Virilio não se conforma com a destruição de algumas cidades e o inchaço de outras. Gostaria que as coisas ficassem como estavam antes da revolução digital. É evidente que ele sente-se pouco a vontade diante de tantas mudanças. Ao lamentar o processo de demolição das cidades, o crítico adota uma perspectiva romântica. Isto não deixa de ser irônico. Afinal, foi justamente o romantismo que criticou os males advindos da urbanização e também valorizando um passado idealizado. Em certo momento Paul afirma que:- "Com os satélites habitados, os ônibus espaciais e as estações orbitais, locais privilegiados para as pesquisas tecnológicas avançadas e a industria de gravidade zero, a arquitetura levanta vôo, o que não deixa de ter conseqüências para o futuro das sociedades, sociedades pós-industriais cujas referências culturais tendem a desaparecer umas após as outras com o declínio das artes e a lenta regressão das tecnologias básicas." As escolhas não deixam dúvida. Para o autor a evolução das técnicas acarreta uma involução da arte. A tese não é nova. Spengler já defendia o contínuo processo de decadência da sociedade ocidental. Nesse sentido, a era digital para Paul é apenas mais um estágio deste processo. Por isso, podemos considerar O Espaço Crítico como um capítulo tardio de A Decadência do Ocidente. Virilio defende a tese de que as micronarrativas digitais tomaram o lugar das grandes narrativas instaurando a crise da narrativa do grande. O trocadilho tem charme, mas no fundo esta afirmação é um pouco superficial. Desde os primórdios da filosofia, os filósofos tentam em vão narrar o grande. Suas narrativas se acumulam, se avolumam, se tornam cada vez mais complexas... No entanto, até hoje os que se dedicam a narrar o grande não foram capazes de chegar a um denominador comum em relação à teoria do conhecimento. A conclusão a que chegamos ao se debruçar sobre a questão é simples:- crise da filosofia não é nova, nem depende das inovações tecnológicas. O Espaço Crítico ataca a desterritorialização provocada pela era "high tech", em virtude desta modificar profundamente a relação do homem com o espaço/tempo. Parece que o autor do livro é incapaz de aceitar a modernidade. Agarra-se anacronicamente à uma concepção de espaço/tempo que acredita não existir mais e nos transmite seu desconforto. Todavia, o autor se esquece que todo processo de comunicação (oral, escrita, etc) desterritorializa de certa maneira o homem, na medida que obriga-o a se concentrar com o que está além do aqui agora, com o espaço/tempo criado pela mensagem. Na verdade Paul Virilio é incapaz de admitir a coexistência de diversas formas de percepção do mundo. Para ele as novas tecnologias concorrem "...para construir uma representação simultânea do espaço e do meio ambiente." Este axioma é fundamental às suas teorias. Sem a unidade perceptiva instaurada pela era "high tech" sua critica do espaço não se sustenta por muito tempo. Há uma história que ilustra bem esta questão. Um filósofo senta-se a beira de um lago ao por do sol. A claridade adormece rapidamente e, em pouco tempo, a penumbra vem acordar a noite. Quando isto ocorre, ele observa o outro lado do lago. Entre algumas árvores esparsas, vê claramente um elefante bebendo água e se pergunta:- como posso estar vendo isto? Neste país não existem elefantes. A imagem que vê acaba levando-o a questionar-se sobre o que ele conhece acerca da fauna e da flora do país em que está. Afinal, apesar do que acredita saber, ele viu um elefante tomando água na beira do lago. A noite cai e ele adormece. No dia seguinte, logo ele percebe que o elefante não estava mais lá onde o vira. Contudo, quando olha atentamente vê que os ramos de uma das árvores toca a água. Então, ele admite a hipótese de que poderia ter sido enganado pelos seus olhos na tarde anterior. Porém, logo ele conclui que morrerá em dúvida. Na verdade ele lembra-se de não ter prestado atenção às árvores. Além disso o elefante poderia ter ido embora. Como vimos, Virilio acredita que a era "high tech" instaura uma unidade perceptiva, que ela não permite ao observador ficar em dúvida. No mundo "on line" não haveria espaço para alguém questionar-se como o filósofo da história. Talvez Paul tenha razão. Só que há um problema. Quem nos garante que a unidade perceptiva que ele acredita ver instaurada pela era "high tech" não é apenas uma imagem? A imagem que ele pensa ter visto ao observar outra coisa? Neste caso não é nossa dúvida, mas a certeza dele que acaba condenando suas conclusões. Além de defender que a era digitar instaura a unidade perceptiva, Virilio acredita ela distancia o sensível e inteligível. "Uma vez que uma tal profusão de dados só pode ser analisada pela informática, a separação entre o sensível e o inteligível aumenta cada vez mais." A grande questão que ele coloca é simples:- o que pode ser conhecido e como. Se adotarmos uma perspectiva de que os sentidos é que permitem ao homem conhecer, Virilio está certo. Caso contrário... Mas deixemos de lado esta questão, porque ela nos obrigaria a retomar uma discussão antiga afastando-nos de nosso objetivo. Sejamos mais práticos. Virilio serve-se da linguagem escrita para comunicar suas idéias. Só podemos compreender sua mensagem porque partilhamos os mesmos referencias lingüisticos que ele. Portanto, é uma convenção que atribui sentido aos caracteres impressos no papel. De outra maneira sua mensagem seria ininteligível. A existência desta convenção não pode ser objeto de uma percepção, mas no entanto ela existe e é perfeitamente cognoscível. Sendo assim antes que a era digital criasse um abismo entre o sensível e o inteligível, a linguagem escrita já havia feito isto ao conferir realidade a uma convenção imperceptível. Novamente chegamos à conclusão de que a era digital não é o princípio do fim nem o fim do princípio da comunicação. Ao criticar a teoria da relatividade, que segundo ele seria o fundamento das inovações tecnológicas nocivas, Virilio se mostra especialmente preocupado com o retorno a um culto solar. Admitamos hipoteticamente que ele tem razão, que à era digital corresponde um culto solar. Se fizermos isto, do ponto de vista antropológico seremos forçados a reconhecer que qualquer culto que tenha adeptos é legítimo. A menos que adotemos uma perspectiva teológica, que defendamos o privilégio de um culto (o nosso), não podemos condenar qualquer outro. Como o autor ataca mais de uma vez este suposto culto solar, podemos concluir que, a propósito de criticar a era digital de maneira científica, Virilio retoma a velha intolerância judaico-cristão. O que se torna mais evidente se considerarmos que ele apoia-se várias vezes no teólogo Dietrich Bonhoeffer e retoma a querela acerca da Missa assistida por uma luneta para ilustrar suas teorias. Em O Espaço Crítico há uma perfeita identidade entre o mundo real e o conceitual. Porque percebe que o segundo está em crise em razão das inovações técnicas, Virilio defende que o primeiro também sofre as conseqüências desta crise. A partir deste ponto, o autor abandona a identidade entre mundo real e conceitual para, lamentando a tragédia digital, mostrar ao leitor quanto o homem distanciou-se da natureza, do mundo físico. Diante da indecisão do autor entre considerar o mundo real e conceitual uma coisa só ou não, é inevitável a pergunta:- a qual natureza, a qual mundo físico Virilio refere-se por último? Em certo momento Virilio afirma:- "... a informação mediatizada das tecnologias avançadas é hoje tão grande que terminamos por transferir..." Que terminamos... Que nós terminados. Que todos nós terminamos... O artifício retórico é evidente. Virilio atribui a todos interlocutores uma tendência que acredita ser verdadeira. Sua hipótese é, portanto, improvada e improvável. Apesar disto, ele a transforma em um axioma, uma verdade incontestável. Axioma cujos resultados necessários explora para confirmar seus próprios preconceitos. Não é difícil perceber que o autor e O Espaço Crítico é um inimigo da velocidade. Ele admite isto na sua obra. Se levássemos suas teorias ao extremo, concluiríamos que ainda deveríamos nos locomover como nossos ancestrais, ou seja, de quatro. Afinal, eretos poderíamos correr... Parece tolice, mas ao me deparar com a questão não pude resistir a tentação de perguntar:- "Será que ele viaja exclusivamente a pé ou fica andando de avião de um lado para outro?" Não que ele não possa andar de avião, até pode. Desde que o avião seja antigo e não vá muito rápido... Para ser coerente com suas teorias Virilio deveria proibir a transmissão "on line" de suas obras integral ou parcialmente. Deixo por conta do leitor a tarefa de conferir. Se quiser ele poderá abrir um site de busca e fazer uma busca para ver o que acontece. Certamente acabará descobrindo que a rede é democrática o bastante para divulgar as idéias do seu maior inimigo. E já que estamos falando de velocidade, somos forçados á lembrar algo importante que talvez tenha passado desapercebido ao crítico do espaço tecnológico. Apesar de todas inovações digitais, os ritmos biológicos do homem continuam surpreendentemente constantes. Nem os novos processadores, nem as modernas placas de fax modem super velozes, nem as fibras óticas foram capazes de alterar o batimento cardíaco dos seres humanos. O coração do homem continua batendo x vezes por minuto e pifando se a velocidade aumentar para 4 x. O que prova que a natureza trabalhada devagar, mais devagar do que deseja Virilio. Neste ritmo a espécie nunca alcançará em termos biológicos a velocidade dos supercomputadores. Paciência. Ainda nos resta o consolo de poder usá-los nos Hospitais para ajudar alguns corações cansados a baterem mais rápido. A velocidade é a fonte de todo mal. Segundo Paul Virilio ela acaba:- "... permitindo, enfim, romper sem dificuldade a distância entre a física e a metafísica." A preocupação do autor não é científica, nem filosófica. Na verdade ela é teológica. Afinal, a partir do momento que a física e a metafísica se fundem não há mais espaço para um Deus onipotente, onipresente e onisciente, pois as distâncias podem ser facilmente superadas sem a intervenção de um ser sobrenatural. Virilio parece assustar-se com a possibilidade da era "high tech" condenar Deus a morte. Neste sentido, somos forçados a concluir que ou ele não é um bom cristão ou se esqueceu que os cientistas não poderiam matar Deus, porque os cristãos fizeram já fizeram isto (como notou Nietzsche no século XIX). Neste ponto, ao que parece, o fundamentalismo antitecnológico do autor cegou-o . A terceira parte do livro inicia-se com o seguinte axioma:- "Esta súbita confusão entre a recepção de imagens emitidas por um projetor cinematográfico e a percepção de formas arquitetônicas indica bem a importância da transformação em curso, transformação da noção de "superfície" e de "face a face" que resultará, como vimos anteriormente, no surgimento da interface." Para Paul Virilio o homem é incapaz de perceber coisas diferentes de maneiras distintas. Mais que isto, é míope a ponto de ver como iguais coisas absolutamente diferentes. Um edifício e sua imagem tridimensional na tela do computador são como água e óleo. Não se misturam nem podem ser confundidos. Por mais que seja fidedigna, a imagem sempre dependerá do suporte em que foi gerada. Ela deixa de existir se o suporte for desligado ou o arquivo eliminado. A menos que seja demolido, o edifício continuará existindo mesmo que um observador fique cego. Enquanto a imagem do edifício pode ser vista simultaneamente em locais diferentes, ele continuará existindo no local onde foi construído. Sendo assim, temos de admitir que vemos o edifício e sua imagem digital de maneiras distintas, porque um objeto é real e o outro não passa de uma simulação. A diferença entre o edifício e sua imagem digital é, de certa maneira, análoga a existente entre ao edifício e sua descrição verbal. A pelo menos 2.000 anos judeus e cristãos conhecem o Templo construído por Salomão tal como é descrito na Bíblia. Qualquer um pode fazer uma imagem mental do Templo lendo-a. Contudo, nenhum homem que não tenha sido contemporâneo à Salomão, ninguém que não tenha residido ou visitado Jerusalém naquela época pode dizer que o viu o Templo tal como ele era. Primeiro, porque há diferença entre a visão de um objeto e a representação mental dele. Segundo, porque a descrição, por mais precisa que seja, nunca será exata e o Templo de Salomão certamente mudou ao longo dos anos em que existiu (se é que ele existiu realmente, pois até hoje os arqueólogos não encontraram os alicerces da construção). Uma das principais objeções de Virilio a era digital é que ela reduz o espaço humano à tela do computador e, por conseqüência, a mobilidade das pessoas. A princípio, foi a natureza e não o Bill Gates que programou o organismo humano. Por isto nosso programa é simples. É imperativo para que o corpo humano se mantenha saudável que o homem alterne entre momentos de movimento e de imobilidade. Por isto, ninguém poderá ficar imóvel diante de um computador por muito tempo a menos que queira suicidar-se. Além disso, ainda que não nos desloquemos mais em bandos como faziam nossos ancestrais, percorrermos a pé distâncias consideráveis todos os dias. Se prestasse um pouco mais de atenção ao movimento das ruas de qualquer cidade moderna, Virilio perceberia que apesar de tantos televisores e computadores os homens continuam caminhando. Se não o fazem todos ao mesmo tempo e na mesma direção é porque deixamos de ser nômades. A propósito, mesmo que admitimos que a tese de Virilio seja verdadeira não podemos aceitá-la incondicionalmente. Afinal, como já observaram os naturalistas, a natureza se preocupa com as espécies e não com os indivíduos. Caso seja realmente nociva, a imobilidade provocada pela era digital acarretará a extinção natural dos usuários de computador. Naturalmente teremos que esperar bastante para ver isto acontecer, pois ninguém nasce programado para sentar-se diante de uma máquina e digitar. Para Paul a televisão e a tela do computador substituíram, respectivamente, as janelas e as portas da casas. Afinal, as informações entram através da TV e o indivíduo sai de casa surfando na rede. Talvez isto seja verdade. Mas também não deixa de ser verdade que os amantes continuarão saindo pelas janelas das casas ao perceberem que os maridos traídos entrarão pelas portas. Além disto, caso Virilio tenha razão, futuramente portas e janelas terão as mesmas funções que os afrescos e pinturas murais tiveram no passado. Para se livrar do enfado de estar cercado de tanta tecnologia, o homem digital olhará pela janela a fim de contemplar paisagem lá fora. Paisagem que cambia segundo a luminosidade natural e tem a vantagem de não poder ser submetida a um programa pré determinado. Ironicamente a era digital poderá acabar fazendo pelo homem o que a natureza não foi capaz de fazer, torná-lo paradoxalmente mais humano. O dia eletrônico preocupa excessivamente o autor. Como vimos, o organismo humano continua e continuará sendo programado para alternar entre movimento e imobilidade, vigília e descanso. Sendo assim, que mal há em alguns dormirem de dia e outros à noite? O que faremos com os seguidores de Virilio que sofrem de insônia? Perguntas, perguntas... Elas sempre complicaram as teorias. Só uma coisa é certa:- a noite foi feita para dormir. Creio que é por isto que a maioria esmagadora das pessoas continua desligando seus televisores e computadores antes de deitarem a noite. Se Hitler estivesse vivo e Virilio fosse alemão, talvez ele tentasse convencer o fürer a mandar queimar televisores e computadores. Só que Goebels se oporia a esta solução final, porque o regime cairia se fossem eliminados os pilares da propaganda. Assim, creio que o Reich preservaria as máquinas criadoras de realidades do ódio virulento de Virilio. Isto talvez o fizesse mudar de opinião. Quem sabe então, teríamos a oportunidade de vê-lo transformar-se num harcker anti-nazi "high tech", uma versão histórica do Neo cinematográfico, infectando os sites oficiais alemães com vírus franceses e derramando na rede mensagens contra o regime em inglês. Uma das principais questões levantadas por Paul é o fato de que o dia-eletrônico altera até mesmo a relação dos homens com a arquitetura. Como a linguagem, a arquitetura é uma invenção humana. E mais, uma invenção que está intimamente relacionada ao domínio do fogo. Já que foi este fato que possibilitou ao homem construir ferramentas resistentes para talhar pedras a fim de levantar templos. Como vimos anteriormente, este salto original em direção à civilização acarretou todas as outras inovações tecnológicas, as quais, por sua vez, implicaram em maiores ou menores modificações na arte de construir. Logo, é "natural" que passemos a construir de maneira diferente na era digital. Fazendo isto, estamos apenas seguindo uma tendência milenar. A menos que estejamos ideologicamente comprometidos com uma determinada forma de construir, temos que aceitar as inovações arquitetônicas decorrentes das inovações técnicas. É assim que uma geração toma literalmente o lugar da outra:- modificando o mundo, inovando-o a partir de suas próprias concepções estéticas. O espaço urbano não tem outra finalidade senão atender as necessidades concretas e estéticas dos homens que ali vivem num momento determinado histórico. A Acrópole de Atenas já foi um espaço urbano. Hoje, entretanto, ela é desabitada. Há séculos a Acrópole deixou de ser a cidadela de uma cidade fortificada e o local onde os atenienses cultuavam seus deuses. Via de regra, ela já não pode nem ser usada como fonte de inspiração arquitetônica tamanha a degradação dos edifícios que a compõe. Só não a demolimos porque nos acostumamos com ela, porque gostamos de visitá-la. Mas isto não quer dizer que ela possa ser considerada como um espaço urbano. Na verdade, na atualidade ela se parece mais com um cemitério. O cemitério de toda uma civilização. Se me perguntarem se sou ou não a favor de sua preservação diria que sim, porque a Acrópole nos remete diretamente à aurora da civilização ocidental. Entretanto, isto não quer dizer que acredite que nós devemos transformar nossas cidades em cemitérios arquitetônicos. Os homens mudam, as cidades devem mudar também. Além disso, o que as gerações futuras farão das suas cidades não me diz respeito, diz respeito somente aos que estão por vir. Virilio não concorda com isto. Paciência... ele tem o direito de discordar, mas não vai conseguir impedir a vida de seguir seu curso. Ainda na terceira parte do livro, Virilio revela que teme o:- "... insidioso descrédito que pesa, há cerca de vinte anos, sobre a extensividade geopolitica, em benefício de uma intensividade transpolítica das trocas e das comunicações, declínio progressivo de um Estado nacional dividido entre as reivindicações de autonomia interna e as necessidades (econômicas e estratégicas) de alianças internacionais." O espaço crítico de Virilio continua, portanto, sendo tributário das teorias de Spengler. Porém, ao contrário de Spengler, o inevitável parece atemorizar Virilio. Ele procura deter o curso natural das coisas, tenta inutilmente evitá-lo. Ao contrário do mestre, ele desafia o princípio da não contradição. Desde IV aC sabe-se que o inevitável não pode ser evitado. Que é tolice desperdiçar energias tentando evitá-lo. Que devemos nos render a ele para, fazendo isto, paradoxalmente superá-lo. Foi aceitando a morte para não renunciar aos seus princípio que Sócrates fundou a filosofia ocidental e, de quebra, condenou ao esquecimento seus perseguidores. Portanto, se a decadência do ocidente é um fato que decorre das inovações tecnológicas, se não há um meio de evitá-las porque ficar assustado alarmando os leitores? Talvez a resposta seja muito simples:- catástrofes vendem mais livros do que boas notícias. O que ocorreria se considerássemos verossímeis as teorias de Virilio? Teríamos que admitir que há uma crise. Uma crise de grandes proporções. Se esta crise é inevitável e não pode ser resolvida, não há nada que possamos fazer. Só que esta conclusão colidiria com uma constante da história humana. Nossa espécie já passou por crises no passado e foi capaz de superá-las. Na Idade Média a peste negra matou 2/3 da população européia e colocou em cheque o sistema de valores e o espaço/tempo construídos pelo cristianismo. Apesar disto, a população européia se recompôs e o cristianismo vai bem obrigado. Este fato nos obriga necessariamente a admitir a vaga possibilidade de que a crise concebida por Virilio será superada. Quem sabe o que ocorrerá? Daqui a dois séculos o nome dele pode ser lembrado apenas porque associado ao filme Matrix. Virilio é especialmente inimigo da teoria da relatividade. Não perde uma oportunidade para atacá-la. Na escala de valores construída em seu livro, a teoria de Einstein ocupa o degrau mais baixo. Ela teria originado a deformação do espaço/tempo tradicionais e acarretou o mal estar da civilização criando as condições de possibilidade da era digital. Parece que ele se esquece que a teoria da relatividade é, antes de tudo, apenas uma teoria. E, como tal, sujeita a ser superada por outra. Eventualmente até mesmo pela concebida em O Espaço Crítico. Embora Virilio ainda não goze de tanto espaço, mas quem sabe daqui a algum ... Até mesmo Einstein enfrentou resistência quando divulgou suas teorias pela primeira vez. Só não sei se o virilianismo conseguirá deter a avalanche tecnológica que felizmente me permitiu divulgar este texto. Como já vimos, o autor defende a unidade perceptiva e a identidade entre o mundo real e o conceitual. No último capítulo, ele vai mais longe. Afirma que a velocidade proporcionada pelas novas técnicas institui uma única forma de mensurar o tempo. "Em uma entrevista concedida recentemente, a propósito do lançamento de seu livro Temps et Récit (editions du Seuil), Paul Ricoeur declarava: "Não somos capazes de produzir um conceito de tempo que seja ao mesmo tempo cosmológico, biológico, histórico e individual." Fazer tal afirmação é, em meu entender, menosprezar as conquistas das ciências e das técnicas, a importância decisiva do fator VELOCIDADE nas novas concepções do tempo." Apesar da crítica feita a Ricouer, Virilio não é capaz de demonstrar como a velocidade produzida pela era digital afeta biologicamente o homem a ponto de fazer seu organismo sincronizar-se com o tempo dos deslocamentos instantâneos "on line". Ao contrário, me parece que o aumento do fluxo de transferência de informações corresponde à diminuição do ritmo biológico. Pelo menos é o que devemos concluir do processo de sedentarização provocado pela era "high tech", sedentarização que foi notada pelo próprio Virilio. Além disso, o ritmo biológico, o tempo subjetivo, depende de variáveis que não estão relacionados ao dia-eletrônico. É a temperatura do corpo determina a maneira como o indivíduo percebe o tempo cronológico. Quanto maior a temperatura corporal, maior a sensação de que o tempo se arrasta. Temperaturas menores criam a sensação de que o tempo passa mais depressa. Como ainda não temos computadores regulando nossas funções orgânicas, chips de temperatura detendo o processo de desaquecimento que acompanha o envelhecimento, segue-se que é impossível uma perfeita sincronia entre o tempo biológico, o cronológico e o instaurado pela era digital. Mas não sou um especialista. Em termos arquitetônicos, a teoria de Virilio se assemelham à uma catedral gótica. Ela foi construída sobre axiomas improváveis que se reforçam mutuamente. Toda estrutura vem abaixo caso um de seus elementos de sustentação sejam retirados. Paul acredita que a infografia extermina as três dimensões assim como a holografia extermina o relevo. Ele diz textualmente isto em sua obra. Esta seria uma conseqüência necessária da unidade perceptiva. Já tratamos do assunto anteriormente discutir a falsa identidade entre o edifício e a sua imagem digital. A informática na verdade não é capaz de exterminar o mundo físico, apenas de dar ao homem a possibilidade de tirar um maior proveito de sua habilidade construtiva em virtude de libertá-lo de limitações aparentes que seriam tomadas como reais caso ele construísse pelos métodos tradicionais. Mas isto não quer dizer que construiremos edifícios digitais suspensos nas nuvens porque isentos à lei da gravidade. Que levantaremos arranhas céus eletrônicos capazes de saírem ilesos de um terremoto de grandes proporções. A impossibilidade de distinção entre real e simulado é uma hipótese elegante. Até ajudou os roteristas de Matrix conceberem um dos melhores filmes dos últimos anos. Mas nem por isto deixa de ser absurda. No último capítulo do livro o autor pergunta:- "Como viver verdadeiramente se o aqui não o é mais e se tudo é agora?" Para ser coerente com sua preocupação, Virilio deveria fazer como aquele filósofo grego que emudeceu ao descobrir a impossibilidade da comunicação. Note-se que o estranhamento sentido pelo autor poderia muito bem ser atribuído à leitura. Quando leio a História dos Judeus, de Flávio Josefo, também me desloco para outro tempo e espaço. Meu interlocutor morreu a quase 2.000 anos e, no entanto, vive através das palavras através das quais comunica-se comigo. Talvez isto devesse me deixar confuso, intrigado, exatamente como Virilio sente-se diante de uma conferência "on line". A diferença é que enquanto estou habituado à leitura e não me sinto desterritorializado em razão dela, o autor não consegue acostumar-se às novas tecnologias. Há milhares de anos estamos habituados à escrita e aos efeitos virtuais que ela produz. Já nos acostumamos tanto à ela que consideramo-la "natural". Embora ela seja uma construção humana. A era digital começou há algumas décadas. É "natural" que provoque algum estranhamento. Mas ele logo passará assim como ocorreu no passado quando da invenção de outras técnicas que revolucionaram as comunicações. Um pouco mais adiante, Paul nos lembra que com o navio inventamos também o naufrágio. É verdade... Mas também é verdade que o número de naufrágios é muito inferior ao de viagens bem sucedidas e por isso ainda não abandonamos os transportes marítimos e fluviais de mercadorias. Em certo momento o ininfofilósofo compara o duplo eletro-ergonômico de presença espectral a um fantasma, a um morto vivo. Como não acredita na força de seus argumentos, Virilio apela para um sentimento irracional. Pretende atemorizar o leitor para convencê-lo a afastar-se das novas tecnologias. O mesmo ocorre em relação à alegada "poluição dromosférica". Na verdade, o autor não consegue livrar-se da influência judaico-cristã. Afinal, adota uma perspectiva quase apocalíptica para descrever os nefastos efeitos da rede de computadores. Empolgado em sua cruzada judaico-cristã contra a infiel informática, Virilio pergunta:- "De que serve a um homem ganhar o mundo inteiro se ele termina por perder sua alma?" O autor acusa a tecnologia de produzir uma sedentarização terminal e definitiva. Como? Por acaso além de ininfofilósofo ele também é vidente? Ninguém sabe ou pode saber o futuro da humanidade. Quando perguntaram a Einstein como seria a 3ª guerra mundial, ele disse que não tinha a menor idéia. Apesar disso, tinha certeza de que a 4ª guerra mundial seria de paus e pedras. Se o físico alemão tiver razão, Virilio certamente ficará satisfeito, pois a humanidade retornará a um ponto em que as novas tecnologias não afetarão mais suas relações interpessoais. " "Tu fizeste do mundo uma cidade" dizia o galo-romano Namatianus ao repreender César. Há pouco tempo, este projeto imperial se tornou uma realidade quotidiana que não podemos mais ignorar em termos econômicos, e menos ainda culturalmente." Ao fazer esta comparação Paul se esquece que há uma diferença entre o uso da força física e o uso pacífico da física. A superioridade militar romana e a Internet são diferentes e produzem efeitos igualmente diferentes. Como bem observou Pierre Levy, a rede tende a valorizar a diferença e não a produzir um padrão cultural homogêneo. Também não podemos nos esquecer que a cultura romana sofreria uma influência significativa dos povos submetidos pela força. A ponto de não podermos comparar a Roma de Otávio augusto à Roma de Constantino. A preocupação do autor com o declínio do espaço local em benefício do espaço transcendental é louvável e até parece sincera. Entretanto, ele se esquece que o homem tende a se cansar das novidades rapidamente. Assim, por via indireta esta desterritorização proporcionada pode acabar levando as pessoas a considerarem exótico não o espaço transcendental mas o local em que vivem. E como gostamos do que é exótico... Ao que parece Paul Virilio olhou rápido demais a Internet e se assustou com a velocidade que viu nela. Mas aonde está esta velocidade? No olho do observador ou no objeto observado? A frase de Van Gogh que emprega para ilustrar suas teorias pode muito bem ser aplicada às suas conclusões.
|